ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
SETEMBRO, SEGUNDA  14    CAMPO GRANDE 26º

Capital

Saques de verba da Santa Casa eram fracionados para evitar Coaf

Retiradas de R$ 49.999 se repetiram em rede de empresas e pessoas usada para pulverizar valores, segundo MPMS

Por Maristela Brunetto | 14/09/2026 10:23
Saques de verba da Santa Casa eram fracionados para evitar Coaf
Operação contra supostos desvios de recursos ocorreu na sexta-feira na Santa Casa e outros endereços (Foto: Juliano Almeida)

A investigação sobre suspeitas de desvio de recursos da Santa Casa de Campo Grande identificou um padrão na movimentação do dinheiro pago a empresas contratadas pelo hospital. Valores circulavam entre pessoas jurídicas ligadas aos investigados, eram transferidos a terceiros e terminavam, em diversos casos, em sucessivos saques em espécie, muitos deles de R$ 49.999.

RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

A Operação Antidotum identificou um esquema de desvio de recursos na Santa Casa de Campo Grande envolvendo saques fracionados de R$ 49.999, valor abaixo do limite de comunicação obrigatória ao Coaf. O Ministério Público de Mato Grosso do Sul apura contratos suspeitos firmados na gestão de Alir Terra Lima com empresas ligadas a investigados. Seis pessoas foram presas, incluindo a presidente da instituição.

Para o MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul), a repetição não era casual. O valor ficava imediatamente abaixo dos R$ 50 mil, patamar citado na investigação para comunicação obrigatória destinada ao Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras). Em vez de retiradas únicas, foram identificadas operações fracionadas que, segundo os promotores, dificultavam o rastreamento do destino final dos recursos.

A apuração faz parte da Operação Antidotum e começou a partir de inquérito aberto neste ano após denúncia sobre possíveis desvios envolvendo receitas do hospital e do plano de saúde da Santa Casa. A investigação alcançou contratos firmados durante a gestão de Alir Terra Lima, que assumiu a Diretoria-Presidência da Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande em fevereiro de 2023 e passou a exercer também influência sobre a Operadora de Planos Privados de Saúde Santa Casa Saúde Ltda., controlada pela associação.

Um dos principais contratos analisados foi firmado em 29 de outubro de 2024 com a Redvalue Tecnologia, Administração e Serviços Ltda., para digitalização do acervo documental do hospital.

Segundo o MPMS, a contratação ocorreu diretamente, sem estudo técnico, termo de referência ou demonstração de vantagem em relação às opções disponíveis no mercado. A investigação defende que houve uma cotação simulada, com participação de outras empresas ligadas a investigados.

O objeto contratado previa a digitalização de aproximadamente 3 milhões de páginas por mês. Apesar dos pagamentos, o MP sustenta que não houve comprovação de que o volume de serviços previsto tenha sido efetivamente executado. O Conselho Fiscal da Santa Casa chegou a recomendar expressamente o encerramento do contrato, mas, conforme a petição apresentada à Justiça, nenhuma providência foi tomada.

Em abril de 2025, o colegiado já havia começado a cobrar esclarecimentos sobre a execução dos serviços. Segundo o MP, faltavam documentos básicos para conferir o que havia sido entregue. “Foram sonegados os elementos que permitiriam aferir a quantidade efetivamente digitalizada, os períodos de execução, os lotes processados e a correspondência entre o serviço prestado e as notas fiscais pagas”, consta no texto do MP.

As preocupações foram formalizadas pelo Conselho Fiscal em agosto. Os promotores também afirmam que a CGE (Controladoria-Geral do Estado) enfrentou dificuldades para obter informações necessárias à fiscalização de recursos do SUS (Sistema Único de Saúde) recebidos pelo hospital.

A resistência na apresentação das contas também apareceu em processo judicial relacionado à crise financeira da instituição. Ao tratar da postura da associação diante de uma determinação de prestação de contas, o juiz Eduardo Lacerda Trevizan, da 2ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos, observou: “Registro, ainda, meu espanto ante ao fato de a Associação Beneficente Santa Casa ser tão reticente em mostrar suas contas.”

Rede de empresas - A investigação não se limitou à Redvalue. Segundo o Gecoc (Grupo Especial de Combate à Corrupção), outras pessoas jurídicas passaram a ser contratadas durante a gestão de Alir e tinham ligação com o advogado Paulo da Cruz Duarte. Os dois já haviam atuado juntos profissionalmente na advocacia.

As contratações começaram ainda no primeiro ano da gestão de Alir, conforme o pedido encaminhado à Justiça. Elas eram referendadas por Beatriz Lemes da Silva, dirigente do plano de saúde indicada pela presidente da Santa Casa.

No caso da Redvalue, o Conselho Fiscal calculou uma diferença aproximada de R$ 511.390,10 entre os pagamentos feitos e a produção que teria sido efetivamente comprovada, segundo o MPMS. “O Conselho Fiscal verificou a existência de uma diferença aproximada de R$ 511.390,10 entre os pagamentos realizados e o valor correspondente à produção efetivamente comprovada (desvio de recursos), denotando desvio de recursos no âmbito da execução do contrato firmado com a empresa do investigado Maurício Aparecido Benites”.

Maurício passou a aparecer como responsável pela Redvalue meses antes da formalização do contrato. Oficialmente, a empresa informou ter sede em Goiás.

Ao analisar as demais empresas que apresentaram propostas de preço durante a contratação, o Gecoc concluiu que tinham algum tipo de vínculo com investigados.

Os promotores também sustentam que, quando os envolvidos perceberam que os contratos estavam sob apuração, houve mudanças societárias e alterações de endereços que poderiam dificultar a identificação das relações entre integrantes da administração do hospital e as empresas contratadas.

Caminho do dinheiro - A quebra de sigilo bancário permitiu aos investigadores seguir o caminho do dinheiro depois dos pagamentos feitos pela Santa Casa.

Segundo o MP, a dinâmica ficou especialmente evidente em pagamentos realizados nos dias 15 de maio e 25 de junho de 2025. Logo depois de os valores entrarem nas contas, começavam as retiradas. “A fim de ilustração do caso, a dinâmica ficou evidente após os pagamentos realizados pela Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande em 15 de maio e 25 de junho de 2025. Assim que os recursos foram creditados, o numerário foi fracionado em sucessivos saques em espécie, sem retenção compatível com despesas ordinárias, pagamento de empregados, aquisição de equipamentos ou manutenção de estrutura necessária à execução dos serviços de digitalização.”

O que chamou a atenção foi a repetição de saques de R$ 49.999. O mesmo valor aparecia sucessivamente, inclusive em operações destinadas a pessoas diferentes.  “Em vez de uma operação única, compatível com uma obrigação empresarial comprovada, os investigados dividiram os valores em sucessivas retiradas, dificultando o rastreamento do destino do dinheiro”, pontuou a petição do Gecoc.

Embora abaixo dos R$ 50 mil, operações pulverizadas também podem ser consideradas suspeitas e submetidas a monitoramento. Foi justamente a análise dessas movimentações que permitiu ao MPMS reconstruir parte da rede.

A quebra de sigilo revelou circulação de recursos entre empresas apontadas como pertencentes ao mesmo ecossistema, Maurício Benites e terceiros. A apenas uma pessoa, a investigação atribui saques e transferências que somam cerca de R$ 2,197 milhões. Entre as movimentações aparecem operações de R$ 100 mil, R$ 49,9 mil e valores menores, como R$ 5 mil.

Um empregado da Exbe Tecnologia e Serviços Ltda., empresa que participou da cotação e que, segundo a investigação, também estaria ligada ao grupo, aparece associado a movimentações de R$ 675.999. A investigação identificou 13 saques com valores entre R$ 40 mil e R$ 49 mil.

Outro nome identificado na apuração, que, segundo o Gecoc, reforçaria a ligação entre Redvalue e Exbe, recebeu R$ 49 mil. Uma servidora pública estadual também apareceu na análise das movimentações financeiras da Redvalue, com recebimento de R$ 575.380, conforme o Gecoc.

Outra pessoa recebeu R$ 955.583 por meio da Redvalue e da Exbe e realizou 16 saques de R$ 49,9 mil. Também aparecem uma servidora municipal, com movimentações de R$ 211.989, e um servidor público associado a R$ 761.999, incluindo 14 saques de R$ 49 mil.

Além da Redvalue e da Exbe, o MPMS incluiu a Infortech entre as empresas ligadas a Maurício e que teriam sido usadas para fazer o dinheiro circular. “A REDVALUE foi utilizada como porta de entrada dos recursos pagos pela Santa Casa e como receptora de valores provenientes da EXBE e da INFORTECH. As três empresas funcionavam de forma integrada, com trânsito cruzado de recursos, pagamento recíproco de despesas, saques fracionados e utilização de pessoas físicas para retirada do numerário.”

Para os investigadores, portanto, não se tratava apenas de saques isolados. A suspeita é de uma estrutura formada por empresas e pessoas físicas que permitia receber os pagamentos feitos pela Santa Casa, redistribuir os valores e retirar parte deles em espécie de maneira fracionada.

Saques fracionados - A repetição desse valor também pesou na decisão da juíza May Melke Penteado Siravegna, do Núcleo de Garantias, que autorizou as medidas da Operação Antidotum.

“Chama atenção, ainda, a padronização das movimentações financeiras. Diversas operações foram realizadas pelo montante de R$ 49.999,00, repetido de forma sistemática em favor de diferentes destinatários. A coincidência reiterada desse valor, imediatamente inferior ao patamar de comunicação obrigatória, constitui circunstância que, em tese, sugere a adoção de estratégia voltada à fragmentação artificial dos recursos e à mitigação dos mecanismos de controle financeiro”, pontuou, na decisão.

A magistrada também considerou que a forma de movimentação do dinheiro destoava de uma operação empresarial comum. Ela pontuou que “o modus operandi identificado não se mostra compatível com a quitação de obrigações empresariais ordinárias. Ao contrário, indica uma divisão intencional dos valores em múltiplas operações de menor expressão, circunstância apta a dificultar o acompanhamento da trajetória do dinheiro e a identificação de seus beneficiários finais.”

A juíza determinou as prisões de Alir Terra Lima, Rinaldo Hakme Romano, Alessandro Dias Junqueira, Paulo Guilherme Gutierres Mariosa, Monique Gregório de Oliveira e Maurício Aparecido Benites. O ex-vice-presidente da Santa Casa Jary de Carvalho Castro também teve a prisão requerida pelo Ministério Público, mas o pedido foi rejeitado. A magistrada determinou ainda o afastamento de Paulo da Cruz Duarte e Beatriz Lemes da Silva e autorizou uma série de mandados de busca e apreensão.

A polícia encaminhou Alir e Paulo Guilherme ao Presídio Militar. Rinaldo, Maurício, Alessandro e Monique permaneceram na Depac (Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário) do Cepol (Centro Especializado de Polícia Integrada).

A investigação apura suspeitas de peculato, falsidade ideológica, lavagem de capitais, fraude em contratações e organização criminosa.

Em nota, a Santa Casa informou que está atendendo às autoridades responsáveis pela operação e permanece à disposição para fornecer informações e esclarecimentos. O Campo Grande News entrou em contato com a defesa de Paulo da Cruz Duarte. A reportagem não localizou a defesa de Beatriz Lemes da Silva.