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Campo Grande, Domingo, 25 de Agosto de 2019

07/07/2019 15:51

Roubo em Paranaíba seria parte de plano com outras 3 aeronaves no alvo

PCC gastaria R$ 1 milhão no roubo de 4 aeronaves; piloto, suspeito de envolvimento chegou a fazer retrato falado de bandidos

Silvia Frias
Líder e segurança da quadrilha, em retrato falado elaborado a partir de informações do piloto (Foto: Reprodução)Líder e segurança da quadrilha, em retrato falado elaborado a partir de informações do piloto (Foto: Reprodução)

Investigação da Polícia Civil indica que roubo da aeronave em Paranaíba, a 422 quilômetros da Capital, foi planejado desde fevereiro pelo PCC (Primeiro Comando da Capital) e tinha outros três aviões na mira, todos destinados ao narcotráfico. A ação envolveria gasto de R$ 1 milhão, na “engenharia criminosa orquestrada” pela facção.

O piloto Edmur Guimara Bernardes, 78 anos, o vigia Idevan Silva Oliveira, 52 anos, foram presos no dia 27 de junho na investigação do roubo da aeronave, ocorrido no dia 18 de junho. A Polícia Civil encontrou discrepâncias em horários e depoimentos que indicariam que o sequestro do avião foi forjado, com participação dos dois. A prisão temporária foi prorrogada, o prazo expirou ontem (6) e os dois foram liberados por volta da meia-noite.

No teor do pedido de prorrogação temporária, assinado pela delegada Ana Cláudia Medina, em 1º de julho, a Polícia Civil cita que áudios coletados de integrantes do PCC demonstram que o roubo de aeronaves para uso nas fronteiras com Paraguai e Bolívia foi planejado em fevereiro. Nesses áudios, há menção de pagamento para o piloto e “demais apoiadores no aeroporto de Paranaíba”.

Piloto (azul) e vigia quando prestaram depoimento na Deco (Foto/Arquivo: Kisie Ainoã)Piloto (azul) e vigia quando prestaram depoimento na Deco (Foto/Arquivo: Kisie Ainoã)

No material encaminhado pela Polícia Nacional do Paraguai, consta que o esquema do roubo dos aviões foi articulado por criminoso denominado Coringa, que está preso em Londrina e outros dois homens da facção, identificados como Boneco e Baiano, que estavam no Paraguai. Eles teriam articulado para qual fronteira a aeronave seria mandada e que outras três já estavam sob a mira do grupo.

Outro indício, segundo a polícia, de que Edmur tinha envolvimento com o grupo é que foi encontrado contato denominado Coringa, com DDD do estado do Paraná. O teor dessas conversas foi apagado pelo piloto.

Discrepâncias – as dúvidas sobre as versões apresentadas ficaram mais evidentes, de acordo com a Polícia Civil, depois que reprodução simulada dos fatos foi realizada no Aeroporto Municipal de Paranaíba. Também embasaram essa apuração vestígios resgatados durante a vistoria, depoimento dos envolvidos e imagens das câmeras de segurança do local e de farmácia próxima da casa de Edmur.

Edmur disse que foi rendido em casa, por dois homens, sendo que o líder teria idade entre 28 e 36 anos e altura de 1,70. Com ele, estava o que seria o segurança da quadrilha, de 50 anos, 1,72 m. Dois retratos falados foram elaborados, com base na descrição dada pelo piloto.

Os dois homens disseram ser da Polícia Civil, perguntaram por drogas e, depois, afirmaram que pertenciam ao PCC e queriam a aeronave. Chegaram a perguntar se o piloto não poderia chamar o proprietário para pegar a cópia da chave, mas Edmur diz que lembrou ter uma cópia no hangar.

Na caminhonete, às 6h25, segundo o piloto, os três seguiram até o aeroporto, trajeto de pouco mais de 300 metros. Eles pararam em frente aos hangares, que estavam trancado.

Edmur desceu, destravou cadeado, abriu portão da esquerda, pegou a chave do avião que estava dentro de caixa de ferramentas e a trava da hélice. Ao abrir a porta de acesso, desarmou o alarme. Um dos homens se afastou com a caminhonete, dizendo que iria buscar combustível no escritório.

Um avião que estava na frente foi retirado do hangar. A aeronave alvo foi manobrada para fora e, em seguida, recolocou a primeira aeronave dentro do hangar. Depois, acionou novamente o alarme. A caminhonete retornou e os dois homens entraram na aeronave, que decolou.

Enquanto isso, Idevan já teria sido rendido por dois homens. No depoimento do vigia, os bandidos apareceram às 6h20, sendo um negro com máscara cirúrgica branca e um moreno com capuz tipo balaclava. Relatou que terceiro homem, “mais elegante”, apareceu com bolsa a tiracolo, dizendo que estava armado e só queria aeronave.

Como havia ônibus de transporte escolar próximo do escritório, um dos homens mandou que Idevan varresse o saguão para aparentar normalidade. Depois disso, outro homem, o quarto relatado por ele, apareceu e disse que ele deveria ser amarrado, porque “Edmur disse que ele era ‘cagueta’”. Ele foi colocado com as mãos amarradas, sentado em uma cadeira, dentro do depósito.

Idevan diz que ouviu o barulho da aeronave e, depois de não ouvir mais nada, começou a se soltar. O vigia informou à polícia que encontrou cópia da chave do depósito dentro de um pote. Depois de conseguir se solta, fumou dois cigarros e ligou para o dono da aeronave.

No relatório da perícia entregue à Justiça no dia 1º de julho, esses relatos “apresentam grandes divergências de horários, dinâmica e de autores, não se ajustando às evidências”.

Uma delas é o tempo entre a casa de Edmur e a chegada ao aeroporto. Imagens de câmera de segurança de farmácia mostra o piloto transitando às 6h52, quase meia hora depois da hora que disse ter sido rendido, em trajeto curto, de pouco mais de 300 metros.

Outra é o número de pessoas que estavam na caminhonete. Ele disse que duas pessoas o acompanharam, mas imagens mostram terceiro homem saindo do veículo quando chegam ao hangar. Também disse ter visto as crianças no ônibus às 7h15, mas as câmeras não mostram mais o ônibus no local.

A forma como Edmur transitava entre os “sequestradores” também chamou a atenção da polícia. Ele abre a porta do hangar, mostra as câmeras, retira as aeronaves com segurança e, em momento algum, os homens que estão com ele o ameaçam ou apontam arma em sua direção.

O piloto também pega funil e mangueira para eventual abastecimento e ninguém coloca galões vazios na caminhonete, que já estavam na carroceria do veículo.

A versão de Idevan também foi contestada. A perícia tentou usar a chave do depósito para abrir e fechar pelo lado de fora, sem sucesso. O vigia disse que era preciso um “jeitinho”, mas nem ele conseguiu fazê-lo. Também disse que os dois homens que o renderam não “saíram do seu campo de visão”, mas há imagens dos criminosos nas proximidades do hangar.

O advogado José Rodrigues da Rosa, que faz defesa do piloto e do vigia, disse que as contradições são explicadas pelo nervosismo dos clientes, vítimas de sequestro . No caso de Edmur, uma questão de se preservar, já que a facção criminosa sabe onde ele mora. As outras evidências seriam ilações, embasadas em inverdades.


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