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Capital

Na 13ª tentativa de reabilitação, covid deu a Judson uma chance contra as drogas

Assistência Social foi obrigada a abrir espaço para moradores de rua e lugar virou esperança para recomeço

Por Aletheya Alves | 05/05/2021 06:29
Em seis anos, Judson Pereira Borges passou por treze locais para reabilitação. (Foto: Paulo Francis)
Em seis anos, Judson Pereira Borges passou por treze locais para reabilitação. (Foto: Paulo Francis)

Nos últimos cinco meses, Judson está "limpo" das drogas. A esperança de reabilitação veio de um jeito irônico, em meio a pandemia. Há anos sem política efetiva para pessoas que vivem nas ruas - a maioria usuários de drogas - a chegada da covid impôs a ampliação de espaços que servissem de abrigo para esse público. Para alguns, foi a salvação.

Em um dos centros de acolhimento da SAS (Secretaria Municipal de Assistência Social) criados pela prefeitura para enfrentamento do coronavírus, entre os moradores de rua, Judson Pereira Borges é a esperança para quem sabe o quanto a dependência química é trágica.

Hoje na Escola Municipal Professora Maria Regina de Vasconcelos Galvão, ele conta que já passou por 13 endereços de internação.

Em um ano e dois meses, 2.063 pessoas foram acolhidas nas unidades destinadas a moradores de rua, migrantes e estrangeiros em Campo Grande. Hoje, apenas 189 continuam dividindo as paredes dos quatro locais, são menos de 10% do total que seguem nos abrigos.

Escola Professora Maria Regina de Vasconcelos Galvão está sendo usada como acolhimento. (Foto: Paulo Francis)
Escola Professora Maria Regina de Vasconcelos Galvão está sendo usada como acolhimento. (Foto: Paulo Francis)

Ao total, Judson passou por 8 anos de vício e 6 procurando por ajuda. “Da última vez eu estava trabalhando em uma clínica e acabei saindo de lá. Sai direto com o pensamento de usar [drogas], mas ninguém planeja parar na rua. Como das outras vezes isso não aconteceu, achei que não iria mesmo”, o acolhido explica.

Sem ter dinheiro e novo local para ir, ele conta que ficou por mais de uma semana nas ruas até que se envolveu em discussão com outro usuário de drogas. “No último dia o usuário veio para cima de mim com um espeto e conseguiu colocar na minha perna. Aí resolvi pedir esse último socorro”, completa. Sem ter nem mesmo a própria confiança, ele relata que o maior problema nesse sentido é se enganar.

A gente acha que está bem e vai embora. Isso de se enganar é o pior, então aqui eu estou levando como reabilitação mesmo porque é difícil. Não quero continuar construindo confiança e quebrando depois. Na hora que você tá usando você não sente o peso, mas depois vê os resultados, Judson diz.

Para Judson, ter completado 13 paradeiros e pensar que esse precisa ser o último se vincula ao que ele chama de buraco.

"Das outras vezes eu conseguia dar um jeito, mas as portas começam a se fechar. Principalmente as pessoas que te amam começam a não saber o que fazer. É um buraco que eu me arrasto e levo outras pessoas comigo porque não tenho onde me segurar. As pessoas te afastam para que você não carregue elas também”, Judson narra.

Quebra do ciclo - Entre os que estão permanecendo por mais tempo na mesma unidade de Judson e tentando quebrar o ciclo repetitivo visto pelos corredores, Raphael de Azevedo Nass, de 27 anos, conta que depois de 10 anos como dependente químico resolveu procurar ajuda. “Não tenho pressa, sei que é difícil e que preciso passar por várias etapas. Aqui surgiu a ideia de estudar para fazer concurso para a Guarda, quero mudar minha história”.

Raphael de Azevedo Nass, de 27 anos, conta que está estudando para concurso. (Foto: Paulo Francis)
Raphael de Azevedo Nass, de 27 anos, conta que está estudando para concurso. (Foto: Paulo Francis)

Se desvencilhando do passado, ele explica que procurar ajuda tem envolvido se forçar a permanecer sem fugir. “Estou aqui há quatro meses e conseguiram um trabalho para mim, mas funciona porque eu quero. Quem não quer, não consegue ficar. Estou estudando, já foram dez anos perdidos”, conta.

Enquanto continua saindo apenas para trabalhar, Raphael relata que imergir no distanciamento das ruas faz parte de um presente ligado a sonhos antigos. “Eu queria ter uma boa vida, com droga você cansa porque perde tudo. Minha filha tem quatro anos e não posso ver ela, mas não reclamo. Prometi que ia terminar minha reabilitação e só assim ia voltar para os braços dela”.

Problema sistemático - Para a coordenadora da unidade, Maria do Carmo Oliveira, a grande dificuldade é a saída dos acolhimentos sem completar o ciclo de recuperação. “Quando eles resolvem sair antes do tempo adequado nós perdemos porque é muito difícil. Eles voltam para as drogas”, explica. De acordo com Maria do Carmo, hoje o acolhido que sai da unidade pode retornar, mas apenas depois de passar por todas as outras etapas de atendimento da SAS.

Conforme a coordenadora explica, a ideia dos acolhimentos é justamente fazer com que as pessoas saiam do vício e, com apoio institucional, reconstruam suas vidas.

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Nós fazemos essa ponte para que eles consigam empregos regulares. Depois disso ainda continuamos monitorando por um tempo, queremos ter certeza que conseguiram, Maria do Carmo explica.

Apenas na Escola Municipal Maria Regina de Vasconcellos Galvão, 20 pessoas receberam documentação pessoal, cinco conseguiram alugar uma casa, 23 foram reconduzidos para suas famílias e 16 conquistaram emprego formal.

Atendimento especializado - A SAS possui o Serviço Especializado em Abordagem Social que funciona 24h. O objetivo é estabelecer vínculos com os usuários, assegurar o trabalho de abordagem e manter busca ativa. Denúncias e contato podem ser feitos através dos números (67) 98404-7529 e 98471-8149.

Além da Escola Municipal Professora Maria Regina de Vasconcelos Galvão, outras três unidades realizam o acolhimento. Entre as quatro, duas são provisórias e estão sendo desenvolvidas em escolas. Com o retorno das aulas, a ideia da SAS é que essas pessoas sejam redirecionadas para outros acolhimentos.

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