Feito à mão por alunos, robô "Banguela" vai de Naviraí competir no México
Grupo com 10 estudantes é o único de MS na disputa; para alguns, será a primeira viagem internacional
RESUMO
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Dez estudantes de Naviraí, no Mato Grosso do Sul, viajaram nesta segunda-feira (20) para a Cidade do México com o robô Banguela, inspirado no filme Como Treinar o Seu Dragão, para disputar uma competição internacional de robótica que reunirá equipes de mais de 35 países entre quinta-feira (23) e sábado (25). O grupo será o único representante sul-mato-grossense no torneio.
Banguela ainda não estava completamente pronto para viajar. Horas antes do embarque, faltavam retoques na pintura preta, alguns detalhes inspirados em um dragão e mais algumas repetições na arena. Nada que assustasse os dez estudantes de Naviraí que, na noite desta segunda-feira (20), deixam Mato Grosso do Sul para disputar uma competição internacional de robótica na Cidade do México.
O robô recebeu o nome do personagem do filme Como Treinar o Seu Dragão. Tem olhos de LED, características que lembram o dragão da animação e marcas das mãos dos próprios alunos, responsáveis não apenas pela pintura, mas também pela montagem, programação e operação da máquina.
“É um pouco do que traz personalidade para o nosso time. A gente sempre gosta de ser inovador, então trouxe essa criatividade para o robô”, explica Letícia Scotti Borba, de 16 anos, enquanto ainda planejava terminar os últimos detalhes de Banguela antes da viagem.
A estudante está no terceiro ano do ensino médio e tornou-se programadora do robô quase por acidente. Antes de entrar para o projeto, não tinha qualquer interesse pela área e chegou perto de recusar o convite.
“Eu mesma nunca gostei de robótica. Quando me chamaram para a equipe, quase recusei. Aceitei e hoje amo”, conta. A mudança veio acompanhada de um desafio ainda maior: aprender a programar sem qualquer experiência anterior.
“Eu não sabia programar. Me colocaram para ser programadora e tive que me virar do zero. Sou ruim em exatas mesmo e virei programadora do robô. Dá para fazer sem ser de exatas? Dá, porque eu faço”, brinca.
Na arena, a missão de Banguela parece simples até o cronômetro começar a correr. Ele precisa recolher bolas verdes e roxas, chamadas oficialmente de “artefatos”, e lançá-las em um gol. A pontuação, porém, não depende apenas da quantidade de acertos. O robô também precisa organizar as cores conforme uma sequência definida para a partida e retornar à base antes que o tempo termine.
Quatro robôs participam de cada confronto, divididos em duas alianças. Nas classificatórias, as parcerias mudam ao longo das rodadas. Depois, as equipes mais bem colocadas escolhem com quem disputarão as eliminatórias. Por isso, o adversário de uma partida pode se tornar aliado pouco tempo depois.
Parte do desafio ocorre de forma autônoma, quando o robô executa sozinho os comandos inseridos previamente na programação. No restante da prova, Banguela depende de dois estudantes diante dos controles e de uma equipe inteira acompanhando cada movimento.
Gustavo Umbelino Amaral e Lucas Brum Amorim dividem a operação. Enquanto um cuida de funções como deslocamento, coleta e lançamento, o outro ajusta a velocidade e a angulação dos mecanismos. O objetivo é completar o ciclo de recolher e lançar três bolas no menor tempo possível.
“Se um do time não estiver conectado, não dá certo. Se ele pegar a bolinha e o outro não jogar, não funciona”, resumem. Além dos operadores, há o jogador humano, responsável por posicionar os elementos na arena, e integrantes que observam o jogo para orientar a estratégia.
A competição deve reunir equipes de mais de 35 países entre quinta-feira (23) e sábado (25). Os estudantes de Naviraí serão os únicos representantes de Mato Grosso do Sul. Antes de pensar nos adversários, entretanto, alguns deles precisam lidar com outra estreia: a primeira viagem internacional.
Maria Vitória Ferreira Nascimento conta que nunca saiu do Brasil. Para ela, a proximidade do embarque fez reaparecer, de uma só vez, tudo o que o grupo viveu desde o início da preparação, no ano passado.
“Ir para o México faz passar um filme na nossa cabeça, de todas as etapas e de todos os projetos que a gente fez. Nunca fui para fora do país. Estou muito ansiosa e espero que seja uma experiência muito boa”, diz.
O idioma também entrou na lista de tarefas. Além de conferir peças, cabos, comandos e documentos, os estudantes devem aproveitar o caminho até o México para ensaiar a apresentação que farão aos avaliadores.
“Durante a viagem, vamos continuar treinando, ensaiar a apresentação e repassar tudo, porque ninguém aqui é 100% no inglês”, explica Letícia. Sobre o espanhol, Maria Vitória responde com a mesma lógica usada diante dos desafios da robótica: “A gente vai aprendendo”.
Entre uma rodada e outra, os pontos turísticos da Cidade do México também despertam curiosidade. Gustavo e Lucas admitem que estão ansiosos para conhecer o país, mas sabem que a maior parte da viagem será passada entre inspeções, entrevistas com jurados, treinos e partidas.
Dentro do projeto, nem todos exercem a mesma função. Há alunos concentrados na montagem, na mecânica e na programação de Banguela, enquanto outros cuidam dos projetos apresentados aos avaliadores e de atividades que levam experiências de ciência, matemática e tecnologia a outros estudantes. O resultado que aparece na arena começa muito antes de o robô ser ligado.
O professor Fernando Luiz Gonçalves explica que ninguém precisa chegar à equipe sabendo construir ou programar uma máquina. Como o número de vagas é limitado, a escola considera o rendimento, a frequência e o comprometimento dos estudantes. O conhecimento técnico é desenvolvido depois, durante os treinos.
“Qualquer um pode aprender. Eles não precisam ter conhecimento prévio. Depois que entram na robótica, aprendem tudo o que precisam”, afirma. Segundo o professor, quase todos os dias surge um problema diferente: uma peça que não responde como deveria, um comando que precisa ser revisto ou uma estratégia que funciona no treino, mas falha sob a pressão da disputa.
Para o superintendente do Sesi MS, Régis Borges, a viagem representa o resultado de uma preparação longa. Ele destaca que, embora a máquina seja a parte mais visível, o trabalho exige que os estudantes planejem, comuniquem ideias, dividam responsabilidades e encontrem soluções em conjunto.
Na preparação final, essa explicação estava diante de todos. Banguela não responde a um único estudante, não foi programado por alguém que já sabia tudo e tampouco chegou pronto às mãos do grupo. Precisa de dois controles, estratégia, programação, mecânica e dez adolescentes atentos ao mesmo objetivo.
Na hora da entrevista, ainda faltavam tinta, ensaio em inglês e algumas sequências de treino. Mas o robô já carregava na estrutura preta o sinal mais claro de como chegou até ali: as marcas das mãos de quem o construiu.
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