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Beba das Crônicas

A sociedade secreta dos amantes de filmes em preto e branco

Por André Alvez | 03/04/2021 11:11

Pertenço a uma sociedade secreta que adora filmes em preto e branco.

Não vou os contar detalhes, como disse, é uma sociedade secreta. Mas posso dizer que quando a tarde ameaça ir embora, estico os ossos no sofá logo depois de esquentar uma caneca de leite com chocolate para ver na tevê filmes em preto e branco numa dessas plataformas de streaming.
As opções são tantas que fico um bom tempo zapeando com o controle remoto em busca de um daqueles filmes de neve caindo na aba do chapéu do mocinho, que pisca o olho, desviando a fumaça do cigarro que sobe, inibindo de vez a desavisada mocinha, tão linda e ingênua, o corpo magro e branco recolhido em meio ao peito num aperto de ombros.

Filme antigo é cativante até no título: O homem que matou o facínora, Como era verde o meu vale, Psicose, Cidadão Kane, A felicidade não se compra...

 Tarde caindo, filme antigo, sono gostoso, leve cochilo, pensamentos desalinhados: minha barba podia cair abaixo do queixo, algo parecido com a barba de Hemingway, soberbamente grisalha. Num instante meus dedos tocam o controle remoto e busco o filme baseado no livro de Hemingway: Por quem os sinos dobram. Encontro, mas não gosto porque é colorido, deixo rodar um pouco, só para ver Ingrid Bergman. Pobre Gary Cooper, fica feio diante de tanta beleza.

Os ossos do corpo doem, pedem uma esticada, então deixo meus pés roçarem um vaso de flores num canto da sala, as cores aos poucos abandonando meus olhos, lançados ao preto e branco na tevê.

 O copo de leite com chocolate esfria e um gato repousa mansamente entre meus dedos. Num click desavisado, apanho cenas de “E o vento levou”, o primeiro filme colorido, a minha mente se prende à beleza de Scarlett O'hara, mais precisamente aos olhos de Scarlett, verdes ou azuis, nunca soube ao certo.

Mais um click, outro filme em preto e branco surge diante dos meus olhos: O falcão maltês, um clássico noir com Humphrey Bogart.

E não tem jeito, Bogart me remete automaticamente a Casablanca e o fascínio toma conta de mim, como um lápis desenhando na parede o rosto perfeito de Ingrid Bergman.
Ah, aquela cena da despedida, a canção, "As Time Goes By"...
 Casablanca é meu filme antigo preferido, mas não consigo deixar de imaginar para ele outros finais, algo bem mais feliz,  na última cena a câmera se aproximando aos poucos, registrando o beijo final, Ingrid entregue, os lábios oferecidos num olhar aberto, um dos braços envolvendo o pescoço de Bogart, o outro caído rumo ao chão, como quem desfalece, enquanto o avião avança solitário na noite fria.

Mas a cena final é aquela tristeza e o mocinho é de pedra. Bogart, puro Bogart.
Um pensamento bobo me assoma, será que ele vai apressar o beijo na ânsia de acender outro cigarro?

Fim do filme.

O preto e branco nos meus olhos vai dando lugar às cores do mundo real.

Ao desligar a tevê, um olhar através da janela, o silêncio da noite invadindo o final da tarde, abafado pelo latido longe de um cachorro, fazendo caminhar na minha mente uma frase de Fernando Pessoa: “ Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta".
 Qual seria a reação de Fernando Pessoa se pudesse assistir Casablanca? Estupefação e encantamento, para logo depois imaginar outro final. E Hemingway? Certamente assistiu e detestou o final. Ernest teria embarcado o casal e explodido o avião. Mais tarde, depois de um breve cochilo, escreverei algo sobre os murmúrios dos poetas mortos, a ansiedade insana dos que ainda respiram (alguns membros daquela sociedade que falei no início dessa crônica) e a nossa vã tentativa de definir a cor da água através da escrita.

E o final nunca será o mesmo.

Por enquanto só consigo pensar num lápis pontiagudo riscando as páginas abertas na minha mente, bebendo o que resta de leite com chocolate, frio, feito os olhos de Bogart diante do avião sumindo entre as nuvens escuras.

Um ruído e começo a enxergar tons leves azulados nas bordas dos vãos da porta, deitando meus olhos no canto da sala, na qual repousa o vaso de flores das pétalas murchas, seco e sem cor, mas quase tão maravilhoso quanto um filme em preto e branco.

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