Empresa digitalizou só 9% de prontuários, mas recebeu 11x mais do que produziu
Redvalue embolsou R$ 2,1 milhões em 14 meses, mas o correto seria de apenas R$ 190.934,75 pela produção

A Redvalue Tecnologia, Administração e Serviços digitalizou apenas 9% de páginas de prontuários da Santa Casa, mas recebeu o valor total do serviço. Em 14 meses, de janeiro de 2025 a fevereiro de 2026, conforme dados do Gecoc (Grupo Especial de Combate à Corrupção), a empresa investigada na Operação Antidotum, transformou apenas 3.818.695 páginas de papel em arquivo digital. A meta era 42 milhões.
RESUMO
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A empresa Redvalue Tecnologia digitalizou apenas 9% das páginas de prontuários da Santa Casa de Campo Grande, mas recebeu R$ 2,1 milhões pelo serviço completo. A meta era digitalizar 42 milhões de páginas, mas apenas 3,8 milhões foram concluídas. A presidente da instituição, Alir Terra Lima, manteve o contrato mesmo após recomendação de suspensão pelo Conselho Fiscal. Seis pessoas foram presas na Operação Antidotum por desvio de recursos públicos.
Apesar disso, ela recebeu o valor integral mês a mês, totalizando R$ 2,1 milhões, mas deveria ter embolsado apenas R$ 190.934,75. Conforme o Gecoc, “até 18/02/2026 foram digitalizadas apenas 3.818.695 páginas, o que totaliza R$ 190.934,75. Ressalte-se que, nos termos (do contrato), a capacidade estimada prevista por mês era de 3.000.000 páginas, parâmetro utilizado para justificar o pagamento mensal de R$ 150.000,00”.
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Há destaque ainda para o fato de que “não obstante a baixa produção registrada, apurou-se que os pagamentos à empresa contratada foram realizados de forma integral pela Diretoria da Santa Casa, sem a correspondente execução dos serviços, o que demonstra elevado desvio de recursos públicos”.
As informações são do pedido de prisão feito pela 29ª Promotoria de Justiça de Campo Grande e pelo Gecoc, que detalha as ações do grupo e aponta o papel da presidente da Santa Casa, Alir Terra Lima, no esquema. Ela assumiu a diretoria no mês de fevereiro de 2023.
O Gecoc relata que a presidente sustentou o contrato de serviço da Redvalue, mesmo depois que o Conselho Fiscal do hospital recomendou a suspensão do trabalho de digitalização por encontrar irregularidades, mas Alir não acatou.
E mais que isso. Ao ser chamada a dar explicações sobre o contrato à 32ª Promotoria de Saúde, Alir Terra tentou justificar a suposta vantagem da contratação, mencionando "falsamente a existência de outros sistemas que seriam entregues pela empresa", mas que "não guardam qualquer relação com o objeto do contrato investigado".
"Trata-se, portanto, de tentativa de conferir aparência de maior complexidade e vantagem econômica a uma contratação que, na realidade, possui objeto delimitado e específico, utilizada para desviar dinheiro público", é taxativo o Gecoc.
Dissimulação - Além disso, o Same (Serviço de Arquivo Médico e Estatística) da Santa Casa, nas pessoas da supervisora Monique Gregório, do fiscal do contrato, Alessandro Dias Junqueira e o gestor, Rinaldo Romano (todos presos), atestaram falsamente que o objetivo estava sendo atingido pela empresa e ainda apresentou pedido de aditivo na contratação à Coordenação de Custos.
"Ainda conforme análise dos dados telemáticos, RINALDO ROMANO e ALESSANDRO JUNQUEIRA não interromperam a contratação, muito pelo contrário, em 23 de maio de 2025, ambos subscreveram solicitação de aditivo contratual, propondo reduzir a meta mensal de três milhões para um milhão de páginas. Entretanto, a alteração preservaria exatamente a mesma remuneração máxima mensal (...). RINALDO ROMANO e ALESSANDRO JUNQUEIRA afirmaram que não haveria impacto financeiro, mas omitiram que a produtividade seria reduzida em 66% e que o custo unitário sofreria aumento de 200%."
Vale destacar que conforme a investigação, Rinaldo Hakme Romano, após instaurar o processo de contratação da companhia de tecnologia, não fez estudo de referência de preços de mercado e ainda recebeu a minuta de texto de contrato do dono da Realvalue, Maurício Aparecido Benites, também preso.
Na decisão da juíza do Núcleo de Garantias, que autorizou as prisões e a busca e apreensão, May Melke Amaral Penteado Siravegna, reforçou que empresas listadas para dissimular uma pesquisa de mercado tinham ligação com Maurício Benites.
Tanto que "os elementos até então reunidos indicam ter sido o procedimento iniciado sem estudo técnico preliminar, termo de referência, análise de viabilidade ou demonstração objetiva de vantajosidade, mediante cotações provenientes de empresas que, embora formalmente distintas, apresentariam vínculos diretos com MAURÍCIO APARECIDO BENITES".
Com isso, ela deliberou pelas prisões de Alir Terra Lima, Rinaldo Hakme Romano, Alessandro Dias Junqueira, Paulo Guilherme Gutierres Mariosa, Monique Gregório de Oliveira e Maurício Aparecido Benites.
Já a determinação para serem afastados de suas funções na Santa Casa e na operadora do hospital, bem como não se aproximarem do local, recaiu sobre o advogado da unidade, Paulo da Cruz Duarte, e Beatriz Lemes da Silva, que respondiam pelo setor de plano de saúde do hospital.
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