Morte e pacientes passando mal geram denúncias em clínica de hemodiálise
Relatos apontam problemas na esterilização, calor excessivo, falta de estrutura e diferença entre atendimentos
Pacientes da clínica DaVita, localizada na Rua Treze de Maio, no bairro São Francisco, em Campo Grande, relataram problemas estruturais e diferenças no atendimento entre usuários do SUS (Sistema Único de Saúde) e particulares. Também foram mencionados casos recentes de pacientes que passaram mal durante sessões de hemodiálise na unidade, além da morte de um paciente. As circunstâncias das ocorrências serão investigadas pelos órgãos competentes.
RESUMO
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A reportagem esteve na clínica na manhã desta quinta-feira (7), mas foi informada no local de que ninguém está autorizado a passar informações. A unidade atende pacientes por meio do SUS, convênios e também de forma particular.
Uma das pacientes que passou mal preferiu não relatar o caso por medo de represálias durante os próximos dias de tratamento na clínica.
Aposentada de 50 anos, uma paciente que faz hemodiálise na unidade há quase quatro anos disse que nunca passou mal durante o procedimento, mas afirmou estar insatisfeita com a estrutura oferecida aos pacientes do SUS. Ela afirmou que outros pacientes precisaram ser hospitalizados recentemente.
“Eu não passei mal. Eu não sou da turma que passou mal. Alguns colegas passaram mal, foram hospitalizados. Uma delas sentava ao meu lado e já saiu. Uma delas foi internada na Santa Casa”.
A paciente também criticou mudanças no espaço destinado às refeições. “A minha maior insatisfação é que, desde o ano passado, tiraram o direito dos pacientes entrarem no refeitório. Ficou só para os funcionários”.
Segundo ela, os colegas passaram a se alimentar na recepção da clínica. “Os pacientes comem na recepção. Alguns não se sentem bem em comer ali e acabam comendo lá fora”.
Apesar de elogiar o esforço da equipe, ela afirmou que há problemas recorrentes. “Eu vejo que os funcionários fazem o que podem para atender a gente bem, mas tem coisas que deixam a desejar. Eu acho que eles precisavam fazer um espaço adequado para os pacientes fazerem as refeições. A gente sabe que ali é um ambiente cheio de bactéria. A pessoa fica comendo exposta na recepção. Não é legal isso. Eu acho um insulto fazer isso com a gente”, disse.
A aposentada também relatou diferenças entre pacientes particulares e usuários do SUS. “Tem o pessoal do particular e o pessoal do SUS. A gente nota diferença em tudo. As poltronas deles são muito melhores que as nossas. As poltronas do particular são novas, elétricas. As nossas já estão bem antigas e desgastadas”, afirmou.
Ela afirmou ainda que pacientes precisam pedir limpeza frequente das cadeiras. “Tem uma colega que senta na mesma cadeira em todas as sessões e sempre precisa pedir para limparem direito, passarem álcool, porque a cadeira fica suja. Vemos claramente a diferença entre o SUS e o particular”.
Segundo a paciente, as sessões duram horas e a estrutura agrava dores físicas. “Tem gente que fica quatro horas sentada naquela máquina. Eu fico três horas e meia. Sou cadeirante e tenho problema com a prótese da perna. Ficar naquela poltrona piora muito. Levo uma almofada de gel, cobertor e outra almofadinha para tentar melhorar. Não é nem a hemodiálise em si que causa mais dor, é ficar naquela poltrona ruim durante horas. Essa estrutura deles está muito ruim”.
A paciente afirmou ter medo de sofrer consequências após as reclamações. “Prefiro que meu nome não apareça, porque o tratamento muda quando eles sabem que a gente reclamou. Quando fomos falar diretamente com eles, não tivemos retorno. Todo mundo já estava cansado de reclamar e não receber resposta. A gente via que nada mudava. Então pensamos que, se não se unisse e não fizesse alguma coisa, nada iria mudar”.
Ela também confirmou ter conhecimento da morte de um paciente. “Teve uma morte, sim. Mas eu não conhecia o paciente, não era do meu horário”.
Conforme apurado pela reportagem, os pacientes que passaram mal faziam tratamento em setores diferentes da clínica. Uma fonte relatou que o funcionário responsável pelo serviço de reprocessamento dos capilares teria sido deslocado para o setor por uma enfermeira para cobrir um atestado médico.
Segundo a denúncia, o trabalhador não tinha experiência na função e precisou assumir sozinho o reprocessamento de materiais de diferentes setores da unidade, o que teria provocado sobrecarga no setor de reuso, responsável pela esterilização dos equipamentos utilizados na hemodiálise.
Ainda conforme o relato, cerca de 10 pacientes começaram a apresentar sintomas aproximadamente uma hora e meia após o início das sessões. Todos seriam do turno da manhã. A suspeita levantada pela fonte é de que tenha ocorrido falha no processo de esterilização dos materiais utilizados durante os procedimentos. As informações, porém, ainda dependem de apuração técnica e eventual confirmação oficial das autoridades responsáveis.
Procurada, a Polícia Civil ainda não se posicionou sobre o caso. A reportagem questionou se a morte do paciente foi oficialmente registrada e se houve instauração de inquérito para apurar as circunstâncias da ocorrência, mas não recebeu resposta até a publicação desta matéria.
Falta de estrutura – Enfermeiro especialista em nefrologia, de 40 anos e ex-funcionário da clínica, que pediu para não ser identificado, afirmou que a unidade enfrenta problemas relacionados à equipe, às condições de trabalho e ao atendimento aos pacientes.
“Infelizmente só visa lucro. Qualidade zero, ambiente extremamente tóxico pelos gerentes. Diminuíram o salário da equipe de enfermagem e aumentaram a carga horária”, declarou.
Segundo o profissional, que atua há mais de 20 anos na área de hemodiálise, a alta rotatividade compromete a qualidade do atendimento em um setor que exige profissionais especializados. “A maioria dos funcionários não tem experiência nenhuma em hemodiálise, que é um tratamento complexo e precisa de mão de obra treinada e qualificada. Mas com o salário que oferecem e o ambiente tóxico não para ninguém. Tem muita rotatividade de funcionários e sobrecarga aos mais antigos. Nunca a equipe está completa”.
O ex-funcionário também afirmou existir diferença entre o atendimento prestado a pacientes do SUS e os de convênios. “O tratamento é diferente, SUS para um lado e convênios para outro. O que dá lucro é paciente de convênio. Não tem isonomia nenhuma.”
Ao comentar os episódios recentes de pacientes que passaram mal, ele apontou a possibilidade de falha humana no processo de reprocessamento dos materiais utilizados nas sessões de hemodiálise, como linhas e capilares.
Segundo o técnico, os equipamentos passam por esterilização em um setor chamado “reuso”, onde é aplicado um produto químico conhecido como Proxitane. Na avaliação dele, alterações na diluição ou até mudança de fornecedor podem ter comprometido o processo.
“Ou houve falha na diluição, muito diluído, ou baixa qualidade do produto químico, ou troca de fornecedor do produto com diluição e concentração diferentes, o que é o mais provável”, afirmou.
Ele explicou que, nessas condições, a esterilização deixa de atingir o nível necessário de segurança. “Não houve uma esterilização de alto nível. Provavelmente essa foi a causa de os pacientes terem passado mal".
Outra hipótese levantada pelo ex-funcionário é a permanência de resíduos químicos nos equipamentos antes do início do procedimento. “Também é uma hipótese bem provável ter ligado os pacientes com resíduos de Proxitane, que também é uma falha humana por falta de capacidade técnica.”
Pacientes também relataram problemas estruturais na clínica. Pelo canal Direto das Ruas, uma mulher enviou vídeo mostrando a sala onde são realizados os procedimentos e reclamou do calor no ambiente.
De acordo com ela, o ar-condicionado do espaço não funciona há mais de um mês. “Na sala dois tem muito paciente passando mal porque fica quente demais”, relatou.

Notas oficiais - A clínica DaVita informou, por meio de nota, que está apurando e acompanhando os fatos relatados por pacientes da unidade de Campo Grande na última semana.
A empresa afirmou ainda que toda a assistência necessária está sendo prestada, com acompanhamento contínuo da equipe médica e da equipe assistencial, além de suporte aos familiares.
A clínica também reforçou o compromisso com a segurança, a qualidade do atendimento e o cuidado prestado nas unidades.
Já a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde Pública) disse que, até o momento, não recebeu comunicação oficial sobre as situações envolvendo pacientes atendidos na clínica de hemodiálise. A pasta afirmou ainda que os serviços de hemodiálise são acompanhados e fiscalizados por órgãos estaduais competentes, incluindo as ações de Vigilância Sanitária voltadas a esse tipo de atendimento especializado.
Segundo a secretaria, eventuais investigações sobre as ocorrências, assim como informações relacionadas à fiscalização, causas clínicas ou adoção de medidas na unidade, devem ser conduzidas e confirmadas pelos órgãos responsáveis e pela própria clínica.
A Sesau também declarou que acompanha com atenção situações que envolvam assistência à saúde da população e que permanece à disposição para colaborar dentro de suas competências institucionais, caso seja oficialmente acionada.
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