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Estudo inédito aponta que placas de travessia de fauna pouco reduzem acidentes

Pesquisa na BR-262 mostra que sinalização tem efeito ineficaz e reforça a necessidade de medidas estruturais

Por Inara Silva | 08/01/2026 18:00
Estudo inédito aponta que placas de travessia de fauna pouco reduzem acidentes
Placas que mostram atropelamento de veado-campeiro estão em teste (Foto: Divulgação)

Placas tradicionais de travessia de fauna, comuns em rodovias brasileiras, têm efeito limitado na redução da velocidade dos veículos e pouco contribuem para evitar colisões com animais silvestres. A constatação é de um estudo inédito publicado no Journal of Environmental Management, que analisou o comportamento real de motoristas diante de diferentes modelos de sinalização, inclusive em trechos críticos como a BR-262, em Mato Grosso do Sul.

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Um estudo publicado no Journal of Environmental Management revelou que as placas tradicionais de travessia de fauna nas rodovias brasileiras têm eficácia limitada na redução de acidentes com animais silvestres. A pesquisa, conduzida por especialistas de diversas instituições, analisou mais de 5,3 mil medições de velocidade em diferentes condições. Na BR-262, entre Campo Grande e Corumbá, foram registrados 2.300 animais mortos em um período de 12 meses. Como solução, o DNIT iniciou em 2025 a instalação de cercas e passagens de fauna em um trecho de 278 quilômetros, com investimento estimado de R$ 30 milhões, combinando medidas estruturais com nova sinalização mais impactante.

A pesquisa foi conduzida por especialistas do ICAS (Instituto de Conservação de Animais Silvestres), da Esalq/USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz/Universidade de São Paulo), da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e de instituições internacionais. Ao longo de 18 dias, foram realizadas mais de 5,3 mil medições de velocidade de carros, SUVs e caminhões, em diferentes horários e pontos antes e depois da instalação das placas. O objetivo foi avaliar, na prática, se a sinalização altera a condução dos motoristas.

Tipos de placas - Os pesquisadores testaram quatro tipos de placas: educativas, padrão, de controle e aquelas com mensagens diretas de comunicação de risco. De acordo com a pesquisadora Mariana Catapani, uma das autoras do estudo, apenas as placas com mensagens explícitas, como “Animais na pista, reduza a velocidade”, provocaram alguma desaceleração. Ainda assim, o efeito foi considerado mínimo e restrito a poucos metros após a sinalização.

Segundo Mariana, a redução é pequena e “praticamente não melhora a capacidade de reação do motorista diante de um animal na pista. Na prática, placas isoladas dificilmente evitariam acidentes”, explicou Mariana. O estudo também identificou que muitos condutores retomam a velocidade logo após passar pela placa, em alguns casos acelerando além do ritmo anterior.

Rodovia crítica - A BR-262, que liga Campo Grande ao Pantanal, aparece como um dos trechos mais críticos do país quando o assunto é atropelamento de animais. Espécies como tamanduá-bandeira, anta, capivara e jacaré estão entre as mais atingidas, evidenciando o impacto da rodovia sobre a biodiversidade e o risco constante para quem trafega pelo local.

Segundo Arnaud Desbiez, presidente do ICAS, um monitoramento realizado pelo Instituto entre maio de 2023 e abril de 2024, no trecho entre Campo Grande e a Ponte do Rio Paraguai, em Corumbá, registrou 2.300 animais mortos ao longo de cerca de 350 quilômetros.

Além das perdas ambientais, as colisões com animais representam um perigo real para a vida humana, sobretudo em trechos com intenso tráfego de caminhões de grande porte.

Nova sinalização - Os resultados indicaram que mensagens diretas de risco são as que mais conseguem gerar atenção imediata. Essa constatação orientou o desenvolvimento do novo modelo de sinalização, instalado em novembro de 2024 pelo DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) na BR-262. Com imagem mais impactante, que simula uma colisão com animal, a proposta é ampliar a percepção de perigo e manter a atenção do motorista por mais tempo. “Se as placas vão continuar existindo, elas precisam evoluir. Sinais visualmente fortes e com comunicação direta de risco tendem a ser mais eficazes”, destacou Mariana.

Placas são insuficientes - O artigo conclui que as placas não substituem medidas estruturais já comprovadas. Entre elas estão cercas direcionadoras, passagens inferiores e superiores para fauna, radares, redutores de velocidade e campanhas educativas permanentes. “O recado é claro: só sinalizar não resolve. A proteção da fauna e das pessoas exige a combinação de engenharia, fiscalização e comunicação”, reforçou a pesquisadora.

Cerca nas rodovias - Em 2025, a BR-262 começou a receber as primeiras cercas ao longo da rodovia. A iniciativa faz parte de um plano de mitigação que será implantado em um trecho de 278 quilômetros, entre Anastácio, Aquidauana, Miranda e Corumbá. O projeto prevê 170 quilômetros de cerca condutora de fauna, sete passagens superiores, dez novas passagens inferiores e a adequação de outras oito já existentes, além de sinalização específica e equipamentos redutores de velocidade.

Segundo o DNIT, o investimento estimado é de R$ 30 milhões, com prazo de execução de 730 dias. A medida é considerada um avanço importante para reduzir os atropelamentos de fauna e aumentar a segurança de motoristas em um dos corredores rodoviários mais sensíveis do Estado.

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