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Capital

Folga no fim de semana pesa, avalia Funsat sobre concorrência com comércio

Diretor do órgão diz que jornadas do comércio afastam candidatos e nega que Primt seja o principal responsável

Por Mylena Fraiha | 02/09/2026 11:02
Folga no fim de semana pesa, avalia Funsat sobre concorrência com comércio
Funcionária atende clientes em loja da região central de Campo Grande (Foto: Arquivo/Campo Grande News).

A possibilidade de passar os fins de semana e os feriados em casa tem pesado na escolha dos trabalhadores de Campo Grande e pode superar até mesmo a oferta de um salário maior. A avaliação é do diretor-presidente da Funsat (Fundação Social do Trabalho), João Henrique Lima Bezerra, para quem a busca por qualidade de vida ajuda a explicar a dificuldade do comércio para preencher postos de trabalho.

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Trabalhadores de Campo Grande têm priorizado qualidade de vida em detrimento de salários mais altos, dificultando o preenchimento de vagas no comércio, segundo o diretor da Funsat, João Henrique Lima Bezerra. O setor concentra 60% das oportunidades da agência municipal, mas horários noturnos e fins de semana afastam candidatos. A CDL atribui parte do problema ao programa Primt, o que a Funsat contesta.

Em entrevista ao Campo Grande News nesta quarta-feira (2), ele afirmou que os horários praticados por parte do setor afastam candidatos, principalmente quando exigem trabalho noturno, aos sábados, domingos e feriados. Atualmente, o comércio concentra 60% das vagas disponibilizadas pela agência municipal.

“As pessoas estão buscando qualidade de vida. Elas querem passar os fins de semana e os feriados em casa, com a família. Alguns estabelecimentos funcionam até as 22h, então o trabalhador acaba saindo às 23h ou à meia-noite. Essa é uma questão cultural da realidade atual de Campo Grande”, afirmou o diretor-presidente da Funsat.

Segundo João Henrique, parte dos candidatos aceita ganhar menos para preservar o tempo de descanso. “As pessoas preferem, muitas vezes, ganhar um pouco menos e ter qualidade de vida, podendo ficar em casa nos fins de semana, a receber R$ 500 ou R$ 1 mil a mais e precisar trabalhar nesses dias".

Questionado se uma eventual mudança na escala 6x1 poderia tornar o comércio mais atraente, João Henrique evitou antecipar uma avaliação. Disse que a Funsat pretende aguardar as definições nacionais e, depois, discutir os efeitos com trabalhadores e empresários. “Precisamos compreender as dificuldades e as demandas dos empresários, mas também entender as necessidades das pessoas. Enquanto a questão não for finalizada, não temos como apresentar uma análise definitiva”, afirmou.

A avaliação é uma resposta à CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas) de Campo Grande, que atribuiu ao Primt (Programa de Inclusão ao Mercado de Trabalho) parte da dificuldade enfrentada pelas empresas para contratar. Para a entidade, os benefícios oferecidos pelo programa municipal transformariam a Prefeitura em concorrente do mercado formal.

Conforme noticiado anteriormente, a CDL estima que existam cerca de 2,5 mil postos de trabalho disponíveis no comércio da Capital. Aproximadamente metade, segundo a entidade, não exigiria experiência ou qualificação prévia, pois as próprias empresas estariam dispostas a preparar os contratados.

O presidente da CDL, Adelaido Figueiredo, chegou a afirmar que pessoas com condições de disputar vagas formais estavam entre os candidatos que enfrentaram filas para tentar entrar no Primt. “Eram pessoas que tinham outro perfil, com todas as condições de ocupar um espaço no mercado de trabalho”, declarou na ocasião.

Em nota, a CDL também criticou o programa e descreveu como um “descompasso” a existência de vagas formais que permanecem abertas enquanto candidatos chegam a dormir nos locais de cadastramento do Primt para garantir uma senha.

A entidade citou dados da própria Funsat, que iniciou a semana com 939 oportunidades oferecidas por 120 empresas, distribuídas entre 122 profissões. Na maior parte dos casos, segundo a nota, não era exigida experiência prévia e o treinamento seria oferecido pelas empresas contratantes.

Folga no fim de semana pesa, avalia Funsat sobre concorrência com comércio
Fila para atendimento do Primt na manhã da última sexta-feira (28), realizado nas Moreninhas III (Foto: Arquivo/Juliano Almeida).

Entretanto, João Henrique rejeita a avaliação de que o Primt seja o principal responsável pela falta de trabalhadores no comércio. Para ele, é necessário observar as condições oferecidas e as mudanças nas prioridades dos candidatos. “Não é o programa da Prefeitura que está atrapalhando; é uma mudança naquilo que as pessoas procuram. Estamos concorrendo conosco mesmos? Não, porque são perfis diferentes”, respondeu.

Para João Henrique, a comparação feita pela CDL desconsidera que o comércio e o Primt atendem pessoas com perfis distintos. “O Primt funciona paralelamente, atendendo aos órgãos da Prefeitura com alguns serviços. Não vejo o programa como um obstáculo. É uma questão relacionada ao que as pessoas estão buscando atualmente".

Além da jornada, João Henrique reconhece que salário, benefícios e perspectivas de crescimento interferem na capacidade de uma empresa atrair e manter funcionários. “Existem empresas que oferecem excelentes benefícios e planos de carreira. A pessoa entra em uma empresa e, pouco tempo depois, vai para outra que oferece benefícios melhores ou um plano de carreira no qual ela enxerga a possibilidade de crescer".

João Henrique apontou ainda o receio de perder benefícios sociais como outro fator que pode desestimular o emprego formal. “A mulher está inscrita no NIS e no Cadastro Único e recebe um benefício. Se o marido entrar no mercado formal e tiver a carteira assinada, ela pode perder esse benefício. Por isso, muitos acabam indo para a informalidade. Se entrarem no mercado formal, podem perder o benefício. Essa é outra questão que dificulta o ingresso na formalidade".

Pelas regras federais, entretanto, a assinatura da carteira não provoca necessariamente o cancelamento imediato do Bolsa Família. A Regra de Proteção permite que famílias cuja renda aumente continuem recebendo parte do benefício por determinado período, desde que permaneçam dentro dos limites estabelecidos pelo programa.

Dados da PAC (Pesquisa Anual de Comércio), divulgada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mostram que as empresas comerciais de Mato Grosso do Sul pagaram, em média, R$ 2,9 mil por trabalhador ao mês em 2024, o equivalente a 1,8 salário mínimo daquele ano. A média, no entanto, varia entre os segmentos: chegou a 2,7 salários mínimos no atacado, a dois no comércio de veículos e motocicletas e a 1,6 no varejo.

Programa é atraente - O Primt, que substituiu o antigo Proinc, possui atualmente cerca de 1,5 mil beneficiários, dos quais 74% são mulheres, segundo João Henrique. Destinado a pessoas em situação de vulnerabilidade, o programa encaminha os participantes para atividades temporárias em secretarias e autarquias municipais, como limpeza, conservação, obras públicas e atendimento a emergências.

O vínculo pode durar até 24 meses, mediante renovações semestrais, e inclui bolsa-auxílio, cesta de alimentos, vale-transporte, alimentação durante as atividades e seguro contra acidentes pessoais.

O diretor reconheceu que as condições do programa são atrativas, mas afirmou que o alcance é insuficiente para provocar, sozinho, a dificuldade de contratação relatada pelo comércio. “O programa atrai as pessoas? É óbvio que atrai. A pessoa vai ganhar um salário mínimo, vai ganhar um sacolão, alimentação e não vai precisar trabalhar nos fins de semana. Mas não é dessa proporção que está sendo colocado, porque eu não vou incluir 500 pessoas no Primt em setembro. Vou chamar de acordo com a necessidade”, disse.

Além disso, segundo o diretor-presidente, foram abertas somente duas etapas de inscrição no programa neste ano, uma em fevereiro e outra em agosto. No último chamamento, 390 candidatos que permaneciam no cadastro de reserva foram convocados, mas 40% não compareceram. João Henrique afirma que parte deles conseguiu emprego durante o intervalo entre a inscrição e a convocação.

“Existem meses em que convocamos 100 pessoas e somente 30 se apresentam. Tivemos somente dois períodos de inscrição neste ano e nem sequer sei se conseguiremos convocar todos os cadastrados até dezembro”, relatou. Ele revelou que a Funsat não prevê abrir uma nova etapa de cadastramento em 2026 e ainda avalia se haverá condições orçamentárias para convocar beneficiários em setembro.

João Henrique também esclareceu que a bolsa de R$ 2.410 não é paga a todos os integrantes do Primt. O valor é restrito a um grupo de 80 a 90 pessoas vinculadas à Sisep (Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos) que trabalham em serviços de tapa-buraco e zeladoria.

Segundo ele, o aumento foi previsto em lei aprovada no ano passado, mas somente passou a ser aplicado após a ampliação da carga horária desse grupo. “O aumento não é destinado a todos os beneficiários do Primt. É somente para aqueles vinculados à Secretaria de Obras, que trabalham no tapa-buraco e na zeladoria da cidade, expostos ao sol".

O diretor afirmou que a jornada, que anteriormente terminava às 13h, foi ampliada em agosto para oito horas diárias, com expediente até as 17h30. “Diante da situação da cidade, com muitos buracos, houve uma reunião e decidiu-se ampliar as equipes e abrir mais frentes de trabalho para recuperar as ruas. Com isso, passamos a aplicar o valor previsto em lei, de R$ 2.410",

O diretor disse que a fundação pretende procurar a CDL para discutir alternativas. “Vamos provocar esse diálogo para que a Funsat seja um braço de apoio, e não uma barreira para as empresas e para o comércio de Campo Grande. Precisamos de um comércio aquecido, porque ele impulsiona a economia e o crescimento da cidade".

Encaminhamentos para o mercado - Embora a Funsat verifique se o interessado cumpre os critérios de acesso ao Primt, a fundação informou por e-mail que não cruza a base de candidatos do programa com o cadastro de vagas do mercado formal. O que existe, segundo o órgão, é o incentivo para que os beneficiários consultem as oportunidades da Agência de Empregos e participem de cursos de qualificação.

Dados encaminhados pela Funsat mostram que 1.791 pessoas foram desligadas do Primt em 2025. Desse grupo, 210 saíram porque conseguiram um emprego formal, número equivalente a 11,7% dos desligamentos.

De janeiro a agosto de 2026, foram registrados 744 desligamentos, dos quais 119 ocorreram pelo ingresso no mercado formal, ou 15,9%. Somados os dois períodos, 329 participantes deixaram o programa depois de conseguir emprego com carteira assinada.

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