Guerra de facções, com sicários, exige ação firme, diz Videira
Secretário defende que não há excessos em confrontos, mas uso da força para barrar “avalanche de homicídios”
RESUMO
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Mato Grosso do Sul enfrenta uma escalada de violência devido à disputa entre facções criminosas de São Paulo e Rio de Janeiro pelo controle de rotas de tráfico. Segundo o secretário Antônio Carlos Videira, sicários foram enviados ao estado para execuções, atingindo inclusive inocentes. O cenário dobrou o número de mortes em intervenções policiais e exige ações firmes das forças de segurança para evitar que a posição estratégica do estado transforme a região em uma zona de guerra.
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A posição geográfica de Mato Grosso do Sul, entre grandes mercados consumidores de drogas no Brasil e países produtores na fronteira, transformou o Estado em território estratégico para facções criminosas e, segundo o secretário estadual de Justiça e Segurança Pública, Antônio Carlos Videira, está por trás de uma disputa que já provoca reflexos diretos na segurança da população.
Videira afirma que grupos ligados principalmente a São Paulo e Rio de Janeiro disputam o controle das rotas que atravessam Mato Grosso do Sul para transportar drogas vindas de países como Paraguai e Bolívia. A cocaína, principalmente, segue pelo Estado em direção a outros mercados brasileiros e também ao exterior. “Essas duas facções criminosas sediadas em outros estados e em outros países, principalmente Rio de Janeiro e São Paulo e Paraguai e Bolívia, precisam usar das rotas do Mato Grosso do Sul para principalmente mandar cocaína para grandes centros consumidores e outros países e outros continentes”, afirmou.
Segundo o secretário, o conflito começou a aparecer de forma mais intensa no norte do Estado, próximo à divisa com Mato Grosso, e depois se espalhou para áreas próximas a São Paulo e Minas Gerais. A disputa também teria avançado pelo Cone Sul e chegado a Corumbá, principal porta terrestre de entrada da Bolívia em Mato Grosso do Sul. Nesse movimento, lideranças de outros estados estariam enviando integrantes das organizações criminosas para cumprir missões específicas de execução.
Videira afirma que parte deles atua como sicários, criminosos encarregados de matar integrantes de grupos rivais. “Nós vimos que, nessa disputa entre essas duas facções, muitas lideranças negativas que estão em São Paulo e no Rio mandaram para cá, principalmente sicários, para assassinar os adversários”, disse.
O secretário citou registros em Nova Andradina, Maracaju, Jardim, Cassilândia, Três Lagoas, Coxim, Pedro Gomes e Sonora. Para ele, o problema deixou de ser restrito aos próprios integrantes das facções porque pessoas sem relação com a disputa passaram a ser atingidas. “Só que não estão apenas se matando. Nessas ações deles estão matando inocentes. E a polícia tem que atuar”, declarou.
Videira mencionou o caso de Cassilândia, onde uma criança de 3 anos morreu em meio à violência atribuída à disputa criminosa. Segundo ele, situações desse tipo mostram o risco de a guerra entre grupos organizados ultrapassar os limites do crime e impor medo à população. “Uma criança de 3 anos veio a óbito. E o clima de insegurança na cidade foi terrível”, afirmou.
Para o secretário, esse cenário exige uma atuação mais firme das forças estaduais. Ele rejeita a interpretação de que o número de mortes em intervenções policiais represente, por si só, excesso por parte dos agentes e sustenta que policiais são orientados a prender, mas estão autorizados a reagir diante de uma ameaça armada. Videira citou mais uma vez Cassilândia para mencionar que dois integrantes de facção morreram durante uma intervenção policial, enquanto um terceiro, também armado, se entregou e foi preso. “Todos aqueles que não reagiram foram presos, estão cumprindo suas penas”, afirmou.
O secretário também destacou o poder de fogo encontrado com suspeitos ligados às organizações criminosas. Segundo ele, as apreensões incluem pistolas modernas e fuzis, armamento semelhante ao utilizado pelas próprias forças de segurança.
Na avaliação de Videira, a chegada de criminosos armados enviados por lideranças de outros estados elevou também o risco enfrentado pelos policiais. Ele relembrou o assassinato de um agente em Corumbá, morto a tiros de fuzil enquanto estava em uma motocicleta. “Os nossos policiais estão treinados para repelir esta injusta agressão, que não é só contra o policial ali, é contra o servidor público que representa o Estado. É ele que tem que proteger a sociedade”, afirmou.
Videira disse ainda que as mortes decorrentes de intervenções policiais dobraram na comparação apresentada por ele. Foram 47 no ano passado e até sexta-feira, quando Videira falou com a reportagem, eram 94 mortos. Horas após a entrevista, mais quatro homens morreram após dias de perseguições depois que um avião foi interceptado em São Gabriel do Oeste. Todos eram bolivianos e a suspeita é de que estavam fugindo do país vizinho por suposto envolvimento na morte de um policial.
Para o secretário, a tendência é que operações consideradas mais duras continuem enquanto permanecer a disputa territorial entre as facções. “Nós não podemos permitir que o nosso Estado vire uma área de guerra, porque inocentes estão morrendo. Então nós teremos ainda por um período ações muito firmes para garantir a ordem no Mato Grosso do Sul”, afirmou.
A preocupação central apresentada por Videira é que a localização estratégica de Mato Grosso do Sul, valiosa para o escoamento de drogas, faça com que uma disputa originalmente travada entre organizações criminosas de fora do Estado seja transferida para cidades sul-mato-grossenses. Segundo ele, sem repressão, o risco é de uma escalada dos assassinatos e de que trabalhadores, famílias e moradores que não têm qualquer envolvimento com as facções acabem submetidos à violência gerada pela disputa das rotas. “Tem exigido das forças de segurança pública do Mato Grosso do Sul uma ação mais firme, sob pena de nós perdermos o controle da segurança pública e principalmente de nós termos uma avalanche de homicídios nessa guerra entre essas duas facções criminosas”, concluiu.
As declarações do secretário foram feitas durante entrevista ao podcast Na Íntegra. Para assistir, clique aqui.

