Intervenção aponta perda de confiança em Consórcio e queda de 10% de passageiros
Relatório aponta queda maior entre pagantes e alerta que usuário que deixa ônibus pode não voltar a usar

A quantidade de passageiros transportados pelo transporte coletivo de Campo Grande caiu 9,9% entre 2023 e 2025, enquanto o número de usuários pagantes recuou 12,3% no mesmo período. Os dados fazem parte do relatório preliminar da intervenção no Consórcio Guaicurus e mostram que a redução da demanda ocorreu ao mesmo tempo em que o sistema registrou queda no número de viagens realizadas e na quilometragem percorrida pelos ônibus.
RESUMO
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O transporte coletivo de Campo Grande registrou queda de 9,9% no número de passageiros entre 2023 e 2025, enquanto os usuários pagantes recuaram 12,3% no mesmo período, segundo relatório preliminar da intervenção no Consórcio Guaicurus. As viagens realizadas caíram 14% e a quilometragem percorrida recuou 15,2%. Após o início da intervenção, em junho de 2026, os indicadores apresentaram reação, mas o relatório alerta que a recuperação da demanda pode ser mais lenta que a da oferta.
O levantamento considera os dados de CCO (Centro de Controle Operacional) e bilhetagem das empresas concessionárias. Segundo o documento, foram transportados 33.880.430 passageiros em 2023. O número caiu para 33.143.410 em 2024 e chegou a 30.531.686 em 2025.
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A retração se intensificou justamente em 2025. Na comparação com 2024, a quantidade de passageiros transportados diminuiu 7,9%, depois de uma queda de 2,2% entre 2023 e 2024.
O movimento acompanha a redução da oferta operacional. O número de viagens realizadas caiu de 1.020.425 em 2023 para 978.726 em 2024 e 878.103 em 2025, uma redução acumulada de aproximadamente 14%. No mesmo período, a quilometragem percorrida pelos ônibus passou de 19,33 milhões de quilômetros para 16,39 milhões, retração de 15,2%.
O relatório ressalta que a queda ocorreu sem redução do tamanho da frota por compra ou venda de ônibus. Por isso, a equipe de intervenção aponta a necessidade de avaliar a disponibilidade operacional dos veículos, as condições de manutenção e a capacidade de utilização da frota.
Passageiro pagante caiu ainda mais - Quando são considerados apenas os passageiros pagantes, a retração é mais acentuada. O sistema registrou 21.024.473 passageiros pagantes em 2023, número que caiu para 20.215.048 em 2024 e 18.436.919 em 2025.
Isso representa uma redução de aproximadamente 12,3% em dois anos, superior à queda de 9,9% observada no total de passageiros transportados.
Com isso, a participação dos passageiros pagantes no total transportado também diminuiu. Em 2023, eles representavam aproximadamente 62,1% dos passageiros. Em 2025, passaram a corresponder a cerca de 60,4%.
O relatório observa que essa demanda pode apresentar maior sensibilidade à qualidade e à previsibilidade do serviço. A avaliação é de que, diante de horários menos previsíveis, atrasos e maior risco de comprometer compromissos, parte dos usuários que possui outras alternativas de deslocamento pode optar por outros meios de transporte.
O documento, porém, ressalva que os dados disponíveis não permitem isolar esse efeito de outros fatores que também podem ter influenciado a demanda.
Menos ônibus rodando, menos passageiros - A análise da intervenção estabelece uma relação entre os três principais indicadores acompanhados: viagens realizadas, quilômetros percorridos e passageiros transportados.
Entre 2023 e 2025, os três apresentaram trajetória de queda. Enquanto as viagens recuaram 14%, a quilometragem diminuiu 15,2% e o número de passageiros caiu 9,9%.
O relatório aponta que a redução da oferta e da disponibilidade efetiva do serviço pode comprometer a confiança dos usuários, especialmente quando a imprevisibilidade dos horários e dos intervalos aumenta o risco de atrasos e amplia o tempo necessário para os deslocamentos.
Nesse cenário, segundo a análise, usuários podem procurar alternativas de transporte consideradas mais previsíveis, o que pode contribuir para a redução da demanda pelo sistema coletivo.
A equipe também destaca que a recuperação da oferta não significa necessariamente uma recuperação imediata e proporcional do número de passageiros. Depois de um período de perda de regularidade e confiabilidade, a retomada da demanda pode ocorrer mais lentamente, já que os usuários que migraram para outros meios precisam perceber estabilidade e continuidade na operação antes de voltar ao transporte coletivo.
2026 ainda registra queda, mas agosto teve reação - Os primeiros meses de 2026 ainda apresentam retração em relação ao ano anterior. Entre janeiro e maio, o sistema transportou 11.994.465 passageiros, contra 13.022.286 nos mesmos cinco meses de 2025, uma queda de aproximadamente 7,9%.
A partir do início da intervenção, em 16 de junho, porém, o relatório identifica mudança no comportamento dos indicadores operacionais.
Em agosto, foram transportados 2.526.444 passageiros, o terceiro maior resultado mensal de 2026 e a segunda vez no ano em que o volume ficou acima do registrado no mesmo mês de 2025. O resultado também superou os 2.390.237 passageiros de julho e os 2.484.261 registrados em junho.
O relatório ressalta, entretanto, que a evolução precisa ser acompanhada nos meses seguintes para verificar se a recuperação será mantida.
O número de viagens também apresentou reação após o início da intervenção. Foram 72.208 viagens em junho, 76.961 em julho e 75.604 em agosto. Como a intervenção começou em 16 de junho, o dado daquele mês reúne períodos anterior e posterior à medida.
A quilometragem seguiu comportamento semelhante: foram 1.353.789 quilômetros em junho, 1.447.880 em julho e 1.416.915 em agosto.
Recuperar passageiro pode levar mais tempo - A equipe de intervenção avalia que a recuperação da oferta é apenas uma etapa para reconstruir a relação dos usuários com o transporte coletivo.
Isso ocorre porque a queda da demanda pode ser consequência não apenas de uma mudança nas necessidades de deslocamento, mas também da perda de confiança na regularidade do serviço. Depois que um passageiro passa a utilizar outro meio de transporte por causa de atrasos ou falta de previsibilidade, a simples retomada de viagens não necessariamente provoca seu retorno imediato.
Por isso, o relatório aponta que regularidade, frequência e previsibilidade precisam ser mantidas de forma sustentada para que a confiança seja gradualmente reconstruída.
A tendência também aparece com maior intensidade entre os passageiros pagantes. Nos primeiros oito meses de 2026, o total de passageiros transportados caiu aproximadamente 6,6% em relação ao mesmo período de 2025. Entre os pagantes, a redução foi de aproximadamente 7,9%.
A participação dos passageiros pagantes no total também recuou, de aproximadamente 61% para 60,1%.
Dados de bilhetagem passam a ser ferramenta de acompanhamento - Para a intervenção, os dados de bilhetagem deixam de representar apenas uma contagem de usuários e passam a ser um dos indicadores para avaliar a recuperação do sistema.
A análise deverá ser feita em conjunto com o número de viagens, a quilometragem, a frota disponível, os veículos efetivamente utilizados, as viagens programadas e aquelas que deixaram de ser realizadas.
A ideia é verificar se o aumento da oferta operacional se mantém e se, posteriormente, isso se traduz em recuperação da demanda.
O relatório deixa claro que a intervenção tem caráter emergencial e transitório. A avaliação da equipe é de que a medida pode conter a deterioração do serviço, estabilizar a operação e iniciar a recuperação da confiança dos usuários, mas não representa, isoladamente, uma solução definitiva para os problemas identificados.
Para consolidar os resultados, o documento aponta a necessidade de medidas de longo prazo, especialmente relacionadas à gestão e governança, fortalecimento dos controles internos, modernização e renovação da frota e profissionalização da manutenção.
Assim, a evolução da bilhetagem nos próximos meses será um dos indicadores para medir se a recuperação da operação também será acompanhada pela retomada dos usuários. O próprio relatório ressalta que esse processo pode ultrapassar o período da intervenção, já que recuperar a confiança de quem deixou de utilizar o transporte coletivo depende da manutenção de um serviço regular e previsível ao longo do tempo.


