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Campo Grande, Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017

15/03/2016 16:19

Em nova etapa de mudança, famílias saem de favela para o 'meio do nada'

Ricardo Campos Jr.
Morador começa a carpir lote onde construirá barraco em loteamento (Foto: Alan Nantes)Morador começa a carpir lote onde construirá barraco em loteamento (Foto: Alan Nantes)
Moradores descarregam mudança (Foto: Alan Nantes)Moradores descarregam mudança (Foto: Alan Nantes)

A Prefeitura começou nesta terça-feira (15) a remover mais moradores da favela Cidade de Deus. O destino, dessa vez, é o loteamento Bom Retiro, na região da Vila Nasser, norte da cidade, no limite do perímetro urbano de Campo Grande.

Das 84 famílias que devem ir para o local, 17 se mudaram nesta tarde. A felicidade de ter um terreno próprio contrasta com a falta de estrutura, a desorganização da transferência e a distância da nova moradia.

Funcionários do Proinc (Programa de Inclusão Profissional) ajudaram a desmanchar os barracos. Os pertences das pessoas que estavam de mudança foram colocados em caminhões contratados pelo município.

Os moradores embarcaram em três ônibus cedidos pelo Consórcio Guaicurus. O comboio foi escoltado pela Guarda Municipal. A movimentação chamava a atenção pelas ruas. De repente, o asfalto deu lugar à estrada de chão e no local onde parecia acabar a cidade os veículos estacionaram.

Pouco a pouco, as pessoas começavam a conhecer seus novos lares enquanto os funcionários da prefeitura começaram a montar as tendas para a distribuição dos terrenos. O local não estava pronto.

Senhas foram distribuídas e os moradores já sabiam a ordem dos lotes e os fretistas começaram a descarregar a mudança.

Para a manicure Letícia Magalhães, 31 anos, teria sido melhor se o município primeiro tivesse feito o mutirão para construir as casas e depois fizesse a transferência. “Eu não gostei porque não estava preparado e a situação é precária. Eu achei errado virmos para cá sem ter nada. Agora nós ficamos no relento, a ver navios”, afirma.

Ela preferia ter ido para o Vespasiano Martins, junto com os vizinhos levados na primeira fase de transferência. “Lá eu ficaria perto das minhas clientes. Aqui só tem mato”.

A divisão dos moradores da Cidade de Deus, segundo ela, foi feita por sorteio. Assim, teve que deixar para trás a mãe e a irmã, que irão para outra área. “Estou apostando agora nesse mutirão”, afirma.

Mudança dos moradores da favela Cidade de Deus (Foto: Alan Nantes)Mudança dos moradores da favela Cidade de Deus (Foto: Alan Nantes)

Já o padeiro Thiago Siqueira Caxias, 20 anos, não trocaria o Bom Retiro. “No Vespasiano Martins alaga. Aqui não alagando, já é bom demais, tendo um negócio que é nosso, o resto a gente resolve”, diz otimista.

Ele já conhecia a região e sabia para onde iria. Apesar da certeza do espaço próprio, é difícil esconder os pontos negativos. “É meio difícil. A gente deixou amizade, família. Tem gente que deixou até emprego para vir para cá”, comenta.

Caxias também considerou o processo de mudança desorganizado. “Eu acho que deveria ter uma estrutura melhor para não ficar do jeito que está, Tinha que ser um negócio mais organizado”.

O mecânico Jorge Paredes, 51 anos, trabalha em uma oficina do Trevo Imbirussu, entroncamento das avenidas Bandeirantes, Marechal Deodoro, Manoel da Costa Lima e da Rua Brilhante. “Eu uso bicicleta, agora ficou bem difícil”.

“Achei a transferência desorganizada. Se tivesse como chegar e já cair dentro de um barraquinho, mas não tem nada aqui. Nós estamos desbravando”.

Ele espera que o município forneça materiais para a construção das moradias provisórias, já que do barraco dele na favela só conseguiu salvar quatro vigas de madeira. “O material não aguentou. Desmontei lá e só consegui manter os caibros. Espero pelo menos que tenha uma lona para eu jogar por cima”.

A aposentada Nailda dos Santos Araújo, 55 anos, está contente com a mudança. “Eu vou ter um lugar só meu. Aqui pelo menos eu posso fazer benfeitorias”. Porém, a distância e a falta de noção sobre os espaços públicos mais próximos são dificuldades a serem superadas.

“Eu gostei daqui, mas eu faço tratamento para o pulmão e tenho medo se eu precisar de socorro durante a noite. Aqui está mais para uma fazendinha”.

Cada lote tem rede elétrica e água encanada. Barracos serão erguidos para os moradores se abrigarem até que comece o mutirão para erguer as casas populares, moradias definitivas cujas obras terão a orientação de engenheiros e estagiários.




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