ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
MARÇO, SEXTA  27    CAMPO GRANDE 25º

Capital

Com resistências, projeto para privatizar postos passará por audiência pública

Gestão por OSs proposta pela prefeitura enfrenta obstáculos do conselho e de entidades

Por Jhefferson Gamarra e Judson Marinho | 25/03/2026 19:22
Com resistências, projeto para privatizar postos passará por audiência pública
Presidente da Comissão de Saúde, vereador Victor Rocha (PSDB) e Secretário Municipal de Saúde, Marcelo Vilela (Fotos: Paulo Francis)

Após uma reunião que se estendeu por toda a tarde desta quarta-feira (25), na Prefeitura de Campo Grande, o projeto que prevê a transferência da gestão de unidades de saúde para OSs (Organizações Sociais) deve avançar para uma audiência pública antes de eventual tramitação na Câmara Municipal. O encontro reuniu a prefeita Adriane Lopes (PP), o secretário municipal de Saúde, Marcelo Vilela, e vereadores da Comissão de Saúde, em meio a uma série de manifestações contrárias ao modelo.

RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

O projeto que prevê a transferência da gestão de unidades de saúde para Organizações Sociais em Campo Grande enfrenta resistências e será submetido a audiência pública. A proposta, apresentada pela prefeita Adriane Lopes e pelo secretário de Saúde Marcelo Vilela, contempla inicialmente os Centros Regionais de Saúde do Tiradentes e do Aero Rancho. O Conselho Municipal de Saúde e o Sindicato dos Médicos de Mato Grosso do Sul se opõem à iniciativa. Enquanto a prefeitura defende que o modelo trará eficiência e economia de até 30%, os críticos argumentam que a medida não resolverá problemas estruturais da rede pública e pode comprometer a transparência na gestão dos recursos.

De acordo com o presidente da Comissão de Saúde da Câmara, vereador Vitor Rocha (PSDB), a reunião teve como foco a discussão sobre possíveis caminhos para a chamada “modernização” da saúde pública no município. “Hoje nós tivemos a reunião com a prefeita Adriane Lopes, com a Comissão de Saúde da Câmara [...]. O que foi apresentado para nós, na verdade, foi uma conversa discutindo a modernização da saúde no município de Campo Grande”, afirmou.

Durante o encontro, o Executivo reapresentou aos parlamentares a proposta que já havia sido levada ao Conselho Municipal de Saúde no mesmo dia. O projeto prevê a implantação de um modelo de gestão por OSs, inicialmente em duas unidades: os Centros Regionais de Saúde do Tiradentes e do Aero Rancho. “Foi apresentada a mesma apresentação que o doutor Marcelo fez hoje no Conselho Municipal de Saúde, com números, comparações de organizações sociais administradoras de hospitais e UPAs pelo país, que mostraram redução de custo e melhoria do atendimento”, explicou Vitor Rocha.

Com resistências, projeto para privatizar postos passará por audiência pública
Vereador Victor Rocha após reunião que durou a tarde toda na prefeitura (Foto: Paulo Francis)

Apesar da defesa do Executivo, o tema enfrenta forte resistência. O Conselho Municipal de Saúde já se posicionou oficialmente contra a proposta, e entidades representativas também criticam a medida. Diante desse cenário, a Câmara deve assumir papel de mediação no debate.

O vereador destacou que a decisão do conselho terá peso determinante no andamento do projeto. “O Conselho Municipal de Saúde tem um papel fundamental tanto no planejamento, na execução, na fiscalização e também na aprovação das contas da saúde. Então, eles não são um órgão consultivo, e sim deliberativo”, pontuou.

Como próximo passo, a Comissão de Saúde decidiu convocar o Conselho para detalhar os motivos da rejeição e, na sequência, promover uma audiência pública para ampliar a discussão com a sociedade. “Nossa proposta vai ser fazer uma audiência pública para debater. Eu acredito que a gente pode até discordar, mas a gente precisa entender também a motivação de todos os atores e chegar no final num consenso”, disse.

Vitor Rocha também alertou para possíveis consequências caso o projeto avance sem o aval do conselho. “Se não tiver um convencimento do Conselho Municipal de Saúde, a gente vai ser contrário a esse posicionamento da gestão. Se o Executivo tomar uma decisão sem o apoio do conselho, na hora de prestar contas pode haver reprovação, judicialização e até perda da gestão plena do município”, afirmou.

Mesmo sem declarar apoio direto à proposta, o vereador defendeu o debate amplo. “A gente é favorável ao diálogo. A gente vai estar com o que for melhor para Campo Grande”, resumiu.

Com resistências, projeto para privatizar postos passará por audiência pública
Titular da Sesau, Marcelo Vilela, defende "inovação" na saúde (Foto: Paulo Francis)

Executivo defende “inovação” e eficiência - Já o secretário municipal de Saúde, Marcelo Vilela, reforçou que a proposta faz parte de um esforço para melhorar a qualidade e a eficiência do atendimento.

“Hoje a gente fez um exercício de democracia. A gente quer inovar, modernizar a gestão com algumas alternativas, que é a implantação das OS em duas unidades de urgência e emergência para melhorar a nossa qualidade, nossa eficiência”, afirmou.

Segundo ele, a iniciativa não deve ser encarada como terceirização tradicional. “Eu não gosto de chamar de terceirização, eu gosto de chamar de inovação. Não é simplesmente passar, a gente vai ter avaliação, controle e fiscalização”, disse.

O secretário também minimizou as críticas de entidades e trabalhadores, afirmando que o movimento contrário já era esperado. “Essa reação é esperada. Mas eles não vão ser prejudicados, ninguém vai perder emprego, eles vão ser realocados”, garantiu.

Vilela destacou ainda que o projeto prevê um período de testes. “É um piloto de 12 meses que a gente está pedindo autorização para a gente inovar”, explicou.

Entre os possíveis ganhos, ele apontou melhoria no atendimento e até redução de custos. “Você tem uma economia geralmente de 20% a 30%. Mas a gente não está fazendo por isso. A gente está fazendo porque a população está nos pedindo qualidade e eficiência”, afirmou.

Sindicato dos médicos critica proposta e reforça oposição - Além do Conselho Municipal de Saúde, o SinMed (Sindicato dos Médicos de Mato Grosso do Sul) também se posicionou contra o projeto. Em nota, a entidade classificou a proposta como uma tentativa de “maquiar” problemas estruturais da rede pública.

Para o sindicato, o principal gargalo da saúde em Campo Grande não está no modelo de gestão, mas na falta de leitos hospitalares, o que mantém pacientes por longos períodos em unidades de urgência.

O presidente da entidade, Marcelo Santana, criticou a proposta de forma direta. “Entregar a chave das nossas unidades para OSs não vai criar um único leito novo no município. O que vemos em Campo Grande hoje é uma falha clara de gestão: falta insumo e falta manutenção mesmo com dinheiro em conta”, afirmou.

A entidade também apontou riscos relacionados à precarização do trabalho médico e à perda de qualidade na assistência. Segundo o sindicato, vínculos mais instáveis podem comprometer a continuidade do cuidado ao paciente.

Outro ponto levantado diz respeito à transparência. Para o SinMed/MS, o modelo de Organizações Sociais pode dificultar a fiscalização dos recursos públicos, já que essas entidades utilizam regras próprias para compras e contratações.

Diante disso, o sindicato defende que o projeto seja interrompido e que o município foque na melhoria da gestão direta da saúde pública.