Idosos podem doar órgãos em vida, mas avaliação exige cuidado
Especialista da Capital explica por que a saúde do doador pesa mais que a idade na decisão de doar em vida

A vontade de ajudar alguém a viver não acaba aos 60 anos. A possibilidade de doar um órgão em vida também não. Para uma pessoa idosa, porém, a resposta depende de uma avaliação cuidadosa: é preciso saber se o órgão poderá beneficiar o receptor sem comprometer a saúde de quem doa.
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A dúvida ganha força neste Setembro Verde. O Brasil chegou a 4.335 doadores efetivos em 2025, o maior número já registrado, segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos. Ainda assim, dados do Sistema Nacional de Transplantes apontavam 49.489 pessoas na fila no início de setembro. O recorde mostra um avanço; a espera revela o tamanho da necessidade.
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Segundo Guilherme Fernandes, enfermeiro e coordenador da equipe de Doação de Órgãos e Tecidos do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian, em Campo Grande, a pessoa idosa passa pelos mesmos critérios exigidos de qualquer doador vivo. A investigação, contudo, precisa observar com especial atenção os possíveis efeitos da retirada do órgão ao longo dos anos.
“A doação em vida de órgãos por parte de idosos segue os mesmos critérios de qualquer pessoa, verificando-se a viabilidade e se não existe contraindicação, mas é preciso ter uma análise criteriosa para não causar danos à saúde desse doador. Esse é o principal critério médico”, afirma.
Não há um exame capaz de dar essa resposta sozinho. A equipe considera análises de sangue e urina, função dos rins, exames de imagem, avaliação cardiovascular e o estado geral de saúde. Também precisa verificar se o órgão está em boas condições para o receptor e se os riscos da cirurgia são aceitáveis para o doador.
Em vida, é possível doar um dos rins, parte do fígado, parte do pulmão ou medula óssea. As condições variam conforme o tipo de doação. No caso do rim, por exemplo, não há uma idade máxima que elimine automaticamente o candidato: o que pesa é sua saúde e a possibilidade de continuar bem com o outro rim. Já a doação de parte do fígado pode seguir critérios de idade mais restritos, conforme a avaliação da equipe responsável.
A decisão cabe à pessoa adulta e juridicamente capaz, após receber as informações necessárias e passar pela avaliação médica. Pela legislação brasileira, parentes até o quarto grau e cônjuges podem doar em vida sem autorização judicial. Para quem não tem esse vínculo, a doação depende de autorização da Justiça. A família pode oferecer apoio, mas não substitui a decisão do doador vivo.
“À medida que uma pessoa envelhece, há maior probabilidade de desenvolver complicações de saúde como hipertensão, diabetes ou alterações da função renal”, explica Guilherme. Isso exige investigação, não uma recusa antecipada. Para quem deseja doar, o caminho é procurar uma equipe de transplante. A generosidade abre a conversa; a avaliação médica define se a doação pode acontecer com segurança.

