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Capital

Alerta: no limite da estrutura, pandemia só tem controle se cidadão colaborar

Campo Grande tem mais de 400 ocupando vagas de hospitais por causa do contágio pelo novo coronavírus

Por Marta Ferreira | 16/03/2021 17:24
Vista área de cemitério público em Campo Grande, que já sepultou mais de 1,6 mil vítimas da covid-19. (Foto: Arquivo/Campo Grande News)
Vista área de cemitério público em Campo Grande, que já sepultou mais de 1,6 mil vítimas da covid-19. (Foto: Arquivo/Campo Grande News)

Um ano atrás, Campo Grande tinha 116 leitos de UTI. Agora, tem 317, ou seja, quase três vezes mais, como reposta à pandemia de covid-19, crise sanitária que sacodiu o mundo todo. Ainda assim, a média de ocupação dessas vagas está acima dos 90% todos dias neste mês de março e o número de novos contágios pelo coronavírus segue em alta, em ritmo que surpreende até quem está lidando de perto com a situação desde o início.

O dado mais recente é de 430 internados pela doença na cidade, mais de 80% com necessidade de oxigênio para ter conforto ao respirar. De todos os doentes, 88 estão em ventilação mecânica, dado o estrago do vírus nos pulmões, um dos órgãos mais afetados pela enfermidade.

É, finalmente, o pior momento da emergência em saúde? Ninguém sabe dizer com certeza, pois já esse pico já foi cogitado várias vezes, sem acerto. Consenso existe de que não há como ampliar a estrutura de atendimento infinitamente, pois para isso, sim, há limite, de suprimentos e de material humano.

O Campo Grande News ouviu do prefeito da cidade, Marquinhos Trad (PSD), e de representantes de entidades da área de saúde, a reafirmação do entendimento repetido exaustivamente há um ano: é o comportamento da população o maior trunfo na guerra contra o vírus letal.

Difícil é quanto não se tem solução”, defende o prefeito, ao citar os investimentos feitos para ampliar o número de vagas e a necessidade de contrapartida em forma de cuidados individuais de prevenção – uso de máscara e higienização, além do distanciamento social, em resumo.

 “Quanto mais cuidado o cidadão tiver quando tiver conversando, dialogando, mais longe ele vai ficar do vírus”, observa.

Marquinhos vê, ainda, necessidade de “equilíbrio”. Nas palavras dele, não há razão para pânico, pois há como atender a todos na atual conjuntura. Ele citou como exemplo o caso de pessoas pedindo para serem internadas, quando o médico já avaliou e disse não ver necessidade.

“Não é momento de terror, de pânico, é justamente na dificuldade que a vida nos impõe manutenção do equilíbrio”, aconselha.

Acredite na gravidade da situação - Também não é hora de duvidar, pondera o presidente do Sindicato dos Médicos de Mato Grosso do Sul, Marcelo Santana, lembrando a presença de variantes do coronavírus, como a P1, surgida em Manaus (AM). Essa mutação do microorganismo é transmitida mais rapidamente e seus efeitos são mais severos.

“A gente está percebendo agora, nos últimos dias, muito paciente novo, indo para o tubo, muita gestante”, comenta. “Os hospitais estão lotados, tanto públicos quanto privados”, completa.

A situação dos estabelecimentos privados chegou ao ponto de uma nota conjunta alertar para a gravidade do caos e apontar a impossibilidade de oferecer mais vagas de terapia intensiva, tanto por falta de equipamentos quanto de pessoal para trabalhar.

Na análise do presidente da entidade,  o reforço da estrutura de atendimento é importante, “porque num primeiro momento você vai conseguir suprir a necessidade de vagas”.

O presidente do Sinmed (MS), Marcelo Santana, alerta sobre riscos do momento tenso de alta de contágio pela covid-19. (Foto: Divulgação)
O presidente do Sinmed (MS), Marcelo Santana, alerta sobre riscos do momento tenso de alta de contágio pela covid-19. (Foto: Divulgação)

Mas faz o alerta: “se a pandemia agravar desenfreadamente, vai chegar num ponto que não vai conseguir mais ampliar vagas”.

Além de equipamentos médicos, medicamentos também não são recursos infinitos, cita o  médico, que é nefrologista e trabalha em CTI (Centro de Terapia Intensiva). “Drogas importantes começam a faltar no mercado, indústria não consegue suprir”, relata.

Entre esses produtos, estão bloqueadores neuromusculares, essenciais para o processo de intubação de pacientes. A reportagem também identificou dificuldade de compra de anticoagulantes, aplicados para evitar o risco de trombose venosa em quem está acamado.

Apesar desse cenário, o olhar do médico, está falando mudança na forma de agir das pessoas. “O que a gente vê é que a população não tá acreditando, não sei se por cansaço, começaram a descuidar da segurança”, enxerga.

Além de não se preocupar com a segurança, algumas desafiam o poder público, não usando máscara, algumas em uma espécie de protesto às autoridades", sentencia Marcelo Santana.

Para ele, é um “ato suicida”. Em vez disso, recomenda: “a gente precisa que a população se centre de novo”.

Colaboração, igualmente, é o que pede o CRM/MS (Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso do Sul) diante do aumento dos casos de infecção por coronavírus. A entidade classifica o atual ponto da pandemia como “bastante difícil”.

 “A entidade pede à população que siga as determinações das autoridades de saúde quanto ao isolamento social, uso de máscaras e higienização das mãos”, diz nota enviada ao Campo Grande News, na qual ressalta a importância de se evitar aglomerações e atender a convocação para se vacinar.

O presidente do Conselho Regional de Medicina em MS, Maurício Jafar. (Foto: Divulgação)
O presidente do Conselho Regional de Medicina em MS, Maurício Jafar. (Foto: Divulgação)

“Qualquer sintoma de infecção pela covid-19 procure assistência médica imediata. Tomando os devidos cuidados e seguindo as orientações podemos contribuir significativamente no combate à pandemia e consequentemente desafogar o sistema de saúde público e particular, o qual encontra-se em capacidade máxima no momento ”, declara o presidente da entidade, o médico Maurício Jafar.

Medidas mais enérgicas - Do ponto de vista da entidade que já viu 20 profissionais morrerem em consequência da covid-19, o Coren (Conselho Regional de Enfermagem de Mato Grosso do Sul) subscreve o entendimento da entidade nacional da categoria.

Em suma, o pedido é por medidas mais restritivas, entre a União Federal, Estados e Municípios, “para evitar o colapso sanitário, que já se evidencia em várias cidades brasileiras”.

 O Conselho Federal afirma que diante da transmissão descontrolada na atual fase da pandemia, a necessidade é de de bloqueio total das atividades não essenciais em todo o território nacional, em ação coordenada pela União Federal.

Em Mato Grosso do Sul, desde domingo (14) vigora o toque de recolher a partir das 20h até as 5h durante segunda-feira a sábado e às 16h no domingo.

Campo Grande optou por seguir essa regra até o dia 19. Antes disso, na quinta-feira (17) será feita reunião de análise do resultado obtido até agora em termos de colocar freio no avanço da doença. Desde o primeiro registro em Campo Grande, já são 1,6 mil mortes na conta da crise sanitária.

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