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Capital

Depoimentos revelam submundo do PCC, a facção que levou Fahd Jamil a se entregar

Réus por "tribunal do crime" em Campo Grande falam da hierarquia e métodos violentos da máfia dos presídios

Marta Ferreira | 21/04/2021 12:38



Pode ser estratégia da defesa, mas é considerado plausível entre quem conhece a lógica do crime de perto, o medo das ameaças do PCC alegado pela defesa de Fahd Jamil, 79 anos, como um dos motivos para ter se entregado à Polícia Civil nesta semana, depois de 10 meses como foragido, rompendo trajetória de pelo menos 50 anos como um mais poderosos homens da fronteira Brasil-Paraguai.  Vídeos obtidos pelo Campo Grande News revelam o submundo do "partido", por meio de depoimentos de criminosos envolvidos em modalidade de crime característica da facção: o justiçamento do "tribunal do crime".

São julgamentos tornados cada vez mais comuns nos últimos anos em Mato Grosso do Sul, um dos estados com maior poder de ação da facção criminosa. Nas sessões de tortura clandestinas, desafetos têm seu comportamento avaliado, totalmente à margem da lei e, em alguns casos, são executados quando considerados culpados em grau máximo.

 A ordem vem sempre de alguém "superior" na hierarquia do PCC - sigla para Primeiro Comando da Capital. Isso ocorre depois de conferência por telefone entre quem manda, normalmente dentro dos presídios, e quem está do lado de fora para cumprir as determinações.

Essa dinâmica fica clara nos depoimentos à Polícia Civil que constam dos autos do processo pelo assassinato de Sandro Lucas de Oliveira, o "Alemãozinho", vítima de execução em dezembro de 2019, aos 24 anos. A palavra final, mostra o inquérito, veio de Eder de Barros Vieira, 38 anos,  o "Mistério", também chamado de "Deus da Guerra", apontado como chefe das ações na rua.

Eder de Barros Vieira, o "Mistério", que é um dos líderes do PCC em MS, segundo investigações policiais. (Foto: Reprodução de vídeo)
Eder de Barros Vieira, o "Mistério", que é um dos líderes do PCC em MS, segundo investigações policiais. (Foto: Reprodução de vídeo)

Preso desde junho do ano passado, ele deu depoimento revelador na DEH (Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Homicídios) sobre a atuação do PCC. Na fala, de 18 minutos dá detalhes sobre o funcionamento da ordem ilegal, presente no Estado desde sua criação, em 1997. (Parte dela está no começo do texto)

Logo no começo, afirma que a vítima, Sandro Lucas, estava jurada de morte por ter espalhado ser integrante do CV (Comando Vermelho), facção originada no Rio de Janeiro, rival do PCC.

Segundo Eder, Sandrinho ia à casa de um amigo, identificado como “Pão de Queijo”, para fumar maconha, e lá falou sobre participar do Comando Vermelho

“Aí ficou, rodando, rodando”, disse, sobre a informação. O rapaz, que estava em liberdade condicional por condenação em tráfico de drogas, também fazia as afirmações em festas e num dar da Nova Campo Grande, segundo os testemunhos.

 “Foi aí que veio a ordem pros guris pegar ele", afirma Eder ao delegado.

 De onde veio a ordem?, pergunta o titular da DEH, Carlos Delano. “Do presídio”, responde o interrogado. O motivo para matar a vítima é explicado de forma direta.

É uma rixa, né”. “Rixa de facções: PCC e o CV”, define.

Depois de confirmar ser faccionado, o investigado fala de sua função. “Eu faço cadastro”. Instado a explicar, diz que se a pessoa quer entrar para o PCC, ela “passa os dados e eu cadastro”.

Na descrição do depoente, o nome de sua responsabilidade na hierarquia da facção é “geral do cadastro”.

 Como é praxe entre os integrantes do grupo criminoso, há sempre um “vulgo”, que às vezes pode mudar. O de Eder, afirma ele, passou de “Mistério” para “Edão”, e depois foi de novo alterado. “Para Deus da Guerra”, conta.

Eder afirma não participar do que é denominado como “condução”, quando vítimas são levadas para serem julgadas pelo “tribunal do crime". Nesse ponto, explica do que se trata e compara à função classificada como tarefa sob seu comando.

Julgamento é quando eles montam a condução. Cadastramento é quando eles traz (sic) uma pessoa que quer fazer parte”, ensina.

Sobre a morte em apuração, ele diz no depoimento só ter ouvido falar, porque foi procurado em sua casa pelos "guris", para contar sobre o fato. Ainda assim, relaciona todos os envolvidos, pelas alcunhas, além de reconhecê-los nas imagens mostradas.

Um deles é identificado como “Professor”, também liderança.  "Se eu não estiver errado, ele era apoio da Capital”, declara Eder, citando outro cargo no organograma do PCC.



Punição interna - "Professor", ao ser ouvido, confirma o status de "Mistério" na facção. Alega, também, não fazer mais parte do grupo. Diz ter sido alvo de uma condução, porque havia desconfianças de ter "traído o movimento".  Cita até o apelido de um integrante do Comando Vermelho, "Rouba Cena", que teria motivado seu julgamento pelos "irmãos". (Vídeo acima)

Mais um nome comentado é o de jovem chamado pela alcunha Italo, e que havia passado a usar “Ladrão de Almas”.  Ao detalhar sua participação na execução de Sandrinho, afirma ter ficado cuidando a rua, e não ter presenciado a sessão de tortura de "Alemãozinho".

Nitidamente amedrontado ao prestar depoimento, é indagado sobre quem é "Mistério" e primeiro diz não saber nada. Depois, admite, como mostra o  trecho obtido pela reportagem.

A fala de "Ladrão de Almas" confirma o que foi apontado pela investigação, de que a função de Eder de Barros Vieira é superior à relatada por ele.

É apontado como “geral da rua”, o individuo ligado ao partido criminoso responsável por espécie de fiscalização de quem está do lado de fora do presídio e também por cumprir determinações vindas dos líderes no cárcere. "Em todo o Mato Grosso do Sul", segundo o depoimento de "Ladrão de Almas". (Confira abaixo o trecho da gravação)



Dois lugares - Conforme o inquérito, primeiro Sandro Lucas foi levado para casebre nos fundos de frigorífico na Vila Popular. Ali houve curto-circuito e foi preciso levar o "conduzido" para outro local.

No depoimento, Apesar de negar saber o que aconteceu, novamente Eder mostra conhecimento do desenrolar dos fatos. “Única coisa que eu fiquei sabendo é que tiraram o guri de lá, agora pra onde foi, qual foi o desfecho, daí eu não sei, porque eu não entrei em detalhes com eles”.

Na denúncia do promotor Douglas Oldegardo dos Santos, baseada na peça investigatória da DEH, a informação é de Eder deu a ordem para assassinar Alemãozinho e ainda participou do transporte dele para casa em chácara no Parque dos Poderes, depois de faltar energia no primeiro cativeiro.

Eder de Barros Vieira não tinha antecedentes criminais até junho do ano passado. Agora, responde a dois crimes, o assassinato, junto com mais 4 homens, todos do PCC, e a receptação de um telefone celular furtado, descoberta pouco tempo antes da prisão pela Delegacia de Homicídios.

Desde quando foi capturado, estava preso no EPJFC (Estabelecimento Penal Jair Ferreira de Carvalho). No dia 11 de abril, foi transferido para a “Supermáxima”, apelido do presídio fechado da Gameleira, na saída de Sidrolândia.

A defesa de "Mistério", ou "Deus da Guerra", recorreu da sentença levando-o a júri. No interrogatório do Judiciário, ele negou as declarações feitas na delegacia, apesar de terem sido gravadas. Rejeitou até a ideia de fazer parte da facção criminosa.

Não houve apreciação ainda pelo TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul) sobre o pedido dos defensores contra a decisão de primeiro grau.

Prisões de envolvidos no crime foram feitas em 15 de junho do ano passado. (Foto: Reprodução do Instagram da DEH)
Prisões de envolvidos no crime foram feitas em 15 de junho do ano passado. (Foto: Reprodução do Instagram da DEH)

Os nomes - São réus neste caso, além de Eder de Barros Vieira, o "Mistério", Rafael Aquino de Queiroz, o "Professor", de 35 anos, Adson Vitor da Silva Farias, o "Ladrão de Almas", 21 anos, Eliezer Nunes Romero,  de alcunha "Maldade", de 19 anos, e ainda Sidnei Jesus Rerostuk, o "Capetinha", 28 anos.

Há ainda um adolescente, o "Pão de Queijo", que cumpriu medida sócio educativa pelo envolvimento, e um outro participante, nunca identificado, pois morreu em meio ao tempo de apurações.

"Capetinha" é peça-chave na investigação. Foi a prisão dele que permitiu encontrar os restos mortais de Sandro Lucas, 233 dias depois. Na hierarquia, é de a função de cumprir o "decreto" de morte.

Em áudio descoberto pela polícia, Sidnei confessa o crime, diz ter "cortado a cabeça" de Sandrinho e admite problemas psicológicos decorrentes do ato, como mostrou reportagem do Campo Grande News com esse conteúdo.

Ouça abaixo.







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