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Cidades

Monitores viram "objeto de luxo", mas parte fica parada em cidades do interior

Equipamentos foram doados pelo Ministério da Saúde em fevereiro e Campo Grande pede empréstimo no Whatsapp com prefeitos

Por Izabela Sanchez | 10/08/2020 15:03
Monitor exibido durante cerimônia de entrega a municípios do Estado (Foto: Henrique Kawaminami/Arquivo) 
Monitor exibido durante cerimônia de entrega a municípios do Estado (Foto: Henrique Kawaminami/Arquivo)

Sem, já que a maioria das cidades do interior não possuem leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva), monitores que servem para equipar leitos de pacientes críticos da covid-19 viraram "objeto de luxo" muitas vezes sem uso e alvo de pedido de empréstimo pela Capital.

O Campo Grande News apurou que esses aparelhos são requisitados pelo secretário estadual de saúde, Geraldo Resende, que até lança mão de um grupo de Whatsapp com os 79 prefeitos em Mato Grosso do Sul para reforçar a emergência de Campo Grande.

São monitores enviados pelo Ministério da Saúde ainda em fevereiro, quando sequer havia registro do novo coronavírus no Brasil, e a covid-19 ainda não havia sido classificada como pandemia pela OMS (Organização Mundial de Saúde).

Em cerimônia com a presença do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta (DEM) em Campo Grande, 42 municípios, incluindo a Capital, receberam esses monitores. O pacote ainda contemplou desfibriladores,

Foram enviados 52 monitores. Desse total, apenas Campo Grande ficou com mais de 10 e Dourados, com dois. Agora, passados cinco meses da pandemia de covid-19, são parte de um aparato necessário para manter vivas as pessoas que lotam as UTIs da Capital diariamente.

No dia 17 de fevereiro, o então ministro Luiz Henrique Mandetta participa de evento em Campo Grande. (Foto:  Henrique Kawaminami)
No dia 17 de fevereiro, o então ministro Luiz Henrique Mandetta participa de evento em Campo Grande. (Foto: Henrique Kawaminami)

Só cinco – Só cinco municípios emprestaram seus aparelhos para uso de urgência, através de acordo do tipo comodato, para equipar UTIs que foram abertas no Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian, segundo a Secretaria Estadual de Saúde.

Por meio da assessoria de imprensa, a Secretaria aponta que doaram aparelhos Ponta Porã, Japorã, Figueirão, Sidrolândia e Pedro Gomes.

Estrutura complexa - A reportagem apurou que a maioria das cidades de Mato Grosso do Sul, incluindo as que emprestaram o aparelho, não têm estrutura mínima para utilização em UTI. Isso porque um leito de UTI para paciente grave, mesmo que não seja pela covid-19, requer uma equipe com ao menos 5 profissionais de saúde de diferentes especialidades e outros aparelhos além da cama, monitor e respirador. O custo médio diário para manter esse leito gira em torno de R$ 3 mil. Os aparelhos monitores custaram R$ 24.156,42.

Prefeito de Figueirão, a 226 km  de Campo Grande, Rogério Rosalin (PSDB) confirmou que o equipamento ficou parado de fevereiro a julho na cidade. O município não tem leitos de UTI e os pacientes graves dependem da estrutura hospitalar da Capital.

“A gente não tem UTI, é inviável. A gente não tem estrutura suficiente de recursos humanos. Tem que ter UTI, anestesista, é difícil até em cidades maiores. Foi enviado no primeiro momento [pelo Ministério da Saúde], mas nesse período a gente não estava utilizando esse equipamento. O Estado pediu e não foram todos que cederam”, disse.

O prefeito ainda disse que depois “de devolvido”, o aparelho deve ser utilizado para a montagem de três leitos da chamada “semi UTI” em Figueirão, para internações menos graves.  “A gente pôde emprestar, tem um documento em comodato. Campo Grande no momento é o que mais está precisando

“Nós prefeitos estamos vendo que está parado. Eles acham que não vai mandar de voltar. Quanto mais UTIs em Campo Grande melhor pro interior, é uma questão de força de vontade, de todo mundo se unir”, emendou o prefeito.

Não é a única lista de equipamentos recebidos e que ficaram “parados” sem uso pela falta de estrutura do Hospital Municipal da cidade, segundo Rosalin. “Eu tenho aparelho respiratório pediátrico que nunca foi utilizado e quando fomos ligar não funcionou. O Senai de Campo Grande teve que enviar para o Senai da Bahia para arrumar”, comentou ele.

“Quando arruína [Campo Grande], arruína os municípios que dependem. Estão os 79 municípios [no grupo], mas está faltando uma solidariedade perante a Capital”, diz ele.

É o que também afirmou o prefeito de Pedro Gomes, a 309 km de Campo Grande na região norte, William Luiz Fontoura (PSDB).

“Somos solidários, graças a Deus, porque foi uma solicitação. Porque nós não temos condições de ter UTI. Houve solicitação do nosso secretário Geraldo Resende. Acredito que quando há possibilidade não tem problema. A gente de prontidão atendeu. Na maioria dos casos graves de pessoas que precisam de internação por outras comorbidades, sempre somos atendidos por Campo Grande”, declarou.

Diferente de Figueirão, o monitor era usado no pronto-socorro de Pedro Gomes, segundo o prefeito, mas pela necessidade de urgência da pandemia, o executivo decidiu emprestá-lo.

“Monitor, aparelho recém recebido do ministério da saúde, estava no pronto-socorro, mas aumentaram muito os casos no estado e onde recebe mais gente é Campo Grande. Nessa hora cedemos de prontidão”, comentou Fontoura.

O prefeito também comentou que faltam equipes e médico intensivista na cidade. “A função médica é fantástica, mas a maioria dos especialistas prefere a Capital. O verdadeiro desbravador é aquele que vai para o interior”, disse.

Custa caro -  Médico intensivista do CTI (Centro de Terapia Intensiva) “não covid” da Santa Casa de Campo Grande, e presidente da Sociedade Sul-mato-grossense de Medicina Intensiva, Sérgio Felix Pinto afirma que hoje, no estado, apenas 4 cidades estão “mais próximas” do ideal para atenderem esse tipo de paciente grave: Campo Grande, Dourados, Três Lagoas e Corumbá. A última, segundo ele, é a pior das quatro.

Sérgio comenta que portarias do Ministério da Saúde pedem que se tenha ao menos 1 médico intensivista para cada 10 leitos de UTI e 1 enfermeiro intensivista para cada 8 leitos. Além disso, ainda requer médico de especialidades que vão da cardiologia à pneumologia, técnico de enfermagem com especialização em medicina intensiva e fisioterapeuta.

O médico cita que faltam profissionais até em Campo Grande e diz que os salários baixos não atraem recém formados para essa área que se provou “tão necessária” na pandemia. “O interior o que eu sei é que a maioria não tem equipe. Não adianta ter um Boeing e o piloto só saber pilotar um teco-teco”, comentou.

“Enfermeiro, precisa ser quem sabe lidar com equipamentos e pacientes de UTI. Covid que o pessoal tem de lidar agora, ainda requer as técnicas corretas, equipamentos que funcionam, não é todo ventilador que serve ao paciente. Esse que é o problema maior”, comenta ele.

Para ser habilitado como intensivista, o médico precisa ter comprovação de 720 horas de treinamento em UTI, segundo Sérgio.

“Antes do covid todo mundo estava nessa situação, [hospitais] públicos e privados. A gente aqui em Campo Grande abriu bastante leito, o que o pessoal tem feito é colocar médicos que trabalham em áreas clínicas e cirurgia geral junto com médico que tem experiência como intensivista”, comentou.

Sérgio ainda disse que todas as equipes têm trabalho com sobrecarga em plantões adicionais pela falta de médicos e especialistas. “Não é suficiente, a gente tem passado aperto, com trabalho a mais. Não tem gente suficiente, paga mal. Se paga mal ninguém quer fazer especialidade. Preferem fazer outras especialidades”, diz.

“Na verdade, os governos acabam dando atenção somente quando chega situação de emergência, aí ele se desespera”, emenda. “No interior existe uma série de cidades que montaram leitos e estão colocando qualquer equipe e a coisa não tem dado certo”, disse.

O secretário estadual de saúde Geraldo Resende também citou os 10 respiradores doados pela JBS e rejeitados por Dourados. À época, os equipamentos foram considerados “impróprios”.

“Em Campo Grande funcionaram e os 10 estão em utilização”, disse o secretário, que citou o Hospital Regional Rosa Pedrossian, referência para a covid-19, e o Hospital do Pênfigo, que também abriu leitos para pacientes com covid.

“Os outros equipamentos que pedimos estavam sendo utilizado no interior, monitores multiparamédicos que eles receberam em fevereiro. Pedimos que pudessem fazer a entrega, nos emprestassem por conta da doença estar grave para abrir novos leitos em Campo Grande”, comentou Resende.

Por meio da assessoria de imprensa, a secretaria estadual diz que a tabela SUS estabelece o custo de um leito de UTI em “R$ 1,6 mil” e que “para cada 10 leitos de UTI é necessário por turno uma equipe”. “A equipe médica é composta por um médico, dois enfermeiros e cinco técnicos de enfermagem”, diz a nota.

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