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Cidades

Por que a mudança do termo índio para indígena faz tanta diferença na “aldeia”?

Lideranças garantem que mudança é fundamental para refletir as ideias e lutas das diversas culturas indígenas

Jhefferson Gamarra | 19/04/2023 06:21
Mulheres indígenas, de aldeias e terras indígenas diferentes, unidas em dança feminina do povo terena (Foto: Divulgação/Conselho Terena)
Mulheres indígenas, de aldeias e terras indígenas diferentes, unidas em dança feminina do povo terena (Foto: Divulgação/Conselho Terena)

Pela primeira vez na história, será comemorado o Dia dos Povos Indígenas em território nacional. Até o ano passado, a data de 19 de abril era conhecida como Dia do Índio, termo considerado pejorativo e carregado de preconceitos, mesmo quando dito sem a intenção de ofender.

A mudança da nomenclatura na data comemorativa foi instituída por lei federal em julho do ano passado, que revogou um decreto de 1943, assinado pelo ex-presidente Getúlio Vargas, que declarava a data como “Dia do Índio”.

Para pessoas que acompanham de longe as causas, reivindicações e história de luta dos povos indígenas, a mudança da nomenclatura não tem tanta importância, mas para lideranças e moradores de comunidades, o termo "indígena", que significa "originário", é a forma mais precisa para se referir aos diversos povos que desde antes da colonização habitavam as terras que hoje formam o Brasil que conhecemos.

O secretário executivo do Ministério dos Povos Indígenas Eloy Terena, ao lado da ministra Sônia Guajajara (Foto: Divulgação).
O secretário executivo do Ministério dos Povos Indígenas Eloy Terena, ao lado da ministra Sônia Guajajara (Foto: Divulgação).

“O termo índio é ultrapassado e inapropriado. Ele nos remete ao equívoco que Cristóvão Colombo teve ao chegar à América, pensando ter chegado às Índias. Então encontrou ali os índios. O termo mais apropriado é indígena, porque é uma terminologia que se remete aquele que é natural, aquele que é nativo, aquele que é originário daquele lugar. Por isso que nós, povos indígenas, estamos reivindicando o uso apropriado desse termo, justamente para celebrar a nossa originalidade, a nossa diversidade étnica, enquanto povos com línguas e culturas diferentes”, explicou o advogado e secretário executivo do Ministério dos Povos Indígenas, Luiz Henrique Eloy Amado, conhecido como Eloy Terena.

No Brasil, há uma imensa diversidade de povos indígenas, cada um com características diferentes. Segundo a PIB (Povos Indígenas no Brasil), na época da chegada dos europeus em solo brasileiro, existiam aproximadamente 1.000 povos, somando entre 2 e 4 milhões de pessoas. Atualmente, são encontrados no território brasileiro 266 povos, falantes de mais de 150 línguas diferentes.

O Censo Demográfico do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2022 registrou 1.652.876 pessoas indígenas em todo o país. Como o dado ainda é preliminar, o número por pode aumentar após a divulgação dos resultados definitivos, prevista para a primeira semana de maio.

Cacique Josias com indígenas da comunidade Marçal de Souza em Campo Grande (Foto: Arquivo)
Cacique Josias com indígenas da comunidade Marçal de Souza em Campo Grande (Foto: Arquivo)

Diante desta enorme população, cada qual com a sua língua, cultura e sistema político, o cacique Josias Jordão, líder da comunidade indígena Marçal de Souza, em Campo Grande, explica que o termo “índio” não abrange a diversidade que existe entre os povos e reforça que a terminologia “indígena” é bastante significativa para as comunidades.

“O uso do termo povos indígenas é uma mudança bastante significativa, sendo um termo mais amplo, que não abrange apenas um grupo. São várias etnias e povos. Aqueles que não conhecem a população indígena ainda usam o termo antigo, mas quem conhece e entende a modificação sabe que é uma grande conquista”, comemora o cacique.

Apesar da conquista com a mudança oficial da nomenclatura, o líder da comunidade Marçal de Souza avalia que mesmo com a criação do Ministério dos Povos Indígenas e a grande representatividade de lideranças de Mato Grosso do Sul em cargos de poder no Governo Federal e Estadual, ainda há muito que avançar e que a luta para conquistas, resgate de história e proteção de direitos dos povos indígenas é diária.

“Estamos avançando com pessoas que estão ocupando espaços e tendo bastante destaque nacional, mas ainda temos desafios para enfrentar. As problemáticas principais são na área da saúde, moradia e saneamento. Apesar disso, estamos avançando, o povo terena em Campo Grande, por exemplo, possui duas escolas que têm em sua grade curricular a língua Terena, importante para não perdermos nossa história”, enfatizou o cacique.

Vale ressaltar que a ministra Sônia Guajajara, que assumiu o Ministério dos Povos Indígenas, no governo do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), se tornou a primeira pessoa indígena a comandar um ministério no Brasil. O Ministério dos Povos Indígenas também é o primeiro do país a se dedicar exclusivamente ao tema.

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