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Na favela que mudou para meio do nada, morador se sente esquecido

Por Adriano Fernandes | 26/12/2016 17:49
O loteamento Bom Retiro fica na Vila Nasser, no limite do perímetro urbano de Campo Grande. (Foto: Adriano Fernandes)
O loteamento Bom Retiro fica na Vila Nasser, no limite do perímetro urbano de Campo Grande. (Foto: Adriano Fernandes)

Segundo os próprios moradores, já são no mínimo 136 famílias que ainda aguardam a conclusão de casas populares no loteamento Bom Retiro, na região do Bairro Vila Nasser, em Campo Grande. Esta é uma das áreas para onde foram transferidos habitantes da favela Cidade de Deus, em março deste ano.

Por lá, nas cinco quadras de uma área onde seriam construídas as novas moradias o que se formou é uma espécie de “oásis” de barracos, entre as poucas residências ainda sem concluir e o cerrado de uma das regiões mais distantes do Centro de Campo Grande.

Para moradores, a sensação ainda é de descaso e abandono, diante de um local que poderia ser o sinônimo de moradia digna. “Eles não podiam ter nos transferido para cá, sem que aqui tivesse uma estrutura melhor do que na Cidade de Deus. O fato é que a gente ainda continua morando em barracos, ao lado de casas que nunca foram terminadas, e esquecidos”, se queixa a auxiliar de serviços gerais Inês Corrêia, de 49 anos.

Por três anos ela morou na outra extinta favela e até arrisca listar as poucas melhorias ao comparar a antiga moradia com a atual. Mas a situação não é muito animadora, segundo ela.

“Aqui ao menos quem paga, tem água, energia, por mais absurdos que ainda venham os valores de algumas contas. Mas se chove a água entra por todo o lado. As marcações que foram feitas nos terrenos já até sumiram e não há sequer uma previsão de quando essas casas serão terminadas”, conta.

Os barracos de lona e madeira foram construídos nos fundos das casas inacabadas. (Foto: Adriano Fernandes)
Os barracos de lona e madeira foram construídos nos fundos das casas inacabadas. (Foto: Adriano Fernandes)

Ela mora na rua Matias Henrique Alle, por onde nenhuma casa que seria feita por meio do “mutirão assistido", foi iniciada. Nessa modalidade a prefeitura banca 40% da construção e o morador paga os 60% restantes em longo parcelamento, já incluído o valor do terreno.

Mas como desde outubro, segundo os moradores, nenhum servidor trabalha para erguer as estruturas o trabalho voltou a estaca zero. “Aí o que prevaleceu foi a lei da selva. Quem podia arcar com um pedreiro chegava e pegava o material que a prefeitura sedia e construía. Mas como a grande maioria também não tem esse dinheiro, as poucas casas construídas estão pela metade e o que sobrou de areia, você vê amontoado entre uma rua e outra”, se queixa.

Além de morador na favela o desempregado José Carlos Barbosa, de 55 anos, também foi um dos contratados pela Morhar Organização Social, e que se viu prejudicado com o sumiço da empresa que era responsável por auxiliar na construção das casas populares.

“O ultimo sinal de pagamento que eles nos deram foi em outubro e desde então, não tivemos mais noticias. Em seguida vieram as manifestações pelo atraso dos salários e a situação se tornou ainda mais grave”, comenta.

No meio do nada – O loteamento Bom Retiro ocupa uma área que antes era apenas cerrado, nas proximidades da universidade UCDB, no limite do perímetro urbano da região norte de Campo Grande.

Após a transferência dos antigos moradores para o local, a especulação imobiliária de que os novos vizinhos pudessem marginalizar o local, desanimou que os possíveis compradores interessados em adquirir um imóvel no bairro.

Ao lado da favela, ainda é fácil, por exemplo, encontrar novas residências recém-construídas e já com placas de vende-se ou até mesmo inacabadas. E o abandono de uma região que é incentivado pelos próprios construtores é nítido também diante do descaso publico.

É unânime entre quem mora na favela que a má localização do loteamento, dificulta o acesso ao trabalho então eles cobram mais linhas de ônibus. Na rua Antônio Barbosa de Souza, lateral do loteamento, o ônibus da linha Bom Retiro/Vila Dedé passa somente às 06h, 12h e 18h.

A estimativa dos moradores é de que tenham sido iniciadas 70 casas no loteamento. Todas estão pela metade. (Foto: Adriano Fernandes)
A estimativa dos moradores é de que tenham sido iniciadas 70 casas no loteamento. Todas estão pela metade. (Foto: Adriano Fernandes)

“O que a gente mais precisa aqui, além de um teto digno é de ônibus”, diz a desempregada Maria Moreira da Silva, de 74 anos. “Quando eu ainda morava na Cidade de Deus ao menos eu não ficava sem trabalhar, mas aqui, a gente não consegue recursos para ir para o serviço, porque é muito distante de tudo. O ônibus não passa com frequência”, completa.

A também desempregada Sebastiana Moura, de 53 anos, é ainda mais crítica. “Eu preferia mil vezes ter continuado lá do que ter sido trazida como lixo e despejada aqui. Eu perdi meu emprego porque cheguei muito atrasada por conta desse ônibus. E se uma criança fica doente? E se uma gestante precisar ser atendida com urgência ? Como que uma criança volta da escola sendo que o horário do ônibus não ´bate` com a saída da escola ? “, questiona.

A sensação de abandono é ainda maior durante a noite, conforme explica a também desempregada Margarida Moura, de 62 anos. “A noite isso aqui vira um breu. Tem poste e até lâmpada, mas energia que é bom por essas ruas a gente não tem. É comum a gente sair aqui fora e dar de cara com um tamanduá, cobras”, conta.

Ela, o filho, a nora e os dois netos moram em dois barracos da rua Pedro dos Santos, no loteamento. Na frente das construções improvisadas com lona e madeira, também estão as duas casas de alvenaria que eram para ser da família, construídas pela metade, mas que ela espera quem em 2017 sejam concluídas.

“Eram para ser duas casas, uma do lado da outra, mas estão nessas condições. Pela metade. Enquanto isso a gente vive nos fundos da casa digna que era para ser nossa. Vivendo em baixo de lonas. Sem dormir toda vez que chove, por que a água toma conta de tudo”, completa.

Segundo os moradores ainda vivem em barracos no loteamento cerca de 136 famílias a espera da conclusão das casa de alvenaria. (Foto: Adriano Fernandes)
Segundo os moradores ainda vivem em barracos no loteamento cerca de 136 famílias a espera da conclusão das casa de alvenaria. (Foto: Adriano Fernandes)
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