Famílias entregam DNA na esperança de identificar corpos sem nome
Mutirão cruza perfis genéticos para localizar pessoas sem paradeiro conhecido e corpos sem identificação

A coleta de DNA é a última esperança para familiares de pessoas desaparecidas localizarem ao menos os corpos dos entes queridos. A iniciativa busca ampliar a identificação de pessoas desaparecidas e não identificadas por meio do cruzamento de perfis genéticos em bancos nacionais.
RESUMO
Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!
Famílias de pessoas desaparecidas participaram de um mutirão de coleta de DNA na DHPP para tentar localizar entes queridos. A iniciativa, que ocorre de segunda (24) a sexta-feira (28), cruza perfis genéticos em bancos nacionais e estaduais. Em 2025, foram registrados mais de 800 desaparecimentos no estado, com apenas 200 pessoas localizadas. Idosos, pessoas com Alzheimer e usuários de drogas lideram os casos. Para participar, é necessário ter boletim de ocorrência registrado.
“Eu acredito que não encontro mais não, com vida não”. Esse é o desabafo, seguido de lágrimas, feito pelo pai de Luiz Felipe, de 26 anos. O mecânico de máquinas agrícolas, de 46 anos, que não quis ser identificado, está entre as quatro famílias que foram até a DHPP na manhã desta segunda-feira (24) para participar do mutirão.
Ele conta que Luiz está desaparecido desde o dia 24 de fevereiro deste ano. “Eu vi ele nesse dia na oficina porque ele passou lá para me ver e para pegar dinheiro comigo”, explica.
Luiz era usuário de entorpecentes, mas ainda tinha residência fixa, morando com a mãe no São Conrado. Conforme relatado pelo pai, essa é a primeira vez que ele desaparece. Além das drogas, o mecânico conta que o filho também é esquizofrênico.
“Já andei bastante. A gente nunca sabe quando vai se envolver com droga. [...] Eu já tentei internar ele, mas deu nisso aí. Eu acredito que com a vida que ele está levando, alguém pode ter feito maldade com ele e matado ele”, relata.
Outra família que também esteve nas primeiras horas da ação foi a de Antônio João da Silva, de 61 anos. Para realizar a coleta, foram até a delegacia a mãe dele, Patrocina Costa, de 83 anos, e o irmão, Pedro da Silva, de 63 anos.

Pedro conta que o irmão foi preso pela Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher) no dia 28 de março. A última notícia que a família teve foi de que Antônio teria sido levado ao centro de triagem do presídio. À reportagem, a Agepen (Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário) explicou que ele deu entrada no sistema carcerário no dia 1º de abril e, no mesmo dia, recebeu o alvará de soltura.
“Até hoje não tivemos notícia dele, já fui no IML, já vim aqui na DHPP e não consigo encontrar. O pessoal daqui diz que tem contato direto com o IML, mas que até agora não apareceu nada”, contou.
Para a mãe, o sentimento que domina nesse momento é de incerteza. “Ao mesmo tempo que a gente tem o pensamento de que ele tá vivo, eu penso que ele não tá. Porque se ele tivesse vivo, ele já tinha procurado a gente. A minha parte eu faço, que é orar”.
No caso da dona de casa Márcia Nunes, de 53 anos, ela busca o irmão, que desapareceu em novembro de 2025. Segundo ela, Oswaldo Nunes Corrêa, de 60 anos, era dependente de álcool. Sete meses após o desaparecimento, o pai deles morreu.
“Nós estamos atrás também por conta disso, pra dar notícia que o pai faleceu, pra poder também mexer com toda essa parte burocrática de documento, do processo de inventário”, explicou.
Márcia conta que, assim que soube do mutirão de coleta de DNA, não pensou duas vezes. “A gente tem que ir atrás, tem que correr mesmo, porque só a gente sabe como é difícil da gente encontrar”, diz.
Até pertences servem - Segundo a diretora do IALF (Instituto de Análise Laboratorial Forense da Polícia Científica), Josemirtes Prado da Silva, a coleta de DNA pode ser realizada até por escova de dente e roupas que eram utilizadas exclusivamente pela pessoa desaparecida.
“A gente coleta esse material, é processado para obter o DNA e depois é inserido no banco de perfis genéticos, tanto nacional como estadual. Essa amostra vai ser disponibilizada no banco de dados nacionalmente também”.
Conforme explicado, para obter melhores resultados do mapeamento genético, é preferível que o DNA seja coletado de parentes ascendentes, como pais, e irmãos, e parentes descendentes, como filhos.
“A gente faz uma busca, que havendo coincidência com as amostras biológicas de cadáveres desaparecidos, pessoas vivas sem identificação, achados de ossada, tudo o que não tem identificação é cruzado com os vestígios dos familiares”, explica.

Estatística - Conforme o delegado adjunto da DHPP, Edgard Punsky, neste ano já foram registrados pouco mais de 800 desaparecimentos de pessoas. Desses casos, 200 pessoas foram encontradas e notificadas à Polícia Civil.
“A realidade dos desaparecidos é muito menor, porque ocorre que parte dessas pessoas muitas vezes voltam para o convívio familiar, regressam para aos seus lares, só que não há comunicação para a autoridade que anteriormente foi comunicada do desaparecimento. Não é noticiado para a polícia, gerando uma espécie de cifra negra”, pontua.
Conforme detalhado, pessoas idosas, com Alzheimer e que fazem uso de entorpecentes estão entre os principais grupos de pessoas que desaparecem no Estado. Segundo ele, o material colhido é um reforço para a Polícia Civil.
“Essas pessoas que muitas vezes elas estão desaparecidas há muito tempo, o corpo carbonizado, alguma coisa do tipo, existe um material genético para ser comparado, para saber se aquela pessoa sem qualquer identificação que foi localizada, às vezes morta, é uma ossada encontrada, se ela dá ‘match’ com a pessoa que aqui tem reivindicado aquele corpo”.
Mobilização - O mutirão de coleta de DNA começou nesta segunda-feira (24) e segue até sexta-feira (28). Para realizar a coleta, é necessário ter registrado boletim de ocorrência sobre o desaparecimento da pessoa.


