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Você deseja, ou foge?

Por Gillianno Mazzetto (*) | 13/06/2026 10:50

Caro(a) conviva,

Existe uma diferença entre querer a água porque se tem sede e querer a água porque se tem medo de nunca mais ter sede. O primeiro é desejo. O segundo é prisão.

Nós raramente paramos para distinguir os dois. Vivemos numa época que celebra a intensidade do querer sem questionar sua natureza. Queremos mais dinheiro, mais reconhecimento, mais conexões, mais curtidas, mais experiências, e confundimos essa avalanche de apetites com vitalidade. Como se desejar muito fosse prova de que estamos vivos.

Mas há dois tipos de desejo que habitam o ser humano, e eles se movem em direções opostas. O primeiro nasce da falta, e é o mais comum. Ele surge do vazio, da ausência, da ferida. É o desejo que persegue porque falta algo. Que acumula porque teme perder. Que busca aprovação porque não se aprova. Que consome porque está vazio.

O Tao Te Ching, aquele livro de sabedoria que Lao Tsé teria escrito há vinte e cinco séculos, fala sobre esse estado com precisão quase clínica: o homem que nunca está satisfeito não é aquele que tem pouco, é aquele que ainda não entendeu a si mesmo.

Já o segundo tipo de desejo nasce da plenitude, e é raro, porque exige uma coragem que os contemporâneos têm dificuldade em cultivar: a coragem de estar bem. Esse desejo não persegue; flui. Não acumula; escolhe. Não reage; cria.

Pense num músico que ama o que faz. Ele ensaia com rigor, quer tocar bem, busca melhorar. Mas quando sobe ao palco, não está fugindo de algo, está indo em direção a algo. O desejo o eleva. Não o asfixia. Há uma diferença enorme entre essas duas posições, e ela não está no esforço. Está no lugar a partir do qual o esforço nasce. Olhe ao redor. Melhor: olhe para dentro.

Vivemos numa cultura que não nos coage de fora, ela nos ensina a nos coagir por dentro. Não há mais um algoz visível, um chefe que explora, um sistema que impõe. Há algo mais sutil e mais devastador: aprendemos a ser nossos próprios carrascos. Nos autoexigimos, nos autovigiamos, nos autoexaurimos, e chamamos isso de ambição.

O filósofo Byung-Chul Han tem um nome para esse estado: esgotamento do sujeito de desempenho. O homem que colapsou não foi vencido pelo inimigo. Foi vencido por si mesmo. É o desejo da falta com roupa nova. Mais sofisticado. Mais invisível. Mais perigoso.

Foucault, décadas antes, já havia percebido o mecanismo: o poder moderno não precisa de muros para funcionar, ele se instala na cabeça das pessoas. O vigilante mais eficiente é aquele que nunca precisa aparecer, porque o vigiado já interiorizou as regras. E o desejo da falta opera exatamente assim. Não vem de fora. Vem de dentro. É uma voz que parece nossa, que usa nossa própria língua, mas que nos diz, sem cessar, que ainda não somos suficientes.

Já fui, por muitos anos, um praticante disciplinado desse desejo. Confundia ambição com ansiedade. Achava que o desconforto permanente era sinal de que eu estava crescendo. Como se a paz fosse um luxo para quem já tinha chegado, e eu, claro, nunca tinha chegado em lugar nenhum. A meta era sempre a próxima meta. A conquista era sempre o trampolim para a próxima conquista. E nesse movimento perpétuo, algo essencial escapava: o presente.

O desejo da falta nos instala permanentemente no futuro. Ele nos diz: quando tiver aquilo, serei feliz. Quando resolver aquilo, descansarei. Quando chegar lá, poderei respirar. E o agora, esse único lugar onde a vida realmente acontece, vai sendo empurrado para depois. Sempre para depois. A pergunta que me faço, e que deixo com você, é desconfortável por sua simplicidade: de onde nascem os seus desejos?

Não os desejos que você declara em público. Os outros. Aqueles que te acordam às três da manhã. Aqueles que fazem você checar o celular compulsivamente. Aqueles que te fazem trabalhar no domingo não por amor, mas por medo de ficar para trás. Aqueles que te fazem comprar o que não precisa, aceitar o que não quer, sorrir quando está com raiva. São desejos que te movem, ou que te perseguem?

O desejo nos eleva quando não nos domina. Quando somos nós que o carregamos, e não ele que nos arrasta.

Pense nisso.

(*) Gillianno Mazzetto é filósofo e doutor em psicologia

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.