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Capital

Em vídeo é possível ouvir grito de terror de Carla, sequestrada na porta de casa

Além de mostrar o desespero, gravação tem relevância ao evidenciar que pelo menos duas pessoas sequestravam jovem

Por Marta Ferreira e Kísie Ainoã | 06/07/2020 18:15



Faltavam cinco minutos para as oito da noite de terça-feira, 30 de junho. A Rua Nova Tiradentes, na região leste de Campo Grande, era silêncio entremeado de latidos. De repente, gritos lancinantes surgem.  "Ô mãe". Pausa breve. "Ô mãe". Gritos. "Tô sendo roubada".  Silêncio.

Foram menos de 20 segundos. O tempo entre uma jovem de 25 anos estar viva, fazendo uma tarefa familiar, e ser "devolvida" morta, vítima de tortura e violência sexual. A voz é de Carla Santana Magalhães, em registro de vídeo captado por câmera de vigilância de imóvel próximo do lugar onde foi sequestrada, na terça-feira passada. O cadáver foi abandonado perto dali, na frente de um comércio, na sexta-feira (3)

O crime, não é exagero algum dizer, chocou a cidade. O intervalo entre Carla estar viva para a família, e não mais voltar, durou menos de uma hora. Às 19h20, ela saiu de casa para comprar café. Às 19h56, havia sido raptada.

No vídeo obtido pelo Campo Grande News, a rua do Bairro Tiradentes continua praticamente deserta depois do sequestro. É possível ouvir, ao longe, os diálogos na frente da casa dela.

Os donos do imóvel onde a câmera está não perceberam nada de diferente. Ao Campo Grande News, um deles disse que quando viu na tevê a reportagem sobre o assunto identificou a rua e fez o comentário de parecer ser por ali.

Logo, investigadores da DEH (Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Homicídios) fizeram contato e foi aí que o trecho de gravação foi localizado.

Na imagem, dá para ver um carro virando a esquina, mas no outro sentido. Depois passam duas motos.

Carla foi raptada da porta de casa, depois de pedir ajuda da mãe. (Foto: Reprodução das redes sociais)
Carla foi raptada da porta de casa, depois de pedir ajuda da mãe. (Foto: Reprodução das redes sociais)

Registro macabro - Pela investigação jornalística feita, o trecho de vídeo localizado tem relevância para a tentativa de achar quem matou Carla.  A gravação dá a dimensão do desespero da jovem, mostra que ela não foi voluntariamente e que havia alguém para pegá-la, e outro para dirigir o veículo a tempo de deixar o local rapidamente.  Uma pessoa só dificilmente agiria tão rápido.

Foram procuradas cenas do horário no qual o corpo foi deixado na mesma rua, mas não se achou algo relevante, pelo menos segundo a apuração feita

Carla sumiu no dia 30. Ficaram para trás, o pacote de café que foi comprar, o celular, que está com a polícia e os chinelos que usava.

Ficou, também, o grito de agonia de quem apelou à mãe, uma mulher que viu a filha ir aos 58 anos, uma semana atrás.

Sem detalhes - Titular da DEH, o Delegado Carlos Delano se manifestou no sábado (3) sobre o caso. Segundo ele, o laudo indica o assassinato de Carla com golpes profundos de faca no pescoço, no máximo até quarta-feira. Ainda de acordo com a autoridade policial, não seriam detalhadas as linhas de investigação, para evitar o comprometimento da eficácia do trabalho policial.

A reportagem levantou que quem cometeu o assassinato quis dar um recado, usando uma "assinatura" típica de facções criminosas. Houve tentativa de degola, não concretizada. Morta, Carla foi deixada sem roupas na esquina de casa. Dois parentes a encontraram e cobriram o corpo.

Conforme a apuração feita, as características do crime descartam a ocorrência de crime de ódio ou passional, como é o caso do feminicídio.

Corpo de Carla foi coberto por um cobertor após ser encontrado na calçada. (Foto: Kísie Ainoã)
Corpo de Carla foi coberto por um cobertor após ser encontrado na calçada. (Foto: Kísie Ainoã)