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Capital

Lúcia só queria cuidar da última morada de Nena, mas perde a luta para ladrões

“A gente deixa arrumadinho e as pessoas vêm aqui e fazem essa barbaridade”, lamenta

Por Aline dos Santos | 27/08/2026 09:16


RESUMO

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Maria Lúcia Fidelis Salomão enfrenta seguidos episódios de vandalismo no túmulo de sua sogra, Josephina Abussafi Salomão, no Cemitério Santo Antônio, em Campo Grande. Grades e cadeados instalados para proteger a capela foram furtados em quatro dias. O cemitério, fundado em 1872 e instalado no endereço atual entre 1913 e 1914, acumula registros de depredações, com lápides destruídas e esculturas religiosas roubadas, sem resposta efetiva do poder público.

Essa não é mais uma história de vandalismo no Cemitério Santo Antônio, mas sobre o carinho de Maria Lúcia Fidelis Salomão, 66 anos, por dona Nena. A sogra partiu e ela só queria cuidar com esmero da última morada de quem lhe deu tanta atenção em vida.

Mas a depredação no cemitério, que se repete dia após dia, diante dos olhos insensíveis do poder público (responsável pelo local) e da polícia (a quem cabe investigar crimes), impede que Lúcia mantenha a capela em ordem.

Ela conta que até reforçou a segurança do túmulo, que recebeu grades na porta de vidro e nas janelas. Mas os dois cadeados da grade só duraram quatro dias. Os ladrões levaram e restaram apenas as chaves nas mãos de Lúcia.

Lúcia só queria cuidar da última morada de Nena, mas perde a luta para ladrões
 Maria Lúcia conta que cadeado para reforçar segurança de túmulo só durou 4 dias. (Foto: Osmar Veiga)

“Eu chego aqui e falo para a minha sogra: Dona Nena, é que não sou eu que estou aí. Eu ia dar uma rasteira nesses bandidos. Quando ela era viva, ela que cuidava [do jazigo da família].  E toda essa dor que a gente sente. Arruma, deixa bem arrumadinho e as pessoas vêm aqui e fazem essa barbaridade. A minha sogra foi a maior benção da minha vida. Eu amo ela, diz, com a voz embargada pela emoção.

Na capela, ela mostra a foto de Josephina Abussafi Salomão, carinhosamente chamada de Nena.

"A minha sogra cuidava disso aqui com o maior carinho. Ela falava: vamos lá no cemitério? E eu falava: vamos dona Nena. Minha sogra estava na UTI e ela queria falar comigo. Ela disse: Lúcia, quantas vezes esses anos todos você disse que me ama, e eu nunca disse que te amo. Mas eu te amo muito, Lúcia. Agora, eu posso morrer tranquila, porque eu sei que você vai cuidar do um filho. Ela entrou em coma de noite e morreu”.

Todo dia que chega ao cemitério, o mais antigo de Campo Grande, Lúcia se depara com uma depredação.

Como está aqui, eu nunca vi na minha vida. O que eles não levam, eles quebram. Eu queria entender como levaram os cadeados. Você vê que é por malvadeza que eles fazem isso. Só nesse ano, foram cinco gastos com cemitério. Não é porque a pessoa morreu, que a gente vai abandonar. A gente tem carinho por eles”.

Ao longo dos anos, o abandono do cemitério no quesito segurança é contado pelo Campo Grande News.

Em abril do ano passado, a reportagem noticiou que a pequenina capela do Cemitério Santo Antônio, incrustado desde 1914 na Avenida da Consolação, Vila Santa Dorotheia, era o único lugar seguro para as esculturas religiosas: cinco Jesus Cristo e duas Nossa Senhora, todos com mais de um metro de altura.

Porém, as esculturas também foram levadas, deixando a maioria dos visitantes sem entender como os dependentes químicos, apontados informalmente como autores dos furtos, conseguiriam carregar as pesadas peças pelas ruas sem chamar atenção.

Lúcia só queria cuidar da última morada de Nena, mas perde a luta para ladrões
Em abril de 2025, imagens foram trancafiadas na capela do cemitério.,(Foto: Henrique Kawaminami/Arquivo)

Na noite de domingo (dia 23), uma pequena janela, quase uma fresta, foi usada para entrar no depósito de materiais e levar as ferramentas. Numa caminhada pelo cemitério, é fácil ver lápides depredadas, com fotos, esculturas e peças de metais levadas.

Em 1872, o Cemitério Santo Antônio ficava em um ponto central do povoado, onde hoje é a Praça Ary Coelho. Foram 15 anos nesse endereço.

No ano de 1887, a comunidade decidiu transferir o cemitério para o Bairro Amambaí, no terreno onde hoje funciona o Sesi e a Casa da Indústria de Mato Grosso do Sul.

Entre os anos de 1913 e 1914, o Santo Antônio foi transferido para o atual endereço, que naquele tempo ainda era a Fazenda Bandeira. Hoje, fica no quadrilátero formado pela Rua 13 de Maio e as avenidas Calógeras, Eduardo Elias Zahran e Consolação.

Lúcia só queria cuidar da última morada de Nena, mas perde a luta para ladrões
Fresta na janela foi caminho para ladrão invadir depósito e levar ferramentas. (Foto: Osmar Veiga)

 A reportagem solicitou informações da Prefeitura de Campo Grande sobre a segurança no local e à Polícia Civil sobre a investigação do crime. O Campo Grande News aguarda resposta.

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