Em vídeo é possível ouvir grito de terror de Carla, sequestrada na porta de casa
Além de mostrar o desespero, gravação tem relevância ao evidenciar que pelo menos duas pessoas sequestravam jovem
Faltavam cinco minutos para as oito da noite de terça-feira, 30 de junho. A Rua Nova Tiradentes, na região leste de Campo Grande, era silêncio entremeado de latidos. De repente, gritos lancinantes surgem. "Ô mãe". Pausa breve. "Ô mãe". Gritos. "Tô sendo roubada". Silêncio.
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Foram menos de 20 segundos. O tempo entre uma jovem de 25 anos estar viva, fazendo uma tarefa familiar, e ser "devolvida" morta, vítima de tortura e violência sexual. A voz é de Carla Santana Magalhães, em registro de vídeo captado por câmera de vigilância de imóvel próximo do lugar onde foi sequestrada, na terça-feira passada. O cadáver foi abandonado perto dali, na frente de um comércio, na sexta-feira (3)
O crime, não é exagero algum dizer, chocou a cidade. O intervalo entre Carla estar viva para a família, e não mais voltar, durou menos de uma hora. Às 19h20, ela saiu de casa para comprar café. Às 19h56, havia sido raptada.
No vídeo obtido pelo Campo Grande News, a rua do Bairro Tiradentes continua praticamente deserta depois do sequestro. É possível ouvir, ao longe, os diálogos na frente da casa dela.
Os donos do imóvel onde a câmera está não perceberam nada de diferente. Ao Campo Grande News, um deles disse que quando viu na tevê a reportagem sobre o assunto identificou a rua e fez o comentário de parecer ser por ali.
Logo, investigadores da DEH (Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Homicídios) fizeram contato e foi aí que o trecho de gravação foi localizado.
Na imagem, dá para ver um carro virando a esquina, mas no outro sentido. Depois passam duas motos.

Registro macabro - Pela investigação jornalística feita, o trecho de vídeo localizado tem relevância para a tentativa de achar quem matou Carla. A gravação dá a dimensão do desespero da jovem, mostra que ela não foi voluntariamente e que havia alguém para pegá-la, e outro para dirigir o veículo a tempo de deixar o local rapidamente. Uma pessoa só dificilmente agiria tão rápido.
Foram procuradas cenas do horário no qual o corpo foi deixado na mesma rua, mas não se achou algo relevante, pelo menos segundo a apuração feita
Carla sumiu no dia 30. Ficaram para trás, o pacote de café que foi comprar, o celular, que está com a polícia e os chinelos que usava.
Ficou, também, o grito de agonia de quem apelou à mãe, uma mulher que viu a filha ir aos 58 anos, uma semana atrás.
Sem detalhes - Titular da DEH, o Delegado Carlos Delano se manifestou no sábado (3) sobre o caso. Segundo ele, o laudo indica o assassinato de Carla com golpes profundos de faca no pescoço, no máximo até quarta-feira. Ainda de acordo com a autoridade policial, não seriam detalhadas as linhas de investigação, para evitar o comprometimento da eficácia do trabalho policial.
A reportagem levantou que quem cometeu o assassinato quis dar um recado, usando uma "assinatura" típica de facções criminosas. Houve tentativa de degola, não concretizada. Morta, Carla foi deixada sem roupas na esquina de casa. Dois parentes a encontraram e cobriram o corpo.
Conforme a apuração feita, as características do crime descartam a ocorrência de crime de ódio ou passional, como é o caso do feminicídio.