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Imagens que constroem mundos: 25 anos após o 11 de setembro

Por Francirosy Campos Barbosa (*) | 12/09/2026 13:00

Era uma terça-feira. Eu estava no Laboratório de Imagem e Som em Antropologia, para uma reunião do Grupo de Antropologia Visual, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, ambos coordenados por Sylvia Caiuby Novaes, quando Mariana Vanzolini nos avisou sobre o que estava acontecendo. Foi impactante para todos nós que estávamos ali. Quando ouvi as primeiras notícias atribuindo os atentados a árabes/muçulmanos, liguei imediatamente para uma amiga da comunidade islâmica.

Eu havia depositado minha dissertação de mestrado poucos dias antes, e a defesa estava marcada para 2 de outubro. Naquele momento, tive a sensação de que tudo o que eu havia escrito talvez já não valesse para muita coisa. Ledo engano. Imagem oculta: reflexões sobre a relação entre os muçulmanos e a imagem fotográfica, minha dissertação, tratava justamente das fotografias que os muçulmanos produziam de si mesmos, das imagens por meio das quais se apresentavam e construíam suas próprias narrativas, assim como das formas pelas quais a imprensa e eu mesma, como pesquisadora, os representava. Este tema seria ainda mais importante para direcionar as minhas pesquisas futuras.

De repente, o mundo passaria a produzir outras imagens sobre os muçulmanos e sobre o Islam. E uma delas se imporia com uma força devastadora: a imagem do terror.

Minha pesquisa e as de outros colegas antropólogos foram profundamente impactadas. Mudou também nossa forma de estar no ambiente acadêmico. Passamos a receber e-mails, mensagens e contatos, alguns indiretos, vindos de diferentes setores. Certa vez, conversando com um colega que pesquisava o mesmo tema, comparamos as mensagens que estávamos recebendo. Chegavam, inclusive, propostas para estudar nos Estados Unidos, com bolsas e bons financiamentos para pesquisar os muçulmanos.

Há 25 anos, os muçulmanos se tornaram um dos alvos preferenciais da mídia, das manchetes e do discurso de ódio internacional. A islamofobia cresceu de tal maneira que eu, depois de décadas estudando imagens, performances e as formas pelas quais os muçulmanos constroem suas próprias representações, precisei me voltar também para os estudos sobre islamofobia. Era necessário compreender não apenas as imagens que as pessoas produziam de si mesmas, mas também aquelas que passaram a ser produzidas contra elas.

Nós, pesquisadores do Islam – e acredito poder falar também a partir da experiência compartilhada com muitos colegas –, sabemos o quanto aquele período foi doloroso para a comunidade islâmica no Brasil. Foi avassalador. Em alguma medida, esse impacto seria depois atenuado pela novela O Clone, que estreou em 1º de outubro de 2001 e colocou em circulação outras imagens e narrativas sobre muçulmanos, árabes e o Islam. Mas não foi suficiente para desfazer uma imagem que foi construída tão violentamente no imaginário das pessoas.

Presenciei, no trabalho de campo, a dor de 2001. Depois, a de 2002, de 2003 e dos anos que se seguiram. Presenciei as marcas deixadas pelas suspeitas, pelos estereótipos, pelos preconceitos e pelas diferentes formas de violência dirigidas a pessoas muçulmanas que nada tinham a ver com os atentados de 11 de setembro.

Vinte e cinco anos depois, continuamos produzindo etnografias, formando e orientando novos pesquisadores e investindo o máximo que podemos em pesquisas sobre o Islam e sobre comunidades islâmicas, no Brasil, em contextos de diáspora e no Oriente Médio.

Passei boa parte da minha trajetória acadêmica estudando e produzindo imagens sobre o contexto islâmico no Brasil. O 11 de setembro me mostrou, de maneira brutal, que as imagens não apenas representam o mundo. Elas também constroem mundos, produzem imaginários, alimentam medos e ajudam a definir quem será visto como semelhante e quem será transformado em ameaça.

Após o 11 de setembro, países de maioria muçulmana foram submetidos a guerras e a inúmeras formas de violência. Afeganistão e Iraque são exemplos incontornáveis. Assistimos também ao silenciamento em torno da violência sexual contra mulheres durante a Guerra do Iraque. Carmen Rial aborda essa questão em Guerra de imagens e imagens da guerra: estupro e sacrifício na Guerra do Iraque. O artigo analisa o silenciamento da mídia global sobre os estupros de mulheres muçulmanas cometidos por soldados e mercenários norte-americanos no Iraque. A partir de uma perspectiva antropológica, Rial discute as imagens e também os silêncios e as ausências de imagens produzidas em torno dessas violências, refletindo sobre a presença e a representação das mulheres nesse espaço predominantemente masculino que é a guerra.

Há, por fim, um paradoxo que não pode ser ignorado: ao mesmo tempo que, após o 11 de setembro, os muçulmanos passaram a ser sistematicamente associados ao terrorismo no imaginário midiático internacional, populações muçulmanas estiveram entre as principais vítimas do próprio terrorismo. Organismos internacionais já chamaram a atenção para o fato de que uma parcela expressiva das vítimas do terrorismo é muçulmana, realidade que se evidencia pela concentração dessa violência, nas últimas décadas, em países como Iraque, Afeganistão, Paquistão e Síria e, mais recentemente, em regiões africanas com expressiva população muçulmana. Uma das perversidades do pós-11 de setembro foi justamente essa inversão: populações profundamente atingidas pelo terrorismo foram transformadas, pelas imagens, pelas manchetes e pelos discursos, de vítimas em suspeitas, alimentando estereótipos, preconceitos e a islamofobia.

Falar sobre esse dia é importante porque nos conecta a um passado cujas consequências foram e continuam sendo profundamente dolorosas para os muçulmanos em diferentes partes do mundo.

Desde então, estereótipos que representam as mulheres muçulmanas como submissas e os homens muçulmanos como terroristas passaram a ocupar de forma recorrente a mídia impressa, televisiva e, mais recentemente, as redes sociais, reforçando preconceitos e alimentando diferentes formas de islamofobia.

(*) Francirosy Campos Barbosa, professora da USP (Universidade de São Paulo).

 

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