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Capital

Um ano após morte de jornalista, falta de perícia em celular adia interrogatório

Caio Cesar Nascimento Pereira deixou audiência sem ser ouvido no caso da morte de Vanessa Ricarte

Por Bruna Marques e Gabi Cenciarelli | 09/03/2026 16:28

Mais de um ano após o assassinato da jornalista Vanessa Ricarte, o réu pelo crime saiu de mais uma audiência sem prestar depoimento. A segunda audiência de instrução do caso foi realizada nesta segunda-feira, 9 de março, mas o interrogatório de Caio Cesar Nascimento Pereira não ocorreu porque ainda não foi concluída a perícia no celular apreendido pela polícia.

RESUMO

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O assassinato da jornalista Vanessa Ricarte, ocorrido em fevereiro de 2025, permanece sem desfecho após mais uma audiência de instrução. O réu, Caio Cesar Nascimento Pereira, não prestou depoimento devido à pendência da perícia em seu celular apreendido. Durante a sessão, Joilson Francelino, antes testemunha, foi ouvido como vítima de tentativa de homicídio. O caso ganhou novos desdobramentos com denúncias adicionais de perseguição, cyberstalking e exposição pornográfica não consentida. Vanessa havia procurado a delegacia para denunciar violência horas antes de ser morta.

Vanessa Ricarte, de 42 anos, foi assassinada no dia 12 de fevereiro de 2025. O processo corre sob sigilo na 1ª Vara do Tribunal do Júri, sob condução do juiz Carlos Alberto Garcete.

Durante a audiência desta segunda-feira, o assessor de imprensa Joilson Francelino, amigo da vítima, foi ouvido pela primeira vez na condição de vítima. Inicialmente ele figurava no processo apenas como testemunha, mas passou a ser considerado vítima de tentativa de homicídio após decisão do juiz.

A defesa do réu afirmou que o interrogatório não foi realizado porque o processo ainda aguarda a conclusão da perícia no celular apreendido com Caio.

“O interrogatório do Caio não aconteceu porque existe um detalhe no processo criminal em que todas as pessoas acusadas têm o direito de falar por último. Primeiro se reúne todo o acervo de provas e depois ele, na qualidade de autodefesa, explica o que concorda ou não”, afirmou o advogado Renato Franco.

Segundo ele, a denúncia também recebeu um aditamento do Ministério Público durante o andamento do processo.

“O Ministério Público analisou todas as provas e produziu novos elementos. Com isso houve um aditamento, que é quando se somam outras condutas que também podem ser enquadradas como crime”, explicou.

Entre os crimes citados estão perseguição, cyberstalking, exposição pornográfica não consentida e violência psicológica.

“São crimes bastante modernos e que estão ligados a elementos que precisam ser esclarecidos pela perícia que está com o Gaeco. Essas nuances precisam ser esclarecidas antes do interrogatório”, disse.

De acordo com a defesa, ainda não há data definida para a próxima audiência e o interrogatório deve ocorrer após a conclusão da perícia.

“O interrogatório deve acontecer depois da manifestação do Gaeco, que é onde se encontra o celular para que seja realizada essa perícia. Agora vamos aguardar essa manifestação”, afirmou.

Um ano após morte de jornalista, falta de perícia em celular adia interrogatório
Vanessa em foto publicada em suas redes sociais (Foto: Reprodução)

De testemunha a vítima - Segundo o advogado Pablo Arthur Buarque Gusmão, que atua como assistente de acusação de Joilson Francelino, a mudança da condição de testemunha para vítima ocorreu após recurso apresentado ao Tribunal de Justiça.

“O Joilson figura como vítima agora. Antes ele estava como testemunha. Houve um recurso em sentido estrito no Tribunal de Justiça que reformou a decisão inicial do doutor Garcete e hoje foi a audiência em continuação em que ele foi ouvido na condição de vítima”, afirmou.

De acordo com o advogado, Joilson relatou em audiência a dinâmica do crime ocorrido no dia da morte de Vanessa. O depoimento incluiu o momento em que o jornalista teria sido atacado pelo réu.

“Ele narrou todo o fato, como aconteceu na percepção dele. O vídeo foi gravado e consta nos autos. Inclusive ele participou do momento em que o réu corre atrás dele com uma faca e tenta desferir o golpe. Se não houvesse aquela porta em que o Joilson se apoiou e aquela geladeira ali, provavelmente o Joilson hoje não estaria mais aqui”, disse.

Com a mudança no enquadramento, Joilson passou a ser vítima de tentativa de homicídio qualificado por motivo fútil.

Ainda segundo Gusmão, a audiência não avançou para o interrogatório do réu porque a perícia nos aparelhos celulares apreendidos ainda não foi concluída.

Um ano após morte de jornalista, falta de perícia em celular adia interrogatório
A jornalista Vanessa Ricarte e o músico Caio Cesar Nascimento Pereira (Foto: Reprodução / Redes sociais)

“Não conseguiram quebrar a criptografia dos aparelhos celulares, que são iPhones. Por isso existem questões relacionadas a crimes de perseguição, violência psicológica e a questão da nudez. O juiz encerrou a audiência apenas com a oitiva da vítima”, explicou.

O advogado acrescentou que ainda não há retorno oficial sobre o andamento da perícia.

“Não temos uma devolutiva positiva nem negativa. Disseram anteriormente que não conseguiram quebrar e estavam tentando. Se conseguirem, haverá um laudo e nós seremos intimados para nos manifestar sobre a perícia dos aparelhos celulares”, afirmou.

Segundo ele, o juiz deve concluir a ata da audiência e abrir prazo para manifestação do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado).

“O doutor Garcete vai finalizar a ata de audiência, disponibilizar no processo e conceder o prazo de cinco dias para que eles manifestem se vão conseguir ou não quebrar a criptografia. Depois disso será agendada uma nova audiência”, disse.

O advogado André Gomes, que representa a família de Vanessa e também atua como assistente de acusação, afirmou que o depoimento de Joilson foi importante para esclarecer pontos da acusação.

“Hoje, na oitiva do Joilson, que também é vítima nesse caso, ele prestou depoimento novamente, desta vez na qualidade de vítima. O depoimento dele foi excelente e contribuiu muito para a acusação e para que a Justiça realmente seja feita”, declarou.

Segundo ele, a decisão de adiar o interrogatório do réu foi tomada para aguardar o relatório da perícia no celular.

“O doutor Garcete entendeu por bem, atendendo a uma solicitação do Ministério Público, aguardar os relatórios que estão sendo produzidos a partir do levantamento criptográfico do celular do réu”, disse.

Após a conclusão da perícia, o juiz deve marcar uma nova audiência para ouvir o acusado. Na sequência, o processo seguirá para a decisão de pronúncia, que definirá se o caso será levado a julgamento pelo Tribunal do Júri.

Apesar da espera pela perícia, Gomes afirma que a acusação entende que já existem provas suficientes no processo.

“Nós já temos toda a extração de dados dos equipamentos, inclusive do WhatsApp da vítima. Entendemos que já existem elementos para comprovar a materialidade dos crimes, não só do feminicídio, mas também da perseguição, das ameaças e da exposição da nudez”, afirmou.

Ele destacou ainda que o depoimento desta segunda-feira ajudou a esclarecer a tentativa de homicídio contra Joilson.

“O depoimento dele foi muito importante porque corroborou e esclareceu como ocorreu a tentativa de homicídio, a perseguição até o imóvel e todas as situações que ele sofreu. Ele explicou bem a dinâmica do que aconteceu lá dentro”, disse.

Um ano após morte de jornalista, falta de perícia em celular adia interrogatório
Policiais em frente a casa onde Vanessa morava e foi assassinada (Foto: Paulo Francis / Arquivo)

Denúncia e morte - Vanessa Ricarte, de 42 anos, foi assassinada no dia 12 de fevereiro de 2025 pelo ex-noivo, o músico Caio Cesar Nascimento Pereira. Horas antes do crime, ela havia procurado a Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher) para denunciar violência e solicitar medida protetiva de urgência.

Ela relatou episódios de agressão e ameaças, mas, segundo familiares, não recebeu acolhimento adequado. Em um áudio enviado a um amigo no mesmo dia, a jornalista contou que foi atendida de forma “fria e seca” e orientada a voltar para casa, sem garantia de segurança.

O caso provocou forte repercussão nacional e questionamentos sobre os protocolos de atendimento a mulheres em situação de risco.

A decisão judicial que determinava o afastamento do agressor ainda não havia sido comunicada quando Vanessa foi atacada. Ela foi esfaqueada três vezes na entrada da casa onde morava, no Bairro São Francisco.

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