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Beba das Crônicas

A menina dos cabelos longos, que me levou pra longe

Por André Alvez | 22/07/2022 10:17

Para Graziela Bartiê.

Só queria falar do meu amor, das coisas que sinto e muitas vezes me calo, no tímido receio de parecer exageradamente romântico ou algo assim.

Então esqueço a voz, pinço letras, dito ao papel sentimentos que só consigo expressar quando escrevo, e um carrossel de imagens vai surgindo na minha mente... Nos fundos da casa de madeira cinzenta, havia um pé de manga e no tronco mais forte, pendia uma corda sustentando um pedaço de madeira, formando o seu único brinquedo, o balanço.

As coisas dentro de casa, o álcool dominando o pai, causavam sofrimentos, mas ela prendia a dor sem deixar escapar o soluço, na certeza que as lágrimas enfraqueciam a alma e não curavam a dor. Nem tinha dez anos, mas, graciosa, já era conhecida por toda a vizinhança pelo apelido: “Chinha”. Até hoje, muitos a chamam assim e ele adora.

Nos fins de tarde, depois das tarefas escolares, as andorinhas cortavam os céus e ao mesmo tempo o sol começava a se pôr no horizonte. Ela então corria de braços abertos, sentindo a brisa da liberdade a cortar seus cabelos longos e jogava o corpo no balanço, deixando a tristeza para trás.

Num impulso, seus pés voavam o mais alto possível, quase jogando longe o velho chinelo, esparramando pelo ar os fios dos cabelos dourados que aos poucos se transformavam em raios de sol. Sabia rir e cantar ao mesmo tempo, da voz escapava uma canção de sucesso: “Ê, ê, ê, menina de cabelos longos, quero te levar para longe, no primeiro bonde a gente pode partir”.

Eu era um rapazote, passava por perto às vezes, mas ainda não ouvia a sua voz, sequer desconfiava que embaixo do pé de mangueira estava a minha luz. Seguia em frente, sobrevivendo com meus pés descalços, o corpo magro se equilibrando contra as tempestades que também invadiam a minha casa. Vidas difíceis.

Ela tinha o balanço e eu o campinho de futebol. O resto era pesadelo, que só as virtudes das mães podiam suplantar.

E o sopro do vento me fazia sonhar com ela muito antes de conhecê-la, na ressonância lírica de uma voz que me chegava aos ouvidos afirmando que em breve iria encontrá-la.

O tempo passou e chegou o momento daquela moça entrar na minha vida. Quando a tive diante dos meus olhos, sabia que ela seria a minha companheira, que juntos construiríamos a família que sempre sonhamos.

Ela relutou no começo, desconfiada dos perigos lá de fora, mas aceitou o desafio assim que me ouviu pedir: Desça desse balanço menina bonita, vamos construir a nossa própria família. E fiquei espantado ao percebê-la tão forte. Foram tantos os desafios, percalços quase intransponíveis, só a força daquela menina dos cabelos compridos poderia se transformar na injeção de coragem que quase nunca tive, sendo a luz que até hoje ilumina o nosso caminho. Lutamos juntos, apanhamos às vezes, mas vencemos a maioria das batalhas.

Dois filhos vieram: a flor e o fruto, e uma outra chama nos abrasou de repente, um neto, que a chama de Gaga, e no seu sorriso criança nos envolve nos seus dedos pequenos e no abraço forte de tanto amor. A nossa família. Trinta e dois anos se passaram e hoje acordo ao seu lado enquanto um novo dia começa lá fora.

Seus cabelos longos me apanham e seguimos caminhando.

É com meus olhos juntos aos seus que enxergo o mundo, até, quem sabe, nos transformamos num casal de velhinhos, lá adiante no tempo, juntando as mãos em silêncio, abraçados num brinquedo de balanço pendurado numa árvore no quintal.

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