Diretor do Ministério da Saúde aponta causas das filas durante visita a MS
Rodrigo Oliveira citou pandemia e envelhecimento entre fatores que pressionam atendimento especializado

As longas filas para exames, consultas e procedimentos especializados no SUS (Sistema Único de Saúde) continuam sendo um desafio em todo o país, incluindo Mato Grosso do Sul. Em entrevista ao Campo Grande News, o diretor do Departamento de Estratégias para a Expansão e a Qualificação da Atenção Especializada do Ministério da Saúde, Rodrigo Oliveira, afirmou que a situação é enfrentada por estados e capitais e exige uma reorganização de longo prazo da rede pública.
RESUMO
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As longas filas no SUS são um desafio nacional, agravado pela pandemia e pelo envelhecimento da população, afirmou Rodrigo Oliveira, diretor do Ministério da Saúde, em visita a Campo Grande. Ele apresentou o programa Agora Tem Especialistas, que ampliou cirurgias eletivas de 10 milhões em 2022 para 15 milhões em 2025, com foco em cardiologia, oncologia e oftalmologia. A solução, porém, exige reorganização profunda do sistema.
O diretor esteve em Campo Grande nesta quinta-feira (13) para cumprir agenda institucional e visitar estruturas que integram o programa Agora Tem Especialistas. Entre os compromissos, esteve na carreta de exames de imagem instalada na Esplanada Rodoviária e no Instituto da Visão, na Chácara Cachoeira.
Segundo o diretor, a demora para conseguir atendimento especializado não é uma particularidade de Campo Grande. “A questão das grandes filas, ela é um desafio nacional de todos os estados e também de todas as capitais”, afirmou.
A pandemia de covid-19 é apontada pelo Ministério da Saúde como um dos fatores que agravaram o problema. Durante cerca de dois anos, parte importante da capacidade instalada do sistema foi direcionada ao atendimento das vítimas da doença, reduzindo a realização de procedimentos eletivos e, principalmente, de atendimentos de atenção especializada.
Com a redução desses serviços durante a pandemia, houve aumento da demanda reprimida, que continuou pressionando o sistema mesmo depois da fase mais crítica da emergência sanitária.
Para representante do Ministério da Saúde, no entanto, a pandemia não explica sozinha a dimensão das filas. O país também passou por mudanças demográficas e no perfil de adoecimento da população nas últimas décadas.
População mais velha aumenta demanda - O diretor destacou que o Brasil aumentou em cerca de dez anos a expectativa de vida nos últimos 30 anos. O avanço, segundo ele, também está relacionado ao sucesso do Sistema Único de Saúde, mas produz um efeito adicional sobre a rede: quanto mais a população vive, maior é a exposição a doenças que demandam acompanhamento médico, exames complexos e procedimentos especializados.
“Ao viver mais, a gente está mais exposto a doenças como câncer, a doenças cardiovasculares”, afirmou.
Ele também citou mudanças nos hábitos de vida da população, como o aumento do consumo de ultraprocessados e a redução da frequência de exercícios físicos, entre fatores que ampliam a demanda por atendimento.
Segundo o diretor, essas transformações vêm ocorrendo desde o início dos anos 2000 e foram se tornando mais expressivas ao longo do tempo. A situação atingiu um ponto crítico no período posterior à pandemia, quando a demanda que havia sido represada se somou às necessidades que já existiam no sistema.
É nesse cenário que o Ministério da Saúde concentra parte das ações do Agora Tem Especialistas, programa voltado à ampliação do acesso a consultas, exames e procedimentos especializados.
Seis áreas são prioritárias - O programa estabeleceu inicialmente seis especialidades prioritárias a partir dos impactos sobre mortalidade e qualidade de vida da população: cardiologia, oncologia, saúde da mulher, ortopedia, otorrinolaringologia e oftalmologia. “Não são únicas, mas são aonde a gente fez esse esforço inicial”, explicou.
A estratégia envolve ações em parceria com estados e municípios para ampliar a oferta e reduzir o tempo de espera. O diretor ressaltou, porém, que os resultados podem variar de acordo com a realidade de cada região.
Segundo ele, o programa já apresenta resultados na redução e, em alguns casos, no encerramento de filas, além da ampliação da oferta de cirurgias eletivas e da busca por diagnósticos dentro do tempo considerado adequado.
Um dos números apresentados pelo diretor é o crescimento da quantidade de cirurgias eletivas realizadas no país. Segundo ele, o volume passou de aproximadamente 10 milhões em 2022 para 15 milhões em 2025.
Para o Ministério, o aumento representa uma expansão significativa da oferta e permite que mais pacientes que aguardavam atendimento sejam retirados das filas.
Apesar disso, Rodrigo Oliveira pondera que o problema não será solucionado rapidamente. “Esse é um desafio, não de um ou dois anos, mas ele é um desafio de reorganização profunda do sistema de saúde”, disse.
Carreta atende pacientes de MS - Em Campo Grande, uma das ações do programa é a carreta de exames de imagem instalada na Esplanada Rodoviária, na Avenida Calógeras. A unidade móvel está na Capital desde 29 de julho e oferece tomografias e ultrassonografias para pacientes do SUS encaminhados e agendados pelas secretarias municipais de Saúde de Campo Grande e da região.
O diretor visitou a estrutura nesta quinta-feira (13), durante a agenda na Capital.
O diretor também esteve no Instituto da Visão, na Avenida Arquiteto Rubens Gil de Camillo, na Chácara Cachoeira. A unidade hospitalar atende gratuitamente pacientes do SUS por meio da modalidade de crédito financeiro do Agora Tem Especialistas, com oferta de consultas, exames e cirurgias.
As visitas fazem parte da agenda do Ministério da Saúde em Campo Grande, que também incluiu reuniões com gestores estaduais e municipais, equipes técnicas e representantes da rede hospitalar para discutir estratégias de ampliação do acesso aos serviços especializados.
Ministério quer mapear tempo de espera - Além de ampliar a quantidade de atendimentos, o Ministério da Saúde trabalha para melhorar a identificação das filas existentes em todo o país.
Segundo o Ministério da Saúde, uma das medidas relacionadas ao Agora Tem Especialistas é a integração dos bancos de dados que concentram informações sobre as filas de estados e municípios. A intenção é permitir que o governo tenha informações mais detalhadas sobre a demanda e consiga definir onde os investimentos são mais necessários.
O Ministério trabalha na construção de um painel nacional de monitoramento do tempo de espera, a partir da integração dos dados da Rede Nacional de Dados em Saúde.
De acordo com o diretor, esse processo avançou nos últimos 12 meses e a expectativa é que, na virada do ano, o governo tenha um conjunto de dados capaz de qualificar o planejamento das políticas públicas e ampliar a transparência para a população.
A ferramenta deverá permitir identificar os principais gargalos e acompanhar o tempo de espera dos pacientes que precisam de atendimento especializado.
O desafio, segundo o diretor, é integrar informações de mais de 5 mil bancos de dados, considerando os 5.570 municípios brasileiros, os estados, o Distrito Federal e a União. “É um esforço complexo de integração de mais de 5 mil bancos de dados diferentes”, afirmou.
Impacto em Mato Grosso do Sul - Questionado pelo Campo Grande News sobre o impacto dos investimentos federais especificamente na redução das filas em Mato Grosso do Sul, o diretor não apresentou números estaduais durante a entrevista.
Ele afirmou que o Ministério já identifica resultados importantes nas diferentes ações do programa, mas ressaltou que os efeitos variam conforme a estrutura e a demanda de cada localidade.
A falta de uma base nacional integrada também dificulta, atualmente, uma comparação precisa entre os tempos de espera dos diferentes estados e municípios. É justamente essa lacuna que o painel nacional pretende enfrentar.
Em Campo Grande, a demora para exames de imagem e consultas com especialistas já resultou em ações judiciais que obrigam a Prefeitura e o Governo de Mato Grosso do Sul a acelerar o atendimento de pacientes.
Para o Ministério da Saúde, entretanto, as filas não são um problema isolado da Capital sul-mato-grossense. A demanda reprimida durante a pandemia se somou ao envelhecimento da população, às mudanças no perfil das doenças e à necessidade crescente de serviços especializados.
A estratégia federal é ampliar a oferta, reduzir as filas existentes e melhorar a gestão das informações para direcionar os recursos às áreas de maior necessidade.
Por fim, o representante do Ministério Da Saúde reforçou que os resultados do Agora Tem Especialistas já podem ser observados, mas que a redução estrutural das filas dependerá de um processo mais amplo de reorganização da atenção especializada no país.

