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Cidades

Em 2021, vivemos o "novo normal": mas e como será o ano que vem?

Passados quase dois anos de pandemia, muitas lições foram ensinadas à população e práticas poderão continuar

Por Guilherme Correia | 31/12/2021 06:49
De máscara, homem anda pela cidade carregando sacolas de compras. (Foto: Marcos Maluf)
De máscara, homem anda pela cidade carregando sacolas de compras. (Foto: Marcos Maluf)

Volta ao normal, e não ao "novo normal". Essa é uma vontade que muitos têm para o próximo ano, mas certas lições - ensinadas a duras penas - podem fazer com que algumas práticas continuem vigentes por parte da população. Para especialistas em saúde consultados pelo Campo Grande News, a manutenção da vacinação, o uso de máscaras e e outros cuidados serão importantes aliados, ao menos, por algum tempo.

O pesquisador da Fiocruz e professor de Medicina na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), Everton Lemos, explica que os dois anos de pandemia no mundo trouxeram uma série de ensinamentos às pessoas, tais como os cuidados básicos de prevenção a doenças virais ou a importância da vacinação no geral.

Dois anos de pandemia no mundo e o que aprendemos com tudo isso?”, questiona o doutor em Doenças Infecciosas.

“Somente no ano de 2021, o Brasil registrou elevadas taxas de adoecimento, óbitos, sequelas dos pacientes vítimas da covid-19, sobretudo, e superlotação nos serviços de saúde. O ano de 2021 foi marcado por avanços e desafios no enfrentamento da doença”.

O pesquisador ressalta que Mato Grosso do Sul, no primeiro semestre de 2021, vivenciou a pior fase até agora. “Com a entrada da variante P1 no Estado, entramos na terceira onda da doença e o número de casos e óbitos aumentou rapidamente em um curto período de tempo”.

A vacinação iniciada naquele momento era restrita aos grupos priorizados inicialmente pelo Ministério da Saúde, por estarem mais vulneráveis à pandemia. Sobretudo os idosos, que têm sistema imunológico mais fragilizado, além de outros grupos.

Mesmo com a cobertura atual beirando os 72% de pessoas com duas doses ou vacina única da Janssen, parte da população ainda reluta em se vacinar e a introdução de mutações do coronavírus, provocadas a partir da alta circulação, geram questionamentos quanto aos próximos meses.

O fator Ômicron - Para Lemos, a vacinação proporcionou expressiva redução nos indicadores negativos da doença, mas a variante Ômicron, que surgiu fora do País, provocou uma mudança no cenário e gera incertezas quanto ao começo do próximo ano.

Com o aumento da cobertura vacinal contra a covid-19, houve redução dos casos e melhora dos indicadores de saúde no Estado. Recentemente, a chegada da nova variante Ômicron ao Brasil nos deixa preocupados e em alerta quanto aos próximos meses”.

Concomitantemente a detecção da variante da influenza, gestores têm definido novas regras de restrição - uma das mais polêmicas foi a do Carnaval. Em Campo Grande, o prefeito Marquinhos Trad (PSD) decidiu cancelar as festividades públicas, até o momento, no próximo mês de fevereiro.

“Neste sentido, o panorama do primeiro semestre de 2022, dentro das observações do curso de evolução das doenças, é manter-se em alerta para os casos de influenza e até dengue nesse período. E a possibilidade de aumento de casos de covid-19, pela nova cepa, em meados de março de 2022”, diz Lemos.

E agora? - Uma das principais formas, além da vacinação, de manter-se prevenido contra a doença, para Lemos, é o uso de máscaras adequadas e também a testagem, preconizada pelas principais autoridades de saúde.

Atualmente, os principais exames realizados no País são o RT-PCR e o de antígeno, ambos que coletam a secreção nasal do paciente. Ainda que semelhantes fisicamente, o primeiro demora mais tempo para ficar pronto, mas tem uma taxa de acerto beirando os 100% e traz informações relevantes sobre tipo de variante que acometeu o indivíduo.

As coletas são analisadas no Lacen (Laboratório Central de Saúde Pública) de Mato Grosso do Sul, na Vila Ipiranga, em Campo Grande, e, passados alguns dias, o resultado fica pronto. O enfermeiro Paulo Franco, de 29 anos, explica que esses exames são mais demorados, mas têm papel fundamental para os estudos epidemiológicos.

“Eles demoram alguns dias para ficar pronto, mas é bem importante, porque com ele é possível ver qual a cepa está em circulação. É importante pela questão epidemiológica, não apenas pelo número de dados”, diz o profissional de saúde.

O segundo tipo de teste, o de antígeno, indica apenas se houve a confirmação ou não, com índice de eficácia reduzido, mas fica pronto em apenas 15 minutos. Atualmente, um dos principais pontos de diagnóstico que utiliza esta metodologia fica na unidade da UCDB (Universidade Católica Dom Bosco), em frente à Praça do Rádio Clube, no Centro da cidade.

É muito importante que seja feito, em grande quantidade, para disponibilizar mais testes para as pessoas e é um resultado que sai na hora. Se o paciente tem o vírus, ele descobre no dia, pode se isolar e começar a se cuidar, até para não infectar outras pessoas”, explica Paulo Franco.

A importância da vacinação - Doutor em Doenças Infecciosas, Everton Lemos ressalta a importância da vacinação, que tem protegido a população, especialmente contra casos mais graves da covid. Entretanto, tem sido verificado uma redução na imunidade, passados alguns meses, sobretudo em determinados grupos, como idosos.

Por isso, as entidades sanitárias do Brasil e do mundo têm pedido que se mantenha o ciclo vacinal atualizado, por meio de doses de reforço - terceira e agora, a imunossuprimidos, a quarta dose.

"Os indicadores são claros, quando comparados antes e após o processo de imunização. Houve melhora significativa de hospitalizações e óbitos", disse, explicando que ainda é desafio. "Ampliação da cobertura vacinal é, sem dúvida, ainda um grande desafio. A vacina, é o elemento chave para o controle das doenças imunopreveníveis na sociedade", explica o especialista.

Para a professora Aline Santonini, de 41 anos, que mantém sua imunização em dia e sofreu com a covid em meados de março deste ano - ainda com algumas sequelas -, muitos têm a chance de procurar os fármacos, mas não o fazem, gerando preocupação à coletividade. "Fico triste em ver pessoas tentando boicotar a vacinação. A vacina é um pacto social", defende. "As pessoas precisam se importar com as outras. A vida delas também depende das demais pessoas", finaliza.

Estado ainda registra dezenas de casos, diariamente, e ao menos uma morte por dia - conforme dados atualizados até o começo de dezembro. (Foto: Marcos Maluf)
Estado ainda registra dezenas de casos, diariamente, e ao menos uma morte por dia - conforme dados atualizados até o começo de dezembro. (Foto: Marcos Maluf)

Até quando usaremos máscara? - O secretário estadual de Saúde, Geraldo Resende, defende que a vacinação siga como a principal medida de enfrentamento à covid, mas que as máscaras continuem sendo exigidas. O titular da SES (Secretaria Estadual de Saúde) já defendeu, mais de uma vez, o uso espontâneo da população, assim como é feito em países asiáticos.

“Eu entendo que a máscara, nós vamos precisar de incorporar, como nos países asiáticos, onde usam a máscara para qualquer evento gripal, qualquer infecção das vias respiratórias, para evitar a infecção dos que vivem com eles”.

Ainda que o Brasil não tenha leis sobre uso obrigatório de máscaras, o governo estadual define que são compulsórias apenas em ambientes fechados e decreto municipal - vigente até agora - estipula que o acessório deve ser utilizado em locais internos e externos.

Para o médico infectologista Rodrigo Nascimento, a decisão de desobrigar ou não o uso desse acessório cabe somente aos órgãos de vigilância epidemiológica, que se irão se basear em dados estatísticos para a oficialização, já que quando níveis de infecção beiram a zero, se tornaria opcional.

O infectologia entende que ainda não é o momento ideal para abandonar as máscaras, já que ainda há mortes sendo registradas pela doença e pessoas sendo infectadas. Mesmo com redução expressiva, a SES indica que cerca de 100 pessoas contraem a covid por dia e ao menos um óbito tem sido registrado a cada 24 horas, em média, mesmo que em alguns dias não tenha havido registro.

Nascimento entende que a população brasileira, em geral, talvez não se adapte ao uso constante de máscaras, assim como em outros países. “Acho que a gente não deve continuar, principalmente se houver a resolução da doença e estiver muito próximo do zero”.

Não pertence a nossa cultura, e as pessoas aqui se incomodam demais com isso. Em alguns ambientes, a máscara é utilizada só porque ela é obrigatória, ela vira um ‘crachá’. A pessoa usa aquilo sem saber o motivo. Se ela pudesse, ela tiraria com certeza. A gente percebe isso nos ambientes públicos, no trabalho”.

No entanto, ele destaca que outras práticas que têm sido recomendadas em meio ao período pandêmico continuam essenciais. “Muitos hábitos que vieram com essa pandemia são de grande importância. Principalmente, higienização das mãos. Ela evita uma infinidade de doenças e a nossa população não era muito habituada a isso e seria interessante que isso continuasse".

População caminha no Centro de Campo Grande. (Foto: Marcos Maluf)
População caminha no Centro de Campo Grande. (Foto: Marcos Maluf)
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