Ex-secretário preso chefiava “estrutura paralela” para desviar do tapa-buracos
Rudi Fiorese exercia “comando estratégico” para lucrar com verba pública por meio de medições superfaturadas

Preso na Operação “Buraco Sem Fim”, o ex-secretário de Infraestrutura e Serviços Públicos de Campo Grande, Rudi Fiorese, é apontado por investigação do Gecoc (Grupo Especial de Combate à Corrupção) como o responsável pelo “comando estratégico” da organização investigada por fraudar contratos milionários de manutenção viária e tapa-buracos por meio de medições superfaturadas e pagamentos indevidos a empreiteiras.
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O ex-secretário de Infraestrutura de Campo Grande Rudi Fiorese, preso na Operação Buraco Sem Fim, é apontado pelo Gecoc como líder de esquema que fraudou contratos milionários de tapa-buracos entre 2018 e 2025, com medições superfaturadas. Investigadores encontraram R$ 186 mil em sua residência. Após deixar a prefeitura, ele assinou contratos com a empreiteira investigada já no governo estadual.
No pedido para prender alvos e vasculhar endereços ligados a eles, encaminhado pelo Gecoc à Justiça, os promotores sustentam que Rudi exercia papel central na validação de planilhas, definição de valores e liberação de pagamentos às empresas investigadas.
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“Ressalta-se, ademais, que o comando estratégico desta organização contava com a ciência e participação de Rudi Fiorese, então secretário da Sisep [Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos], que, conforme as provas já colhidas, validava as medições superfaturadas e solicitava urgência na agilização de empenhos e pagamentos para as empresas do grupo”, afirma o Gecoc na peça processual.
Segundo a investigação, o esquema funcionou entre 2018 e 2025 dentro da Sisep, envolvendo contratos de manutenção de vias pavimentadas e não pavimentadas de Campo Grande. A suspeita é de que servidores e empresários manipulavam medições de obras e serviços para liberar pagamentos acima do que efetivamente teria sido executado.
A peça do Gecoc afirma que Rudi era o responsável pelas definições financeiras do esquema. “Constatou-se que Rudi participava ativamente na definição das medições, empenhos e valores a serem pagos às empreiteiras envolvidas no esquema. Ele estabelecia contato direto com outros envolvidos, validando os montantes a serem lançados nas planilhas de controle”, descreve o documento.
As investigações utilizam mensagens extraídas dos celulares de Rudi Fiorese, que já foi investigado na Operação Cascalhos de Areia, e do ex-superintendente da Sisep, o engenheiro Mehdi Talayeh.
Em uma das conversas citadas pelo Gecoc, o ex-secretário teria determinado a manutenção de valores em planilhas mesmo sem correspondência com os serviços executados. “Pode manter isso aí então, pra dar uma jogada fácil aqui”, teria dito Rudi, segundo o pedido judicial.
O documento aponta ainda que os ajustes nas medições eram realizados por servidores subordinados, mas sob orientação direta do então secretário. “Mehdi Talayeh determinava os valores das medições, enquanto Fernando de Souza Oliveira realizava os ajustes necessários para que os valores refletissem o acordo ilícito. Esses ajustes eram feitos sempre com as instruções de Rudi Fiorese, garantindo que as medições preestabelecidas fossem cumpridas”, diz a petição.
A investigação também descreve uma espécie de estrutura paralela de gerenciamento das medições e pagamentos. Conforme as apurações, valores eram previamente combinados entre integrantes do grupo e depois inseridos nas planilhas oficiais da prefeitura.
Em um dos diálogos reproduzidos no pedido, Mehdi Talayeh faz referência direta ao então secretário ao discutir valores ligados a contratos da Construtora Rial Ltda., na mira da “Buraco Sem Fim” por ter acumulado contratos e aditivos que somam R$ 113,7 milhões entre 2018 e 2025. “Estou vendo com o Rudi e retorno”, escreveu.
No dia seguinte, segundo a investigação, Mehdi teria ordenado: “Bom dia / Soma das duas Rial 740 / fecha agora cedo o quanto antes e já passa pro Fernando”. Logo depois, o valor final teria sido fechado em R$ 740.792,93.
Outro ponto destacado envolve anotações de medições feitas até em uma caderneta, que, segundo o Gecoc, serviriam de base para os valores posteriormente lançados nas planilhas oficiais dos contratos. Em mensagens extraídas dos celulares apreendidos, Mehdi Talayeh e Rudi Fiorese discutem valores relacionados às medições. Para os investigadores, os diálogos reforçam a suspeita de existência de um controle paralelo dos pagamentos e da definição prévia dos montantes que seriam liberados às empreiteiras investigadas
Na conversa do dia 30 de julho de 2020, Mehdi enviou uma foto de uma cadernetinha para Fiorese, com nomes de empresas e números que seriam valores. O ex-secretário visualizou e respondeu com um “ok”.
A peça sustenta ainda que a relação entre Rudi Fiorese e a empresa continuou mesmo após sua saída da Prefeitura de Campo Grande, em 2023. Segundo o Gecoc, ele assumiu cargo no Governo do Estado na mesma área de atuação e “assinou vários contratos com a empresa Rial”, incluindo dois aditivos em fevereiro de 2026, uma semana depois de se tornar diretor da Agesul (Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos).
Apuração do Campo Grande News essa semana mostrou que, em apenas três meses, Rudi empenhou (quando o valor é reservado para pagamento) R$ 15 milhões para a empreiteira investigada já na estrutura estadual.
Durante o cumprimento dos mandados da “Buraco Sem Fim”, investigadores encontraram dinheiro em espécie na residência do ex-secretário, localizada na região central de Campo Grande. Ele guardava em casa R$ 186 mil.
Outro lado – Em nota, o Governo de Mato Grosso do Sul informou que iniciou processo de revisão e fiscalização dos contratos mantidos com a Rial. A administração estadual afirmou que os contratos não são alvo direto da operação, mas que reforçou medidas de controle e compliance.
Já a Prefeitura de Campo Grande informou que os servidores investigados foram exonerados das funções e declarou que acompanha o trabalho do Gecoc para colaborar com o esclarecimento dos fatos.
A defesa de Rudi Fiorese afirmou que a prisão é “desarrazoada e não se coaduna com a história construída” pelo ex-secretário. O advogado Werther Sibut de Araújo alegou ainda que não teve acesso integral aos autos, o que, segundo ele, compromete o exercício da ampla defesa.
O advogado João Vitor Comiran, que representa Mehdi, afirmou que está “providenciando as medidas judiciais para promover a liberdade” do cliente e que “ao contrário do que vem sendo noticiado, as acusações não são relativas a tapa-buraco, mas sobre vias não pavimentadas”. “É, em síntese, os mesmos fatos da Operação Cascalho de Areia. Reforço a plena convicção da inocência de Mehdi e tenho certeza que em breve estará em liberdade para demonstrar a sua inocência”, diz a nota.


