Com 12 medidas protetivas entre mulheres, aldeia cobra atenção aos candidatos
Apenas duas visitas foram feitas à comunidade durante a campanha, conforme as lideranças

A Aldeia Água Bonita, em Campo Grande, só recebeu dois candidatos do total de 425 que disputam votos nestas eleições, do início das campanhas até esta manhã (15). A terceira visita seria a do guarani-kaiowá, professor e candidato ao governo de Mato Grosso do Sul, Daniel Lemes (PCO), mas ela não ocorreu hoje, como estava previsto.
RESUMO
Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!
A Aldeia Água Bonita, em Campo Grande, recebeu apenas dois candidatos dos 425 que disputam as eleições municipais. A comunidade terena enfrenta demandas urgentes: violência doméstica contra mulheres, com 12 medidas protetivas vigentes, déficit habitacional, com 52 moradias improvisadas, e ausência de escola intercultural indígena. A cacica Alicinda Tibério, vítima de violência, cobra políticas públicas específicas para mulheres indígenas, frequentemente ignoradas pelo poder público.
Se tivesse ido até lá, a opção indígena ao principal cargo político de Mato Grosso do Sul ouviria três demandas principais da comunidade terena: políticas para mulheres vítimas de violência doméstica, habitação e uma escola.
A cacica e ceramista Alicinda Tibério, 48, é ela própria uma vítima. Enfrentou por anos a violência cometida pelo ex-marido e agora a vê repetida na vida de outras mulheres.

São 12 as medidas protetivas vigentes entre mulheres da comunidade, segundo Alicinda. As moradoras protegidas vivem em algumas das 238 casas e barracos que compõem a aldeia.
Alicinda tem a proteção judicial até hoje. “A gente tem que debater essa questão, sim, porque a mulher indígena é sempre invisível para o Poder Público. Falam que isso é cultura, mas isso não é cultura. Eu acredito numa cultura sem violência, que o povo originário tem que valorizar”, desabafa.
A liderança pede que os programas habitacionais contemplem as mulheres, para deixarem de depender do teto de seu agressor e possam ter tranquilidade para correr atrás da independência financeira. “Existe a violência, nós sabemos. Falta um plano”, frisa.
Habitação - Casas são necessidade na aldeia para quem já tem onde morar, mas não em condições mínimas. A Água Bonita tem 52 moradias improvisadas com madeira e lona, isso sem contar os puxadinhos feitos nos fundos de residências de alvenaria.

Já a soma das casas populares mais antigas com as mais novas é de 186. Os números estão fáceis na memória do presidente da Associação de Moradores, Alder Romeiro, que escuta essa demanda da comunidade há sete anos. “Nossa bandeira sempre foi moradia”, reforça.
Mesmo as casas que aparentam ser bem estruturadas, por fora, têm problemas. A da cacica é uma delas. Não tem forro e está cheia de rachaduras nas paredes. "Estão todas desestruturadas, precisam de reformas que não podemos fazer. Quando chove muito, a água entra e chega a atingir 1,5 metro de altura. Não tem saneamento", reclama.
Escola - A dona de casa Lucineide Júlio, 50, diz que a falta de uma escola na aldeia obriga muitas crianças e adolescentes a caminharem ou irem de ônibus todos os dias até o Bairro Jardim Anache. A questão não é só a distância, mas o modelo de instituição.
Alder explica que a comunidade quer uma escola intercultural indígena, com ensino da língua terena e professores indígenas na sala de aula. É uma realidade na Aldeia Urbana Marçal de Souza, por exemplo.
Outras demandas - A cacica destaca que faltam, principalmente para os jovens, emprego e oportunidades de estudo.
O filho dela tem 30 anos e é bolsista no curso de Enfermagem numa universidade particular da Capital. Mas o acesso a um curso superior não é realidade para a maioria.
“Estão desempregados. Falta oportunidade”, reforça a liderança, que está à frente da comunidade há quase oito anos.
Justificativas - O Campo Grande News questionou o candidato Daniel Lemes sobre o motivo de a visita prevista à aldeia não ter ocorrido. Não houve resposta até a publicação desta matéria.
A reportagem também entrou em contato com a Emha (Agência Municipal de Habitação) para saber se as políticas habitacionais de apoio às mulheres vítimas de violência que já existem em Campo Grande estão chegando até as terena da Água Bonita. A assessoria de imprensa disse que enviará resposta.
A SED (Secretaria Estadual de Educação) também foi consultada sobre a existência de algum projeto para a construção de uma escola.
Alder reforça o convite para que outros candidatos vejam de perto o que a aldeia precisa. “A nossa comunidade é bem aberta a todos. A gente não proíbe ninguém de visitar, nem de trabalhar. É de livre e espontânea vontade, está liberado para quem quiser vir”, finaliza.
Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.




