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Comportamento

Entre o CAPS, crochê e afeto da filha, André tece uma vida além das drogas

Homem encontrou no centro de atenção lugar seguro para reorganizar a rotina em meio ao caos do vício

Por Inara Silva | 23/09/2026 05:38
Entre o CAPS, crochê e afeto da filha, André tece uma vida além das drogas
André, de 61 anos, mostra o trabalho manual feito em panos de prato (Foto: Inara Silva)

Há reencontros que acontecem ao redor de uma mesa, entre uma receita conhecida e a conversa durante o almoço. Para André*, de 61 anos, preparar bisteca com mandioca a pedido da filha é uma forma de voltar a fazer parte da vida dela. Quando ela chega, o crochê e o rádio, companheiros das tardes em casa, dão lugar à alegria de recebê-la.

“A paz, né? Me sinto pai. Pai na paz.”

RESUMO

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André, de 61 anos, encontrou no CAPS AD de Campo Grande uma segunda família e um caminho de reconstrução após anos envolvido com tráfico e uso de drogas. Frequentador da unidade desde 2014, ele retomou vínculos familiares, mantém rotina com crochê e recebe acompanhamento contínuo. O serviço funciona sem necessidade de encaminhamento e adota a redução de danos como parte do tratamento.

A filha de André já havia passado temporadas com ele nas férias escolares, quando André trabalhava em fazendas após sair da prisão. Ele se lembra de cozinhar para ela naquela época e, hoje, encontra nas visitas uma oportunidade de voltar a compartilhar a mesa.

O relato faz parte de uma série do Campo Grande News sobre a atuação dos CAPS AD (Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Outras Drogas) em Campo Grande. A partir das experiências de pacientes e profissionais, as reportagens explicam como o cuidado é oferecido e de que maneira o serviço contribui para a retomada de vínculos, projetos e rotinas.

Durante a entrevista, que foi intermediada e acompanhada pelo psicólogo Mauro Corsini, da Rede de Atenção Psicossocial, André fala da filha com afeto. O reencontro acontece em meio a uma rotina de cuidados que ele constrói há 12 anos, desde que começou a frequentar o local, em 2014.

Antes de procurar ajuda, André traficava e também consumia diferentes drogas. Conta que suas amizades estavam ligadas ao uso de substâncias, enquanto o contato com irmãos e outros familiares se perdia.

Por volta dos 47 ou 48 anos, começou a olhar para a vida que levava e se deu conta de que já havia sido casado, tinha uma filha, mas estava distante da família e não conseguia imaginar para si uma amizade fora daquele círculo.

“Olhei para trás, vi que já tinha filho, já tinha feito um monte de coisas erradas na minha vida”, relata. “Amigo, só de droga. Não tinha amizade nem com a minha família.”

Ao se dar conta das mentiras que havia contado e da falta de perspectiva de construir relações diferentes, entrou em depressão. Nesse momento de profunda tristeza, procurou uma irmã, que o aconselhou e o encaminhou ao CAPS.

Aposentado, André mora sozinho e ainda faz tratamento para a doença. Ele afirma que se aposentou por tempo de contribuição, pois trabalhou por muitos anos com carteira assinada, inclusive em fazendas.

Há semanas em que André vai ao CAPS todos os dias. Se percebe alguma situação de conflito na vila de casas onde mora ou sente que precisa de companhia e cuidado, prefere passar o dia no local. Ali recebe medicação, acompanhamento psiquiátrico, participa das atividades e convive com profissionais que conhecem sua história e fragilidades.

“O pessoal do CAPS é como se fosse uma segunda família para mim”, afirma.

Ele se recorda de uma ocasião em que chegou à unidade após beber. Uma profissional percebeu que não estava em condições de sair pilotando a motocicleta, pediu que entregasse a chave e o orientou a descansar. André conta o episódio como exemplo da proteção que encontra no local.

Fora dali, também procura ficar atento aos próprios sinais de risco. Em sua experiência, a bebida alcoólica pode levá-lo a buscar outras drogas mais fortes e afastá-lo da rotina por dias. Quando perguntado se vive em alerta para não voltar a consumi-las, concorda: “Justamente.” Isso não significa que esteja em abstinência total.

 André diz que fuma maconha diariamente e acredita que esse uso o ajuda a evitar substâncias que considera mais prejudiciais para si.

Entre o CAPS, crochê e afeto da filha, André tece uma vida além das drogas
André costuma se dedicar ao croche pelas manhãs no CAPS e à tarde em sua casa. (Foto: Inara Silva)

Redução de danos - O psicólogo Mauro Corsini, que trabalha no CAPS AD desde 2019, explica que não é necessário estar em abstinência para buscar atendimento e que parar completamente de usar álcool ou outras drogas não é o único parâmetro de sucesso do tratamento. Em alguns casos, diminuir o consumo ou deixar substâncias associadas a danos mais graves, enquanto se recuperam vínculos familiares, moradia e rotina, já representa uma conquista.

“A gente vai ter metas diferentes para cada um”, afirma.

O CAPS funciona de portas abertas, sem necessidade de encaminhamento. Qualquer pessoa que enfrente problemas relacionados ao uso de álcool ou outras drogas pode procurar a unidade e pedir acolhimento. O cuidado é definido conforme as necessidades de cada paciente e pode incluir consultas, acompanhamento psicológico e social, participação em grupos e permanência em leitos para quem precisa de atenção mais intensiva. Nesse processo, a redução de danos também pode fazer parte do tratamento.

Agulhas e linhas - O crochê entrou na vida de André em um período difícil. Ele aprendeu a técnica na prisão, onde procurava uma atividade que aliviasse a tensão e contribuísse para a remição da pena. Condenado inicialmente a 25 anos por tráfico de drogas, conta que teve a sentença reduzida para 19. A previsão era cumprir cinco anos em regime fechado, mas permaneceu preso por três. Na época, sua então mulher vendia as peças fora do presídio, garantindo-lhe alguma renda.

André continuou trabalhando com as linhas após recuperar a liberdade. Antes fazia tapetes; hoje aplica “bicos” de crochê em panos de prato, combinando as cores do acabamento com as estampas dos tecidos, peças que considera mais fáceis de vender. Ele mostra a produção com orgulho e mantém a atividade tanto no CAPS quanto em casa, onde costuma passar as tardes fazendo crochê e ouvindo rádio. Além de integrar sua rotina, o trabalho lhe proporciona uma renda complementar.

Onde buscar ajuda - Campo Grande tem dois CAPS AD para atendimento de pessoas com problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas. O CAPS AD Guanandi atende moradores das regiões do Anhanduizinho, Imbirussu e Lagoa, enquanto o CAPS AD da área central recebe usuários das regiões Centro, Bandeira, Prosa e Segredo. Não é necessário encaminhamento nem estar em abstinência para procurar ajuda.

“A pessoa não precisa de encaminhamento para chegar ao CAPS. É uma modalidade que a gente chama de portas abertas”, explica o psicólogo Mauro Corsini, da Rede de Atenção Psicossocial.

  • CAPS AD IV Fátima M. Medeiros:

Endereço: Rua Theotônio Rosa Pires, 19, Jardim São Bento.

  • CAPS AD III Guanandi: 

Endereço:  Rua Manuel da Costa Lima, 3272, bairro Guanandi.

*Nome fictício para preservar a identidade do entrevistado

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