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Capital

“Me morde há 10 anos”, afirma Jamil Name sobre pai de vítima de execução

Empresário octagenário diz que “sustenta a cidade” em interrogatório sobre assassinato por engano

Por Marta Ferreira | 01/02/2020 13:34
Jamil Name durante interrogatório feito por videconferência entre o presídio federal de Campo Grande e o de Mossoró (RN): "Sustento a cidade". (Foto: Reprodução de vídeo)
Jamil Name durante interrogatório feito por videconferência entre o presídio federal de Campo Grande e o de Mossoró (RN): "Sustento a cidade". (Foto: Reprodução de vídeo)

No dia 27 de novembro de 2019, exatos dois meses depois de ser preso pela operação Omertà, o empresário Jamil Name, 80 anos, foi interrogado por cinco delegados e uma delegada da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, como parte do inquérito sobre a execução por engano do estudante de Direito Matheus Coutinho Xavier, 20 anos, ocorrida no dia 9 de abril de 2019. O alvo do crime era o pai do rapaz, o capitão reformado da Polícia Militar Paulo Roberto Xavier, 42 anos, desafeto de Name, segundo as investigações.

Mesmo avocando o direito de só falar em juízo, Jamil Name acabou respondendo perguntas dos policiais, em 18 minutos de videoconferência entre o presídio federal de Campo Grande e a unidade prisional de Mossoró (RN). O material foi anexado na sexta-feira (31) ao processo pela morte de Matheus e configura a primeira aparição do empresário falando das suspeitas sobre ele.

Durante a conversa, o empresário disse que “sustenta a cidade”, que o era o pai de Matheus quem deveria ter morrido no atentado de abril do ano passado, fala de relação conflituosa com o militar, de mais de uma década, porém nega o crime. O empresário cita delegados de polícia a quem teria ajudado em suas carreiras, sem específicar nomes. Visivelmente mais magro, depois de perder 11 quilos conforme a defesa, ele diz não ter qualquer doença crônica.

Confira baixo trechos do vídeo gravado.

Assassinato por engano - Quando informado sobre o indiciamento por ser o mandante da execução do estudante e de ter providenciado os meios para que fosse levada a cabo, Name sorri, rejeita a acusação, classificada como “balela”. Defende a tese de se quisesse teria feito “alguma coisa” com o militar, conhecido como PX, em diversas outras oportunidades.

“Faz dez anos que esse cara me morde, faz dez anos”, afirma. “E eu só ajudando esse cara, se eu quisesse, eu tive a oportunidade de ficar sozinho com ele no mato 200 vezes, se eu fosse fazer alguma coisa com ele já teria feito”, prossegue. 

“Se eu quisesse matar, se eu fosse matador, ou quisesse matar - porque quem matou o menino ia matar ele - ia matar o Paulo, e não o menino, entendeu? Quem foi pra matar foi pra matar o pai dele”, prossegue.

“Eu nunca quis fazer nada com ele e nem com ninguém. Nada com ninguém, não é só com ele, com ninguém”, garante.

Em pelo menos três oportunidades do vídeo gravado, Jamil Name reforça a intenção de falar apenas com o juíz do processo sobre as suspeitas contra ele apontadas pela operação Omertá.

“Eu quero falar é com o juiz. Eu não sou obrigado a reproduzir prova contra mim”, observa. “Eu vou mostrar o que tenho pra mostrar pra ele, aí, que essas balelas que tão inventando, que “arrumou”, que num sei o que”, alega.

A primeira audiência do caso na 2ª Vara do Tribunal do Júri, no Fórum de Campo Grande, está marcada para 2 e 3 de março.

Ao falar da acusação sobre a morte de Matheus Coutinho, Jamil afirma ser “a coisa mais fácil do mundo de responder” e completa: “mas eu quero falar com o juiz isso daí, não adianta, quem vai julgar isso é o juiz, não são os senhores, isso daí é uma balela”, repete.

Paulo Roberto Teixeira Xavier, capitão reformado da PM, e pai de vítima de execução por engano. Jamil Name diz que militar o "mordia" há 10 anos. (Foto: Henrique Kawaminami)
Paulo Roberto Teixeira Xavier, capitão reformado da PM, e pai de vítima de execução por engano. Jamil Name diz que militar o "mordia" há 10 anos. (Foto: Henrique Kawaminami)

“Eu tô com o coração limpo. Eu não tenho nada a ver com nada de ninguém e eu vou mostrar pra esse louco aí. Cada hora ele fala que é um, e vou mostrar com testemunha de primeiríssimo nível, não é ‘gentinha’ não”, continua o empresário.

“Ajuda” – Em outro trecho do depoimento à força-tarefa, Jamil Name cita dois delegados da Polícia Civil como pessoas a quem teria ajudado, interferindo para avançarem na carreira. “Sou o cara mais azarado do mundo. Delegado aí nem era pra ser policial e eu coloquei na polícia. Depois de ganhar a promoção, eu trouxe pra Capital”, assegura.

“Segundo: o diretor de polícia. O Paulo ia ‘caguetar’ ele pra ele não entrar, tive que falar Paulo não faz isso. Fiz o Paulo desistir”, alegou. Tudo isso, segundo diz, foi testemunhado. Ele não cita nomes.

“50, 100” – No início do procedimento de interrogatório, o delegado responsável pelas perguntas faz a “qualificação” do preso. Quando perguntada a profissão de Name, ele se diz pecuarista e corretor há mais de 40 anos. Relata, ainda, ter sido dono de “grandes firmas”, responsáveis por lotear mais de “800 hectares" em Campo Grande. “Tem um pouco mais”, acrescenta, em relação a suas ocupações.

“Minha vida é um livro aberto. Nunca fiz nada com ninguém”, afirma nesse ponto do vídeo gravado.

Mais à frente, já no final do depoimento, é indagado pelo defensor, Renê Siufi, se sustenta alguém fora da família e a declaração, em meio a novo riso, é a seguinte: “Rapaz, eu vou falar uma coisa para você. Eu sustento a cidade. É tanta mordeção. É 50 aqui, 100 ali”.

Renê faz mais uma pergunta, sobre a saúde do cliente. Indaga se ele tem alguma doença crônica. A resposta é negativa, por duas vezes. Ao fim, o advogado afirma para Jamil Name ficar “tranquilo” e informa que algo combinado entre eles está sendo verificado. O empresário octagenário faz menção de falar algo sobre “aquilo que te falei”, e Renê encerra a conversa.

A conversa acaba e um dos agentes do presídio ajuda Jamil Name a se levantar e sair pela porta da sala de videoconferência.