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Investigação divide suposto esquema na Santa Casa em dois núcleos empresariais

Prisões atingiram integrantes apontados em etapas de contratação, fiscalização e pagamento

Por Ângela Kempfer | 14/09/2026 09:23
Investigação divide suposto esquema na Santa Casa em dois núcleos empresariais
Da esquerda para direita, o vice-presidente, Jary Castro, a presidente, Alir Terra Lima e Rinaldo Hakme Romano (Foto: Divulgação)

A investigação que levou a presidente da Santa Casa de Campo Grande, Alir Terra Lima, e outras cinco pessoas à prisão sustenta que as suspeitas de fraude funcionavam em duas frentes ligadas pela própria estrutura administrativa do hospital.

RESUMO

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A presidente da Santa Casa de Campo Grande, Alir Terra Lima, foi presa preventivamente na sexta-feira (11) durante a Operação Antidotum, que investiga fraudes em contratos hospitalares. Outras cinco pessoas foram detidas. A investigação do MPMS apura suspeitas de peculato, lavagem de capitais e organização criminosa em duas frentes: contratos com a empresa Redvalue para digitalização de documentos e contratações da Operadora Santa Casa Saúde com empresas ligadas ao advogado Paulo da Cruz Duarte.

De um lado, está o contrato firmado com a Redvalue para digitalização de prontuários e outros documentos. De outro, as sucessivas contratações feitas pela Operadora Santa Casa Saúde com empresas vinculadas ao advogado Paulo da Cruz Duarte.

Segundo o MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul), Alir ocupava a posição central dessa estrutura. A investigação afirma que, como presidente da Santa Casa, ela tinha poder para nomear pessoas em postos estratégicos, manter contratos, controlar a estrutura administrativa e permitir que recursos chegassem aos núcleos empresariais investigados.

Alir foi presa preventivamente na sexta-feira (11), durante a Operação Antidotum. Também foram presos Paulo Guilherme Guttierrez Mariosa, Rinaldo Hakme Romano, Maurício Aparecido Benites, Alessandro Dias Junqueira e Monique Gregório de Oliveira. A operação ainda cumpriu 36 mandados de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados e Goiânia.

Alir e Paulo Guilherme foram encaminhados ao Presídio Militar. Rinaldo, Maurício, Alessandro e Monique permaneceram na Depac (Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário) do Cepol (Centro Especializado de Polícia Integrada).

A primeira frente detalhada pelos investigadores envolve a Redvalue. A empresa foi contratada em outubro de 2024 para digitalizar o acervo documental da Santa Casa. O MPMS sustenta que a contratação foi feita sem estudo técnico, termo de referência, análise de viabilidade ou demonstração de vantagem econômica e que as empresas que apresentaram propostas pertenciam ao mesmo núcleo empresarial.

À frente desse núcleo, segundo a investigação, estaria Maurício Aparecido Benites, um dos presos na operação. Ele é apontado como controlador material das empresas usadas nas cotações, responsável pelo envio da minuta contratual e interlocutor de integrantes da Santa Casa nas tratativas sobre os pagamentos. Também aparece relacionado à movimentação e dispersão posterior do dinheiro recebido pela Redvalue.

Os investigadores afirmam que havia diferença significativa entre o volume de documentos efetivamente digitalizados e aquilo que foi pago. Entre janeiro e 16 de abril de 2025, teriam sido digitalizadas 1.772.198 páginas, equivalentes a R$ 88,6 mil pelo preço contratado, enquanto os pagamentos chegaram a R$ 750 mil. Para o MPMS, a diferença de R$ 661,3 mil representa recursos pagos sem serviço correspondente.

É nessa etapa que aparecem os diretores e funcionários da Santa Casa agora presos. Rinaldo Hakme Romano, então diretor administrativo e financeiro, teria instaurado e conduzido a contratação da Redvalue, recebido de Maurício a minuta do contrato, participado de atestos e viabilizado pagamentos. Segundo o MPMS, ele ainda participou de tentativa de reduzir obrigações da empresa sem diminuir o valor da remuneração.

Alessandro Dias Junqueira, diretor administrativo e fiscal do contrato, teria participado da contratação, fiscalizado a execução e atestado serviços sem comprovação suficiente. Também teria participado da tentativa de alteração das condições contratuais.

Investigação divide suposto esquema na Santa Casa em dois núcleos empresariais
Paulo Guilherme Guttierrez Mariosa está entre os presos da Operação

Paulo Guilherme Guttierrez Mariosa, que ocupava a presidência do Comitê de Contratos e exercia função na área financeira, aparece na investigação como participante da formalização do negócio, além da programação e autorização de pagamentos, mesmo diante da ausência de comprovação da execução integral do serviço.

Monique Gregório de Oliveira, supervisora do Serviço de Arquivamento Médico e Estatística, tinha atuação diretamente ligada à medição da digitalização. O MPMS afirma que ela conhecia a ausência de uma medição confiável, deixou de fornecer informações solicitadas pelo Conselho Fiscal e participou de relatórios posteriormente usados para justificar pagamentos.

A investigação ainda cita Jary de Carvalho Castro, então vice-presidente da Santa Casa. Ele não está entre os presos. Um áudio obtido durante a apuração mostra Jary explicando a Maurício que um pagamento de R$ 1,8 milhão não poderia ser feito de uma só vez porque a Santa Casa estava sob fiscalização e mencionando Rinaldo no ajuste das parcelas. O MPMS interpreta o diálogo como uma discussão sobre o fracionamento dos pagamentos.

A Justiça reconheceu indícios da participação de Jary, mas negou o pedido de prisão preventiva. A decisão considerou que ele havia deixado a administração da Santa Casa em janeiro deste ano e que não havia elementos concretos de que continuasse com acesso à instituição ou capacidade de interferir na investigação.

Depois de entrar na conta da Redvalue, parte do dinheiro teria seguido por outro caminho que também chamou a atenção dos investigadores. Análise bancária apontou transferências rápidas, saques em espécie e operações repetidas de R$ 49.999 envolvendo pessoas e empresas relacionadas ao núcleo empresarial. Para o MPMS, esse circuito teria servido para pulverizar os valores e dificultar a identificação dos destinatários finais.

Investigação divide suposto esquema na Santa Casa em dois núcleos empresariais
Paulo da Cruz Duarte, advogado da Santa Casa (Foto: Divulgação)

A segunda frente da investigação se concentra na Operadora Santa Casa Saúde. Nesse núcleo, o nome central é Paulo da Cruz Duarte, advogado da Santa Casa e parceiro profissional de Alir. Diferentemente dos seis presos, Paulo não teve prisão preventiva decretada. Contra ele foram determinadas buscas, afastamento das funções exercidas na Santa Casa e na operadora e proibição de acesso às dependências das instituições.

Segundo a investigação, Paulo comandava um conjunto de empresas contratadas pela própria operadora. Elas passaram a atuar em áreas como cobrança, comercialização de planos, administração de beneficiários, telemedicina, publicidade, serviços gráficos, assessoria jurídica e implantação de filial em Dourados.

O ponto considerado mais sensível pelos investigadores é que Paulo da Cruz atuava dos dois lados dessas relações. Sua sociedade de advocacia prestava assessoria à Operadora Santa Casa Saúde, analisava contratos e termos aditivos e defendia a instituição, enquanto outras empresas sob seu controle eram contratadas pela mesma operadora. Para o MPMS, a situação evidencia possível conflito de interesses.

Somente em 2025, empresas vinculadas a Paulo receberam cerca de R$ 9,6 milhões da Operadora Santa Casa Saúde. No mesmo período, a operadora registrou resultado negativo de aproximadamente R$ 3,5 milhões.

Beatriz Lemes da Silva, que administrava a operadora, também aparece nesse núcleo. Ela não foi presa, mas teve o afastamento determinado. Segundo o MPMS, Beatriz teria formalizado e mantido as contratações com empresas ligadas a Paulo e deixado de fornecer integralmente contratos, notas fiscais, relatórios de execução, memórias de cálculo e outros documentos requisitados pelos órgãos de fiscalização.

Outra personagem citada é Fernanda de Freitas Diniz, companheira de Maurício. Ex-funcionária da Infortech, ela passou a figurar formalmente como sócia da EX BE quando o contrato começou a ser questionado. O MPMS sustenta que a mudança retirou formalmente o nome de Maurício da empresa, mas não representou perda efetiva do controle do negócio.

A Operação Antidotum é conduzida pelo Gecoc (Grupo Especial de Combate à Corrupção), com participação do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado). A investigação apura suspeitas de peculato, falsidade ideológica, lavagem de capitais, fraude em contratações e organização criminosa. As atribuições descritas são a versão apresentada pelos investigadores e ainda serão discutidas no processo; não há condenação definitiva dos envolvidos.

O Campo Grande News procurou os investigados e segue com espaço aberto para considerações.