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Levado pela covid-19 aos 83 anos, Ilson deixa duas paixões: a esposa e Corumbá

Nascido na Cidade Branca, ele "fez a vida" em Brasília, sem nunca esquecer as origens e a esposa, com quem se preocupou até morrer

Por Lucia Morel | 19/08/2020 06:40
Com a esposa Lenira, que também pegou covid, Ilson ficou 61 anos casado. (Foto: Arquivo da Família)
Com a esposa Lenira, que também pegou covid, Ilson ficou 61 anos casado. (Foto: Arquivo da Família)

Até os últimos dias de vida, a preocupação de Ilson de Figueiredo, 83 anos, era com sua amada, Lenira Arana, 77 anos. Casados havia 61 anos, a covid-19 os separou e agora, ela lida com a saudade amparada pelos sete filhos do casal.

Natural de Corumbá, Ilson, além do amor pela esposa, era apaixonado por sua terra de origem, que nunca esqueceu.

Aos 22 anos de idade, após ganhar boa quantia de dinheiro na loteria esportiva, decidiu “tentar a vida” em Brasília, à época em plena construção. Dessa forma, o “corumbaense candango” fundou um hotel na então futura capital federal, onde hospedava os trabalhadores que chegavam de outros estados.

Lá fincou raízes e já com a esposa, cunhado e alguns irmãos que o seguiram, um incêndio quase põe abaixo os sonhos da família. O hotel, que era de madeira, foi tomado pelo fogo e Ilson teve que “recomeçar do zero”, com relatou o filho Samuel Figueiredo, 49 anos, que é jornalista.

“Sem esmorecer, insistiu na busca por dias melhores. Trabalhou duro onde houvesse oportunidades honestas para poder sustentar a família. Na época, não faltava serviço em Brasília e Ilson fez de tudo um pouco. Foi comerciante, autônomo, vendedor e, nas poucas horas vagas, fazia bicos”, revela trecho de texto escrito pelo filho em homenagem ao pai.

Para Samuel, de espírito jovem e extrovertido, o pai nunca parou de sonhar, e tanto quando jovem quanto atualmente, era movido por planos e metas. Saudosista, Ilson sentia falta de pequenos prazeres que tinha em Corumbá, como pescar com o pai ou saborear um caldo de piranha. Sopa paraguaia também estava entre os pratos prediletos.

“Ele gostava muito de pescar com o pai dele no rio Paraguai. Eu mesmo, quando pequeno, fui junto algumas vezes”, contou Samuel, lembrando que depois que o pai saiu de Corumbá, seu avô passou a morar em Campo Grande, para onde Ilson sempre viajava, não deixando de manter os laços com sua terra e sua família.

Outra lembrança forte de Corumbá era o amigo Wilson Melchiades, falecido há dois anos e com quem serviu o Exército. Ilson sempre lembrava aos filhos as vezes em que saía com Wilson para tocar violão e fazer serestas pelas ruas da cidade branca.

Brasília – mas foi em Brasília que Ilson e a família fincaram raízes. Lá, o patriarca e arrimo de família avançou profissionalmente, e sem nunca parar de estudar, passou em seleção para o então Senado Federal que estava se formando e se aposentou como analista legislativo.

Na capital federal Ilson teve os sete filhos, 16 netos e oito bisnetos. Criou-os e “ensinou a respeitar a Deus”, como lembra Samuel, ao dizer que o pai era de muita fé, evangélico da Congregação Cristã, doutrina que maior parte da família ainda segue.

Ilson, acompanhando a seleção brasileira de futebol jogar. (Foto: Arquivo da Família)
Ilson, acompanhando a seleção brasileira de futebol jogar. (Foto: Arquivo da Família)

Lá também ele pegou covid e acabou falecendo em 5 de agosto, depois de 15 dias internado. Mesmo com problemas cardíacos, Ilson não aparentava que poderia sucumbir à doença, e falava aos médicos que o atendiam que precisava ir logo para casa, para poder cuidar da esposa, que também estava doente. “Ele sempre pensava nela, queria sair do hospital para cuidar dela”, ressaltou o filho.

Mesmo sem ter essa chance, Lenira agora é amparada pelos filhos. “Minha mãe tem diabetes, toma insulina, mas pegou covid e teve sintomas de uma gripe forte apenas”, conta Samuel, enfatizando que toda a família está cuidando dela.

Para ele, como os pais se infectaram é uma incógnita, e pode tanto ter sido depois de receber alguma encomenda em casa, no supermercado ou mesmo ao receber pessoas em casa, já que haviam se mudado há pouco tempo para o apartamento onde estavam e técnicos de TV estiveram no local.

No entanto, Samuel afirma que o que conforta a família é saber que o pai está em um lugar melhor, e que, apesar da dor e da saudade, “foi feita a vontade de Deus”.

“Unindo as forças de seu coração pantaneiro, a esperança de pioneiro da capital, a fé inquebrantável em Deus e a paixão pela sua querida Lenira, Ilson batalhou bravamente contra a Covid-19 por 15 dias. Não desistiu até o último momento. Despediu-se, no entanto, na manhã fria e ensolarada do dia 5 de agosto, aos 83 anos”, revela outro trecho do texto de Samuel.

O filho ainda ressalta que entre "os legados" deixados pelo pai, estão a caridade e amor pela família, que segundo ele, "serão seguidos pelos filhos". Ilson, segundo Samuel seria capaz de tirar a roupa do corpo para dar a outra pessoa que precisasse. "Não tinha apego a coisas materiais", destaca.

Com a família reunida. São sete filhos, 16 netos e oito bisnetos. (Foto: Arquivo da Família)
Com a família reunida. São sete filhos, 16 netos e oito bisnetos. (Foto: Arquivo da Família)

Além disso, através do exemplo, ensinou a descendência a estar unida. "Ele gostava de ter os filhos por perto, ao redor, reunidos e vamos manter isso. Em memória dele, vamos lutar pela união".

Por fim, o filho destaca que o pai “combateu o bom combate, terminou a corrida e guardou a fé, como narrado nas cartas do apóstolo Paulo, na Bíblia que Ilson gostava de ler. A saudade de sua presença inspiradora, sonhadora e cheia de paixão por sua amada e amor pelos filhos vai atravessar gerações”.

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