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Capital

Jovem e saudável, covid levou Uiara, deixou amigos "órfãos" e família arrasada

Professora de Educação Física também era motorista de app e teve cortejo dos colegas do Regional ao cemitério

Por Paula Maciulevicius Brasil | 07/04/2021 14:15
Uiara à frente com as três sobrinhas e a mãe Sônia. (Foto: Arquivo Pessoal)
Uiara à frente com as três sobrinhas e a mãe Sônia. (Foto: Arquivo Pessoal)

Em meio às lágrimas, familiares e amigos tentam encontrar nas fotos e vídeos de Uiara, o sorriso que a professora de Educação Física deixou. Aos 38 anos, jovem e saudável, Uiara Pires da Silva morreu de covid-19 nessa terça-feira (6), mesmo longe de ser considerada "quadro de risco" para a doença.

O rosto dela e as histórias que compartilhou com alunos, colegas e familiares hoje estampam, infelizmente, a realidade da covid: não existe mais um perfil para a doença. De alegria contagiante, não tinha quem não aprendesse a gostar de se exercitar nas aulas de Uiara nem quem não se animasse no "bom dia" dos grupos de motoristas de aplicativos, sua segunda profissão.

A professora que fez parte da Funesp (Fundação Municipal de Esportes) deu aulas de ginástica, dança e pilates, além de ter atuado em projetos federais em muitos bairros da Capital. Ultimamente, sem emprego na área, Uiara se dividia entre trabalhar como motorista de aplicativo e também em um mercado aos finais de semana.

Abalado, o irmão quatro anos mais novo, conta quem foi a professora. "Ela gostava muito do que fazia. Não é a toa que ela participava de tudo quanto era projeto. E tudo o que falaram dela nas redes sociais, é verdade", explica Rodrigo Pires Silva, de 34 anos. Isso porque nas redes sociais, alunos não só homenagearam a professora depois da confirmação da morte, como enviavam orações e desejos de melhora durante as duas semanas em que Uiara esteve internada.

"Minha irmã também gostava muito de viajar, de sair, de passear com as minhas filhas, as três sobrinhas dela e ficar com a minha mãe. Além de fazer coisa com os amigos, ela amava tirar foto e hoje a gente agradece por ela ter tirado tanta foto para podermos lembrar dela olhando", descreve o irmão.

À esquerda Uiara, sobrinhas, irmão Rodrigo e cunhada Ane, a mãe Sônia e a outra sobrinha. (Foto: Arquivo Pessoal)
À esquerda Uiara, sobrinhas, irmão Rodrigo e cunhada Ane, a mãe Sônia e a outra sobrinha. (Foto: Arquivo Pessoal)

Com a covid em todo lugar, é difícil saber em que circunstância Uiara se contaminou. Para a família, mais importante do que isso foi ter vivenciado a luta da professora. "Ela lutou bastante, não queria ser internada, e a gente agradece a todo mundo que ajudou, enfermeiros, médicos", diz Rodrigo.

Os sintomas começaram ainda em março, e segundo a família, foram idas e vindas do posto de saúde. "Mandavam ela voltar depois, ou dava falso negativo nos exames. Corremos atrás de médico particular, alugamos oxigênio pra ela, até que esse médico conseguiu internar ela no Regional", recorda o irmão.

Ser professora era orgulho para Uiara. (Foto: Arquivo Pessoal)
Ser professora era orgulho para Uiara. (Foto: Arquivo Pessoal)

Foram duas semanas de internação, e por estar ainda na fase de contágio da doença, ninguém pode se despedir de Uiara. "Não teve cerimônia, não teve velório, foi tudo rápido. Eu não pude me despedir dela", lamenta Rodrigo.

Uiara estava com duas entrevistas pré-agendadas na área de Educação Física, mas seguia firme trabalhando como motorista de aplicativo, profissão onde não só era admirada, como foi homenageada num cortejo de carros que acompanharam a saída do caixão do Hospital Regional até o Cemitério Jardim da Paz na tarde de ontem.

Motorista de aplicativo, Carolina Garcia Ribeiro foi uma das organizadoras do cortejo, e quem faz questão de dizer o quanto Uiara era querida, animada e parceira. "Por onde ela passou deixou sua alegria contagiante e seu jeito irreverente de ser. Fez muitas amizades , participava de muitos canais e alguns grupos de whats, onde sempre foi muito ativa", relata.

Quando adoeceu, as colegas motoristas faziam diariamente uma corrente de oração, além do contato direto com a mãe de Uiara. Ontem, com a notícia da morte, o grupo também soube que não poderia haver velório, foi quando decidiram prestar a última homenagem com o cortejo do hospital ao cemitério.

Cortejo feito pelos motoristas de aplicativo em homenagem à colega. (Foto: Arquivo Pessoal)
Cortejo feito pelos motoristas de aplicativo em homenagem à colega. (Foto: Arquivo Pessoal)

"Ela merecia, era o mínimo que podíamos fazer naquele momento, porque é muito triste você não poder despedir de alguém, dar um até breve, um adeus. Queríamos também dar apoio a família dela, principalmente a sua mãe, e mostrar para ela o quanto sua filha era querida e amada por todos", resume Caroline.

Amiga e também motorista, Natalia Mecelis Cabral recorda a última vez em que viu os "dois pauzinhos" da conversa do Whats ficarem azuis, sinal de que Uiara visualizou as fotos do Morro do Paxixi que ela carinhosamente enviou para animar a colega.

"No último dia que a gente se falou, ela mandou mensagem dizendo que não estava bem e iria ser internada, depois de vários dias buscando tratamento e diagnóstico adequado. Mantei as fotos para ela e foi a última vez que ela visualizou, o pôr do sol do Morro".

Imagem do pôr do sol do Morro do Paxixi, última mensagem visualizada por Uiara no whats, no dia 22 de março. (Foto: Natalia Mecelis Cabral )
Imagem do pôr do sol do Morro do Paxixi, última mensagem visualizada por Uiara no whats, no dia 22 de março. (Foto: Natalia Mecelis Cabral )


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