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Campo Grande, Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017

31/03/2015 16:08

Boca saudável evita de pneumonia a câncer e melhora qualidade de vida

Falta de conhecimento e orientação são entraves que colaboram para que os cuidados com a boca não tenham a atenção necessária

João Humberto
Unidade móvel do OdontoSesc atende população de baixa renda e com difícil acesso aos dentistas (Fotos: João Garrigó)Unidade móvel do OdontoSesc atende população de baixa renda e com difícil acesso aos dentistas (Fotos: João Garrigó)

Muito além de uma boa escovação e uso do fio dental, a saúde bucal precisa ser pensada pela população como algo importantíssimo, tanto para evitar doenças como o câncer de boca e pneumonia, quanto para ajudar o coração e melhorar a qualidade de vida. Vários problemas que afetam a saúde das pessoas têm origem na boca e poderiam ser amenizados por meio de consultas ao dentista. Falta de conhecimento e orientação são entraves que colaboram para que os cuidados com a boca não tenham a atenção necessária.

Segundo a cirurgiã-dentista Rosana Mara Giordano de Barros, doutora em Ciências da Saúde pela UnB (Universidade de Brasília) e professora na Faodo/UFMS (Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), a boca é tão importante quanto qualquer parte do organismo. Ela conta que existem doenças que se manifestam na boca decorrentes de outros locais e que não são necessariamente bucais. Um exemplo comum, entre outras, é a paracoccidioidomicose (doença pulmonar causada pelo fungo Paracoccidioides brasiliensis), que no Estado é endêmica devido à existência de zonas rurais onde os trabalhadores entram em contato com esse fungo, que vive na natureza.

Na opinião da professora, um dos principais cuidados que a população precisa ter é com a higiene bucal, escovando os dentes e usando fio dental no mínimo três vezes ao dia, principalmente após as principais refeições, contudo não é costume de grande parte dos brasileiros escovar os dentes sempre que come, fazendo com que os resíduos fiquem retidos e colaborem para a formação de placas bacterianas. Estas podem aumentar e cooperar com o aparecimento ou agravamento de outras doenças. Por exemplo, uma pessoa com diabetes com taxa elevada, se não tiver com a boca devidamente higienizada, esta taxa não diminuirá. Se um dente estiver mal posicionado, quebrado, pode surgir uma afta traumática, que é algo simples de ocorrer, mas que com o passar do tempo tende a se tornar úlcera e, se não tratada, pode evoluir para uma displasia, causando câncer de boca, principalmente em fumantes, etilistas, gênero masculino, acima de 40 anos.

Rosana explica que há várias campanhas sobre câncer de mama, próstata, doenças nos rins, câncer de pele e também câncer de boca, no entanto o câncer bucal muitas vezes é negligenciado pela mídia, o que é ruim, pois o mesmo está entre os dez tipos de cânceres mais comuns. “As pessoas ainda não estão muito voltadas para esse cuidado e quando se trata de saúde só levam em consideração os pontos mais essenciais, como falar, andar normalmente e ter condições de trabalhar. Em compensação, o cuidado com a boca é péssimo”, alerta, frisando que de acordo com o Inca (Instituto Nacional do Câncer), Campo Grande tem cerca de 40 a 60 casos de câncer de boca por ano.

Para Rosana Mara (branco), professora na UFMS, boca é tão importante quanto qualquer parte do organismo  Para Rosana Mara (branco), professora na UFMS, boca é tão importante quanto qualquer parte do organismo
Presidente do CFO considera odontologia brasileira uma das melhores do mundo (Foto: Erivelton Viana)Presidente do CFO considera odontologia brasileira uma das melhores do mundo (Foto: Erivelton Viana)

De acordo com Ailton Morilhas, presidente do CFO (Conselho Federal de Odontologia), a campanha de prevenção do câncer de boca hoje já é lei e determina que na primeira semana de novembro haja mobilização em torno do assunto. A iniciativa, conforme ele, resultou da parceria do órgão com o CRO-MS (Conselho Regional de Odontologia de Mato Grosso do Sul).

A boca é local de inúmeras bactérias e a falta de higiene e cuidados preventivos podem resultar em doenças locais e, até mesmo, em endocardites (infecções bacterianas que afetam o coração). Rosana informa que as pessoas não estão acostumadas a esse tipo de informação, concentrando-se apenas nos aspectos estéticos.

A cárie dentária, segundo ela, é mundialmente uma das doenças bucais mais comuns, seguidas pela gengivite e as doenças periodontais que são consequências de maus hábitos de higiene. No caso da cárie, é uma doença mutilante porque acomete o dente e destrói sua estrutura. O esmalte do dente danifica-se, forma-se uma cavidade e, consequentemente, atinge a dentina, podendo injuriar a polpa dental. Caso o paciente não recorra ao dentista, essa cárie evolui para uma necrose pulpar e pode causar várias patologias, até mesmo o acúmulo de pus (abscesso) no dente devido a uma infecção bacteriana. Isso, dependendo das condições, pode levar a pessoa a óbito (septicemia).

Rosana Mara defende que o Ministério da Saúde determine normativa para que haja cirurgiões-dentistas nas equipes hospitalares e em CTIs (Centros de Terapia Intensiva). Para ela, é necessário que profissionais sejam preparados para atuar com pacientes em estados críticos e internados, visando higienizar e cuidar de lesões que podem ocorrer diante das injúrias locais por entubação, desidratação e falta de limpeza da boca.

Por conta da residência, no HU/UFMS (Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) há cirugiões-dentistas presentes nas equipes multidisciplinares das UTIs, enquanto no Hospital Militar de Campo Grande uma cirurgiã-dentista participa da equipe de assistência. “Por enquanto só esses dois hospitais contam com o atendimento odontológico clínico aos pacientes internados, mas existem as equipes de cirurgiões bucomaxilofaciais no Hospital Universitário, Hospital Regional Rosa Pedrossian e na Santa Casa da Capital”, observa a dentista Juliana Santiago Setti Koutchin, presidente da Comissão de Odontologia Hospitalar do CRO-MS.

Juliana explica que a presença de cirurgiões-dentistas nos hospitais é algo essencial, pois eles têm capacidade para interpretar exames complementares, diagnosticar e prevenir alterações bucais, agindo e atuando frente a situações emergenciais. “Quando não há dentistas nos hospitais, os pacientes podem permanecer internados por mais tempo devido a pneumonias que provêm muitas vezes de bactérias que ficam acumuladas na boca e que são aspiradas. Se for feita correta higienização da boca e também o diagnóstico das lesões bucais, o quadro pode mudar”.

Setti reforça que muitas doenças bucais estão relacionadas às doenças sistêmicas, inclusive com trabalhos científicos comprovando a correlação da boca a doenças cardiovasculares, artrite reumatoide, parto prematuro, pneumonia. “Muitas pessoas não sabem disso e quando os dentistas estão atuando nos hospitais podem diagnosticar esses problemas e intervir precocemente para um diagnóstico e tratamento integral do paciente, visando agilizar sua alta hospitalar”.

Em hospitais de outros estados já é protocolo a presença de dentistas nas equipes de transplantes, de cirurgias cardíacas e nos setores de tratamento ao paciente oncológico. “Isso já é uma realidade em outros hospitais e pretendemos fazer o mesmo em MS, pois quando um paciente é internado para ser operado, caso tenha infecção bucal, ela pode se transformar numa sepse [conjunto de manifestações graves em todo o organismo produzidas por uma infecção]. Isso faz com que o paciente corra o risco de perder aquela cirurgia”, completa Juliana.

Presidente do Sioms diz que má gestão dos recursos públicos e fechamentos de centros são preocupantesPresidente do Sioms diz que má gestão dos recursos públicos e fechamentos de centros são preocupantes
Responsável por unidade do OdontoSesc conta que há pessoas acima de 30 anos que nunca foram ao dentistaResponsável por unidade do OdontoSesc conta que há pessoas acima de 30 anos que nunca foram ao dentista

Agravantes para a saúde da boca – Presidente do Sioms (Sindicato dos Odontologistas de Mato Grosso do Sul) há um ano, a dentista Marta Maria Duarte Brandão, pós-graduada em Odontologia do Trabalho, conta que atualmente existem 800 profissionais sindicalizados no órgão. Segundo ela, dificuldades com a falta de verbas, má gestão na utilização dos recursos públicos e fechamento de CEOs (Centros de Especialidades Odontológicas) são as principais necessidades vistas pelo sindicato.

Marta frisa que a saúde pública deve ser uma prioridade, porém, nas viagens que tem feito ao interior, juntamente com o advogado Alexandre Chadid, assessor jurídico do Sioms, se depara com prefeitos argumentando que a folha de pagamento está preenchida e que não há orçamento para investimento na área odontológica. “No interior a estrutura é sucateada, falta material. Muitos CEOs foram fechados e como não há especialistas nesses locais, se houver necessidade os pacientes são encaminhados para a Capital, fator que dificulta o acesso deles aos tratamentos”.

Ailton Morilhas, presidente do CFO, entende que os valores destinados à saúde deveriam ser 10% de responsabilidade federal, 12% dos estados e 15% dos municípios, mas o que acontece é que os municípios estão ‘estrangulados’ tendo que destinar cerca de 30% para suprir as necessidades da saúde. Apesar disso, considera que a odontologia brasileira, que conta hoje com cerca de 270 mil dentistas, é uma das melhores do mundo, principalmente nas questões técnicas e científicas.

O Ministério da Saúde, de acordo com a presidente do Sioms, preconiza que o atendimento seja feito no local de origem do paciente. Com a falta de atendimento de plantão e especialidades, o paciente é muito prejudicado e as consequências são graves, podendo levá-lo a óbito.

Na opinião de Chadid, os gestores se atêm apenas a questões financeiras e se esquecem de fazer planejamento. Para o Sioms, o problema não são os recursos, mas sim a má gestão que prioriza outras questões em detrimento da saúde. “Existem diversos recursos em níveis federal e estadual que podem ser captados e não são feitos por falta de gestão”.

A falta de concursos públicos no interior também é mais um agravante, já que a maioria dos profissionais é contratada e assim que o município precisa é feito corte de gastos, resultando em demissões e sobrecarregando os poucos profissionais que são concursados, conforme relato de Marta. “O Ministério da Saúde possui um programa que deve ser seguido conforme a demanda do município. No caso de mais de 100 mil habitantes esse município já deve ter uma UPA [Unidade de Pronto Atendimento], CEOs e as UBSs [Unidades Básicas de Saúde] com equipes odontológicas completas”, alerta.

“O nosso objetivo vai além de discutir os direitos da categoria, é também buscar que a população tenha uma dignidade mínima no atendimento. A grande maioria não tem condições de ter um tratamento odontológico e nem de se deslocar para outras cidades”, completa Marta. “O piso salarial nacional determinado por lei para o dentista é de três salários mínimos no regime da CLT [Consolidação das Leis do Trabalho]. Os servidores públicos têm uma legislação específica de 1961, que está muito defasada. Neste contexto, cada município possui sua lei orgânica e o Estatuto do Servidor e o valor do salário é estipulado de acordo com a realidade local, ou seja, é um conjunto de fatores que precisamos lutar para melhorar”, emenda Alexandre.

A meta do Sioms, atualmente, é tentar parceria com o governo do Estado para que os gestores participem de reciclagem por meio do apoio dos gestores do Ministério da Saúde, com orientações sobre como atuar nos municípios. “Os programas do Ministério da Saúde têm requisitos para o repasse de verbas que dependem das demandas dos municípios. Mesmo com essas verbas, os gestores municipais relutam em dar sua contrapartida”, explica Chadid.

Leuza quebrou dentes e faz tratamento de graça na Faodo/UFMS. Ela considera muito bons os serviçosLeuza quebrou dentes e faz tratamento de graça na Faodo/UFMS. Ela considera muito bons os serviços
Elias tem 55 anos, nunca usou fio dental, mas depois de tratamento promete cuidar melhor dos dentesElias tem 55 anos, nunca usou fio dental, mas depois de tratamento promete cuidar melhor dos dentes

Bem-estar bucal – Paulo Zárate, pós-doutor em Odontologia pela FOP/Unicamp (Faculdade de Odontologia da Universidade Estadual de Campinas) e diretor da Faodo/UFMS, relata que o curso de odontologia tem crescido muito nos últimos dez anos em termos de pesquisa, especialmente quando foi instituída a disciplina de Trabalho de Conclusão de Curso, em 2002. Porém, desde 2011, a maior contribuição de pesquisas está concentrada no curso de Mestrado em Odontologia; neste ano a quarta turma se forma.

Na saúde coletiva, por exemplo, foi realizado um projeto em que foi mensurada a quantidade de fluoreto de cálcio absorvido pelo esmalte dentário quando é feita a aplicação do flúor. “Nesta área ainda há trabalhos sobre a qualidade do serviço público, políticas públicas de saúde, percepção do usuário sobre sua saúde bucal e pesquisas envolvendo comunidades específicas, como crianças, idosos e dependentes químicos”.

Áreas como a dentística permitem o trabalho laboratorial, com avaliação de cimentos odontológicos, materiais restauradores, lesões nos dentes, que são trabalhos que podem ser realizados a nível laboratorial no âmbito da faculdade. Também há pesquisas desenvolvidas com animais na pós-graduação, principalmente nas áreas de cirurgia, farmacologia e periodontia, de acordo com Paulo Zárate.

No âmbito da Faodo ainda são oferecidos tratamentos dentários de graça para a população. A dona de casa Leuza de Souza, 60 anos, faz tratamento desde o início de março deste ano, considera muito bons os serviços no local e desmistifica a ideia de que serviço gratuito é sinônimo de mau atendimento. “Fiz tratamento de dois dentes da frente há muito tempo. Eles quebraram e tirei. Quebrei outro há pouco tempo, então resolvi procurar atendimento aqui. O serviço é excelente e os professores acompanham e tratam as pessoas com carinho”, comenta.

A Faodo também realiza um projeto de extensão multidisciplinar que tem sua base no Pantanal, com trabalhos odontológicos desenvolvidos desde 1994. Mensalmente, acadêmicos de odontologia vão até lá oferecer atendimento à população ribeirinha do Passo da Lontra. “Temos trabalhos de avaliação da percepção da saúde bucal e também há os que avaliam a capacidade antimicrobiana de algumas plantas e vegetais”.

Zárate desenvolveu durante nove anos uma pesquisa sobre o própolis, responsável por avaliar os benefícios da substância para a arcada dentária, sua eficácia antibacteriana em pacientes ortodônticos, pacientes propensos à cárie, eficácia no combate a bactérias que causam inflamação e também como anti-inflamatório e cicatrizante. “Todas essas pesquisas são para produzir um produto final que possa abranger a população de baixa renda”, analisa.

No contexto geral da saúde bucal, Zárate explica que existe uma proporção sugerida pela OMS (Organização Mundial de Saúde) de que haja um dentista para cada 15 mil habitantes. Em Campo Grande o número de profissionais é suficiente para não gerar dificuldades de inserção no mercado de trabalho e nem mesmo haver defasagem de profissionais. “No interior do Estado a situação é diferente. Em alguns municípios existem apenas três profissionais”.

Ailton Morilhas, presidente do CFO, acrescenta que a distribuição dos dentistas é algo insatisfatório, pois não existe uma política de saúde bucal. O deslocamento de profissionais para o interior, segundo ele, não tem nenhum atrativo devido às condições de trabalho, boas remunerações e qualidade de vida. “É necessário fazer uma política de interiorização desses profissionais, para que haja uma melhor distribuição”.

Para Morilhas, o maior problema enfrentado pelo órgão é a abertura de faculdades de odontologia (198 atualmente) e o excesso de cirurgiões dentistas. Paulo Zárate concorda que no Brasil há sobrecarga de profissionais no mercado, mas por outro lado destaca dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) que apontam que 19 milhões de brasileiros nunca sentaram na cadeira de um dentista, fator que mostra que a população não tem acesso ao dentista, pois a maioria das pessoas se concentra nos grandes centros e as cidades localizadas em áreas rurais acabam ficando desassistidas.

Para manter um bom cuidado com a boca é essencial que as pessoas vão ao dentista pelo menos uma vez por anoPara manter um bom cuidado com a boca é essencial que as pessoas vão ao dentista pelo menos uma vez por ano

Mais pesquisas – O dentista Túlio Kalife, doutor em Saúde e Desenvolvimento da Região Centro-Oeste pela UFMS e professor na Faodo, com pesquisas nas linhas de materiais odontológicos, biomateriais e radiações ionizantes, participa de um grupo de estudo focado principalmente na área de implantes dentários, desde a parte da adaptação do implante com a prótese até a manutenção dessa prótese na cavidade oral. “Temos algumas técnicas, como a do implante zigomático [implante de titânio fixado no osso zigomático por um acesso intrabucal]. Fizemos uma modificação da técnica cirúrgica desse implante e em termos de repercussão nacional tem dado uma visibilidade muito grande”.

Ele desenvolveu a pesquisa com um de seus orientados para avaliar a manutenção desses implantes dentro da cavidade oral e o resultado foi surpreendente. Essa pesquisa não teve financiamento, foi feita com doações de radiografias de um centro de radiologia e ajuda de uma empresa de implante, que doou algumas peças para sua realização.

Sobre a pesquisa citada, o professor frisa que a intenção foi modificar a técnica do implante que busca o osso fora da cavidade bucal. Essa nova técnica, segundo ele, é indicada para os pacientes que não têm muito osso e não querem fazer enxerto. “É uma alternativa de tratamento para esses pacientes e dependendo da condição é possível fazer com anestesia local. Temos casos que realizamos esse procedimento e concluímos que não prejudica o implante, funcionando normalmente”, diz o professor, adiantando que cerca de 20% dos pacientes acima de 70 anos não possuem osso para fazer implante.

Na opinião dele, a saúde começa pela boca e no caso da saúde bucal é uma questão de saúde pública. “Nos hospitais, percebo que a hospitalização dos pacientes que têm a capacidade de triturar o alimento para que seja absorvido pelo organismo de maneira correta dura menos tempo do que aqueles que não possuem essa capacidade de mastigação”.

A implantodontia, conforme Túlio, é a terceira dentição, uma vez que os dentes de leite são substituídos pelos permanentes e no caso de perda, não existe elemento dentário nascendo naquela posição. O professor esclarece que o médico sueco Per-Ingvar Brånemark foi o inventor da implantodontia. Ele usava câmeras para fazer análises de microcirculação terminal nas tíbias de coelhos e colocava tubos de titânio para inserir as câmeras; na remoção dos tubos o titânio havia se integrado aos ossos dos animais.

O implante não tem rejeição, é uma das áreas muito importantes para quem perdeu os dentes e por isso é que aquelas pessoas que têm todos os dentes devem se ater à prevenção. “O acesso ao implante não é fácil. Às vezes as pessoas não dão importância ao dente, mas perder um dente é como perder um dedo, já que os outros dentes serão afetados, saindo de posição. Com isso a mordida vai mudar”.

No corpo, de acordo com Kalife, há três pontos de equilíbrio: ombro, cintura e joelho. Quando isso acontece na boca, é possível ter um desequilíbrio total no organismo, até mesmo de postura por causa de um dente perdido.

Atualmente o professor desenvolve um projeto de termociclagem mecânica numa máquina que simula a mastigação com variações de temperatura. O objetivo é fazer uma análise de dois tipos de implantes e ver o afrouxamento dessas peças na boca do paciente.

Em relação às pesquisas universitárias, no Brasil a situação é inversa a que ocorre em outros países, conforme Kalife. “Em outros países a universidade é paga pela empresa para fazer a pesquisa porque é interessante para a empresa ter o selo da universidade. No Brasil, os pesquisadores é que precisam mendigar para conseguir apoio para os projetos”.

Já o dentista Danilo Zanello Guerisoli, doutor em Odontologia pela USP e professor da Faodo na área de endodontia (estudo da polpa dentária, de todo o sistema de canais radiculares e dos tecidos periapicais), possui pesquisas focadas principalmente na área de biomateriais. Segundo ele, existe um biomaterial na endodontia chamado MTA (Agregado Trióxido Mineral), utilizado para vedar perfurações na raiz do dente. Inventado em 1993 nos Estados Unidos, ninguém sabia direito qual era sua composição, até que em meados de 2000 foi descoberto que era basicamente de cimento Portland (usado na construção civil).

“Desde então, uma área da pesquisa em biomateriais na odontologia vem tentando melhorar as propriedades deste material. Eu estou trabalhando com uma evolução deste cimento”, argumenta o professor.

Professor Túlio Kalife desenvolveu uma técnica de implante que busca o osso fora da cavidade bucalProfessor Túlio Kalife desenvolveu uma técnica de implante que busca o osso fora da cavidade bucal
Dentista Robson Ajala fala sobre educação no contexto bucal para crianças no Pantanal  (Foto: Waldeck Souza)Dentista Robson Ajala fala sobre educação no contexto bucal para crianças no Pantanal (Foto: Waldeck Souza)

Salvando bocas – Em nível nacional, conforme Ailton Morilhas, presidente do CFO, existe o projeto Brasil Sorridente. Campo Grande já foi premiada pelo projeto, que funciona da seguinte forma: os municípios de até 50 mil habitantes, entre 50 mil e 100 mil habitantes e acima de 100 mil devem enviar documentos aos conselhos regionais a respeito da saúde bucal. Seleção é feita e encaminhada ao CFO que, por meio da Comissão de Políticas Públicas de Saúde, que analisa os quesitos pré-estabelecidos em edital e averigua quais obtêm as maiores pontuações. As cidades vencedoras recebem um consultório odontológico completo.

Também de iniciativa nacional, o projeto OdontoSesc, lançado em 1999 pelo Departamento Nacional do Sesc (Serviço Social do Comércio), foi criado com o objetivo de contribuir com a melhoria da saúde bucal brasileira, levando atendimento odontológico e ações de educação para cidades do interior, periferias de grandes centros e empresas demandadas. O público-alvo é a população de baixa renda e com dificuldade de acesso a esses tipos de serviços.

Em Mato Grosso do Sul, o projeto que teve início em 2001 e percorreu 16 municípios, enche de orgulho a diretora regional do Sesc/MS, Regina Ferro. No ano passado, por exemplo, duas unidades móveis atuaram nas cidades de Corumbá (nove meses), Camapuã (seis meses) e Aral Moreira (nove meses), onde as equipes de dentistas atenderam 15.626 pessoas, com mais de 30 mil procedimentos odontológicos.

“O ideal seria que a demanda fosse por tratamentos preventivos, mas essa não é a realidade da população que tem sido atendida nesses 13 anos de atuação. São pessoas que necessitam muito de tratamentos curativos como restaurações, tratamentos de canal e de problemas gengivais. No Estado, o projeto atua no conceito de curar e educar, proporcionando ao cliente o tratamento necessário bem como o ensinamento e motivação para que assuma o cuidado com sua higiene bucal evitando o ressurgimento de doenças”, afirma Regina.

Para que o município seja atendido pelo projeto é necessário que as prefeituras entrem em contato com o Sesc e apresentem as necessidades que não conseguem suprir, então a instituição elabora estratégia de atendimento. A unidade móvel fica no município por seis meses, porém o prazo pode ser estendido para que os dentistas constatem os principais problemas dos pacientes e concluam os tratamentos.

Os tratamentos se baseiam em atendimentos à atenção básica, atendimentos de urgências, restaurações, raspagens, tratamentos de canais, extrações de dentes, radiografias. Também são realizadas ações educativas como palestras sobre temas de saúde bucal, reuniões, higienizações supervisionadas e exibições de vídeos.

Atualmente, uma unidade está em Jaraguari, município distante 44 km de Campo Grande, onde a meta é realizar 15 mil atendimentos, entre procedimentos odontológicos e ações nas escolas e assentamentos com palestras de educação em saúde bucal. Pessoas que nunca tiveram o hábito de usar fio dental ou escovar os dentes pelo menos após as três principais refeições diárias já começaram a mudar seus estilos de vida.

O dentista Gerson Souza Brandão Neto, responsável pela unidade móvel do projeto OdontoSesc, conta que a unidade, embora seja uma estrutura móvel, é uma clínica odontológica completa com capacidade para quatro odontólogos trabalharem simultaneamente. Além disso, possui em seu interior sala de raios-X devidamente blindada, sala de esterilização, escovódromo e banheiro para a equipe, tudo isso com ar condicionado, som ambiente e sistema de desinfecção do ar por meio de barreiras de luz ultravioleta. Outro ponto de destaque é que a unidade contém uma plataforma elevatória para o deslocamento de pacientes com necessidades especiais, planejada para garantir a acessibilidade de todos os 48 clientes atendidos diariamente.

Gerson diz que os trabalhos de orientação e prevenção são muito reforçados no projeto. “Percebemos um grande avanço com as orientações sobre a saúde bucal, mas ainda é necessário esse trabalho de prevenção. Existem pessoas com mais de 30 anos e que nunca tiveram acesso ao serviço odontológico. É uma realidade que a gente encontra no interior, então trabalhamos muito nessa área que é o nosso foco: cuidar da doença, mostrar a causa e ensinar como preveni-la”.

A agente de saúde Maria Antonia dos Santos, 43 anos, que trabalha em Jaraguari, percebe que há muito descuido com a higiene da boca. “As pessoas precisam de mais orientação, já que têm costume de escovar os dentes apenas ao acordar. Com esse atendimento elas estão aprendendo a se cuidar melhor”.

A satisfação com o tratamento é projetada no sorriso da comerciante Edi Rezende Salomão, 54, que precisava restaurar alguns dentes mesmo sem sentir dores. “Estou muito satisfeita com o atendimento. Os especialistas são ótimos, é um local que tem higiene”, assegura.

A opinião sobre o atendimento é compartilhada pelo assentado Elias Pereira de Oliveira, 55, que há muitos anos não ia ao dentista e nunca usou fio dental. “Eu não ia ao dentista há quase oito anos. Estava sentindo muita dor e fui muito bem atendido na unidade. Agora, vou cuidar melhor dos meus dentes”, ressalta.

Professor já desenvolveu pesquisa sobre própolis para avaliar eficácia antibacteriana em pacientes ortodônticosProfessor já desenvolveu pesquisa sobre própolis para avaliar eficácia antibacteriana em pacientes ortodônticos
Só no ano passado, 15.626 pessoas foram atendidas pelo OdontoSesc, diz diretoria regional do Sesc/MS Só no ano passado, 15.626 pessoas foram atendidas pelo OdontoSesc, diz diretoria regional do Sesc/MS

Alma Pantaneira – Outro projeto inovador e de grande importância para a saúde bucal em Mato Grosso do Sul é a “Expedição Alma Pantaneira”, que em sua última ação, realizada no ano passado, contou com uma equipe formada por três médicos, três dentistas, um farmacêutico, um enfermeiro e oito apoiadores, entre eles fuzileiros da Marinha. O grupo banca as próprias despesas e leva atendimento dentário à população do Pantanal, percorrendo trechos de terra.

Um dos integrantes da expedição é o dentista Robson Ajala Lins, especialista em Homeopatia, informando que o objetivo da ação é atender as pessoas que são desassistidas. “A gente visita fazendas e as pessoas da redondeza são convidadas a conhecer o projeto e receberem o atendimento. Numa delas ficamos impressionados com um centro odontológico muito bem estruturado montado por um fazendeiro para a realização de exames. Ele nos ofereceu avião para irmos sempre que possível até o local. O projeto é importante, pois parcerias assim vão sendo construídas”.

Robson trabalha especificamente com a educação no contexto da saúde bucal. “Nós levamos muitas escovas de dente, cremes dentais, materiais de educação para as crianças e as comunidades. Percebemos que realmente não é hábito dessas comunidades a escovação dos dentes. Trabalhamos bastante a orientação e realizamos com grande frequência tratamentos de canais”.

De acordo com Lins, mais do que apenas eliminar os focos de infecção e dar remédios aos pacientes, a intenção do grupo é promover a instrução para hábitos saudáveis e prevenção de doenças como o câncer bucal. “O maior problema enfrentado é a falta de acesso, então todo material que levamos é de muita importância”.




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