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Capital

A espera de compra de 1,4 milhão, falta remédio do kit covid nos postos de saúde

Prefeitura empenhou recursos para comprar medicamentos há sete dias, mas insumos devem chegar só na próxima semana

Por Jones Mário e Bruna Marques | 23/07/2020 12:45
Fachada do posto de saúde no Bairro Nova Bahia, onde não há azitromicina disponível (Foto: Henrique Kawaminami)
Fachada do posto de saúde no Bairro Nova Bahia, onde não há azitromicina disponível (Foto: Henrique Kawaminami)

Postos de saúde de Campo Grande já estão sem estoque de azitromicina, que compõe o “kit prevenção” da prefeitura à covid-19. A Sesau (Secretaria Municipal de Saúde Pública) alega dificuldades das empresas contratadas na distribuição dos remédios. O município empenhou, só na semana passada, R$ 1,441 milhão para compra de remédios receitados à pacientes com novo coronavírus.

Com sintomas da doença, a professora Nira Oliveira, 51 anos, foi à unidade de saúde do Bairro Nova Bahia, região norte de Campo Grande, e não encontrou azitromicina na farmácia. “Falaram que está em falta, mas acredito que seja porque aumentou a procura”, disse, na manhã de hoje (23).

Prescrição médica à professora Nira Oliveira, que está com sintomas de novo coronavírus (Foto: Henrique Kawaminami)
Prescrição médica à professora Nira Oliveira, que está com sintomas de novo coronavírus (Foto: Henrique Kawaminami)

Embora sem diagnóstico para covid-19, a prescrição médica recomendava também hidroxicloroquina, remédio que ela encontrou.

Infectados, a servente Luci Vanderleia Banczynski, 49, e o marido, o mestre de obras Fernando Barbosa, 49, foram ao CRS (Centro Regional de Saúde) do Tiradentes, região leste, e não encontraram os remédios do kit prevenção.

“Me passaram antialérgico, dipirona e soro fisiológico. Desde quando isso é remédio para covid?”, perguntou Barbosa.

“Cadê esses remédio? Não receitam os remédios para a gente. Eu com todos os sintomas e a médica me passou um xarope para tosse”, completou Luci.

Luci Vanderleia e Fernando Barbosa foram diagnosticados com covid-19, mas não encontram remédios (Foto: Henrique Kawaminami)
Luci Vanderleia e Fernando Barbosa foram diagnosticados com covid-19, mas não encontram remédios (Foto: Henrique Kawaminami)

Via assessoria de imprensa, a Sesau confirma estoques praticamente zerados de azitromicina. A previsão da pasta é de regularizar a situação na próxima semana.

Gastos e prazos - Segundo portal da Transparência, o município empenhou R$ 239 mil para comprar, sem licitação, 96 mil unidades de azitromicina. A nota de empenho é do dia 17 deste mês. A Inovamed, empresa de Erechim (RS), teria cinco dias corridos para entregar os remédios, a partir do recebimento da nota.

No mesmo dia 17, outros R$ 385 mil foram empenhados em favor da Georgini Produtos Hospitalares, de Bela Vista do Paraíso (PR), que deveria fornecer 175 mil unidades de ivermectina. O prazo para entrega é o mesmo, de cinco dias.

Já no dia 15 de julho, mais R$ 817,8 mil foram empenhados pela prefeitura da Capital para adquirir 654 mil cartelas de sulfato de zinco, a maior parte (R$ 637,9 mil) com a Nunesfarma, empresa de Curitiba (PR). Medicinalis e Farma Cinco, as duas de Campo Grande, também foram acionadas para manipular e fornecer o medicamento em até cinco dias após recebimento da nota.

A reportagem procurou a Sesau para saber se os remédios comprados chegaram ao almoxarifado da pasta, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria.

Ao que consta no portal da Transparência, nenhuma das compras para o kit prevenção à covid-19 foi liquidada, ato de praxe na gestão pública quando o que foi adquirido é efetivamente entregue.

Contraindicação - Apesar do endosso do CRM-MS (Conselho Regional de Medicina), infectologistas condenam a adoção do coquetel de drogas como política pública de enfrentamento ao novo coronavírus.

A crítica se apoia no raso lastro científico sobre a eficiência de medicamentos como hidroxicloroquina e ivermectina no tratamento da doença. A primeira é indicada para pessoas com artrite, lúpus, doenças fotossensíveis e malária. A segunda, para infecções provocadas por vermes e piolho.

Não há estudos conclusivos sobre a eficácia das duas drogas em pacientes de covid-19 e, por isso, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), responsável pelo controle sanitário da produção e consumo de medicamentos no País, não incluiu novas indicações terapêuticas nas respectivas bulas.

A azitromicina, um antibiótico, tem aval da Anvisa apenas para tratamento de infecções como bronquite, pneumonia, sinusite e faringite, bem como de algumas doenças sexualmente transmissíveis.

Além de ivermectina, hidroxicloroquina e azitromicina, o kit prevenção anunciado pela prefeitura terá sulfato de zinco, vitamina D e potássio. Segundo o prefeito Marquinhos Trad, o coquetel ficará disponível para pacientes com receita médica.

Em posicionamento anterior, a Sesau havia informado que estruturaria uma nota técnica para normatizar a prescrição dos remédios.

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