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Capital

"Resistindo" em escolas, moradores de rua torcem por projeto pós-pandemia

Desde março, 390 pessoas já passaram por escola em projeto criado pela prefeitura, mas apenas 47 permaneceram

Por Aletheya Alves | 06/08/2020 08:31
Espaço entre pavilhões de escola recebeu varal de roupas para moradores. (Foto: Silas Lima)
Espaço entre pavilhões de escola recebeu varal de roupas para moradores. (Foto: Silas Lima)

Há 133 dias, a Escola Municipal Doutor Plínio Barbosa Martins, no Jardim das Macaúbas, foi transformada em Centro de Acolhimento Institucional. Com isolamento da pandemia, o prédio perdeu o barulho de crianças e passou a receber moradores de rua para tentar conter a disseminação do novo coronavírus.

Apesar de emergencial, foi o primeiro projeto efetivo para essa população, que na maioria das vezes tem o agravante da dependência química. Agora, a pergunta que ronda o lugar é: o que vai acontecer depois da covid-19?

“A gente nunca imaginou que seria criado algo como esse centro, ainda mais por causa de uma pandemia. Fora de cogitação”, diz a coordenadora do local, Maria do Carmo Oliveira. Ela deslocou a atenção específica do cargo no Centro Pop (Centro Especializado para População em Situação de Rua) e Seas (Serviço Especializado em Abordagem Social), para focar no trabalho de convivência.

Palco recebeu espaço para televisão no pátio da Escola Municipal Doutor Plínio Barbosa Martins. (Foto: Silas Lima)
Palco recebeu espaço para televisão no pátio da Escola Municipal Doutor Plínio Barbosa Martins. (Foto: Silas Lima)

Medo e surpresa talvez sejam as palavras que resumam os sentimentos dos moradores e funcionários antes de fazer parte do local. De acordo com a coordenadora, cada um dos oito servidores até então estavam em funções que não se assemelhavam ao acolhimento.

Há três meses isolado no centro, Marcos Vinícius Faria, de 33 anos, expõe seu artesanato no pátio da escola.

“Quando foram pela primeira vez na rodoviária antiga, eu fiquei com medo e não quis vir. A gente via a abordagem dos policiais e não sabia se tinha liberdade para sair do lugar que iam levar todo mundo. Minha ideia e dos outros que estavam na rua era que a gente ia ficar preso”.

Marcos Vinícius faz tapetes de crochê para passar o tempo. (Foto: Silas Lima)
Marcos Vinícius faz tapetes de crochê para passar o tempo. (Foto: Silas Lima)

Ironicamente, a necessidade foi mais ou menos essa. Depois de um ano dormindo cada dia em um canto diferente da rua, Marcos diz que resolveu “arriscar”.

“Acordei um dia e cansei, aí fui no Centro Pop e pedi um lugar. Tô sem sair daqui já tem tempo, mas é por escolha mesmo. A gente só não sabe o que vai acontecer depois do coronavírus”.

Na mesma situação de dúvida, está Emerson Santos da Silva, de 37 anos. Ele foi localizado por equipe do Seas, "estou gostando da experiência, mas nunca imaginei viver isso na pandemia".

Baseado na Constituição Federal de 1988, Artigo 5º, a pessoa que está na rua tem a opção de permanecer ou não no Acolhimento Institucional oferecido pela SAS (Secretaria Municipal de Assistência Social). Fica por ali quem deseja.

Quadro negro virou acessório de quarto - De 390 pessoas que já passaram pelos dormitórios, apenas 47 permanecem por lá. Divididas por pavilhões, 17 salas abrigam camas que alojam homens e mulheres. O pátio, agora tem exposição de artesanato, o espaço entre as salas recebeu varal de roupas e a quadra é ocupada pelo futebol diário.

Salas de aula se tornaram dormitórios improvisados durante o período da pandemia. (Foto: Silas Lima)
Salas de aula se tornaram dormitórios improvisados durante o período da pandemia. (Foto: Silas Lima)

Gerente de alta complexidade da SAS, Artêmio Versoza explica que ideias estão sendo discutidas para manter a nova metodologia desenvolvida nos Centros de Acolhimento. A consequência da pandemia mostrou que é necessário trabalhar com ações específicas para cada público.

“Temos outras três unidades. Uma escola destinada para migrantes e estrangeiros, o Centro Dia para idosos e o Centro de Triagem e Encaminhamento do Migrante, que ficou para população em situação de rua, mas que possui algumas complicações. Percebemos a melhora no serviço durante esse tempo de trabalho e a ideia é manter a forma de acolhimento empregada aqui”.

Sobre a rotatividade de usuários do serviço, o advogado, Walter Cristaldo de Oliveira, de 39 anos, diz que é “um trabalho sem fim” e que maior questionamento entre os moradores é sobre o cenário "pós-pandemia". Mesmo com o modelo estar se mostrando eficiente, muitos moradores acabam indo embora.

“Muita gente sai, muita gente entra. É engraçado porque as pessoas achavam que os moradores iam quebrar a escola inteira, mas é o contrário. Até horta a gente tá desenvolvendo”.

Espaço para horta está sendo preparado pelos moradores. (Foto: Silas Lima)
Espaço para horta está sendo preparado pelos moradores. (Foto: Silas Lima)

Equipe e estrutura - Conforme informado pela assessoria da SAS, todos os acolhimentos possuem atendimento psicossocial, alimentação (cinco refeições diárias), material de higiene e limpeza, lençóis, toalhas, camas com colchões, alas masculina, feminina e de isolamento, banheiros, refeitórios, quadra de esporte, televisão, jogos e atividades socioeducativas.

Já o quadro de funcionários é composto por coordenador, assistente social, psicóloga, educador ou cuidador social, motorista, auxiliar de manutenção, merendeira e guarda municipal. Cada uma das unidades possui espaço suficiente para acolher 60 pessoas.

Acolhimento - As abordagens realizadas por equipes do Seas (Serviço Especializado em Abordagem Social continuam em ação. No contexto da pandemia, os agentes informam sobre o risco social) devido a situação de vulnerabilidade.

Quatro locais estão em ação, a Escola Municipal Pe. Tomaz Ghirardelli, com migrantes e estrangeiros; Escola Municipal Doutor Plínio Barbosa Martins e Centro de Triagem e Encaminhamento do Migrante, com população de rua e Centro Dia para idosos.

Para entrar em contato com a SAS e informar sobre moradores de rua que precisam de acolhimento, o Seas atende pelos números (67) 98404-7529 e 98471-8149.

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