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Capital

"Não arrancaram a cabeça, pois a faca quebrou", diz delegado em julgamento

Delegado disse que acusadas pela morte tinham orgulho em falar que tentaram arrancar cabeça da vítima

Por Dayene Paz | 21/10/2021 12:23
Jessica, de amarelo, Lislie, de vermelho e Luquen. (Foto: Dayene Paz)
Jessica, de amarelo, Lislie, de vermelho e Luquen. (Foto: Dayene Paz)

"Fizeram questão de falar que elas cometeram o homicídio a mando do PCC, querendo atribuir com orgulho o crime, que tentaram arrancar a cabeça, mas não conseguiram, pois a faca quebrou". O depoimento é do delegado Dimitri Palermo, que presidiu as investigações sobre o assassinato de Sorraira Cabritta Campos, 24 anos, depois de ser julgada pelo "tribunal do crime", em Campo Grande.

Palermo prestou depoimento em mais uma sessão de julgamento no TJMS (Tribunal do Júri de Mato Grosso do Sul), nesta quinta-feira (21), envolvendo assassinatos a mando do PCC (Primeiro Comando da Capital) pelo "tribunal do crime".

Primeiro a ser ouvido por videoconferência em sessão pelo juiz Carlos Alberto Garcete, o delegado declarou que após serem presas, suspeitas pelo crime, Jessica Moreira e Lislie Silva Vargas, contaram com riqueza de detalhes como executaram o crime. "Descreveram todo o modus operandi, com riqueza de detalhes. Falavam naturalmente que desferiram golpes na tentativa de decapitação, mas a faca quebrou. Uma ainda fez questão de falar que raspou a vítima até o tronco", disse Palermo.

Já em juízo, Jessica negou participação no assassinato e manteve a negativa no julgamento desta quinta. Disse que ela e Lislie conheceram Luquen Luis Martines dos Santos - também réu pelo crime - em um baile, no dia anterior a prisão. "Eu sou inocente nessa situação. Dormi na casa onde fui presa, porque fui numa festa. A polícia chegou querendo informação que a gente não tinha e para não apanhar mais, acabamos confessando", alegou.

Jessica, assim como Lislie, afirmam ter sido torturadas para confessar o crime. Contestadas pelo próprio juiz sobre o motivo de não terem falado da suposta tortura durante audiência de custódia, disseram que ficaram com medo de voltar para a delegacia e apanharem mais.

Trio durante julgamento nesta quinta. (Foto: Dayene Paz)
Trio durante julgamento nesta quinta. (Foto: Dayene Paz)

Durante o julgamento, os depoimentos das duas continham vários pontos contraditórios. A contradição se tornou maior ainda após o interrogatório de Luquen.

Isso porque, Jessica e Lislie contam que o rapaz não estava na casa no momento em que foram presas, fato registrado pela polícia na época do crime. "Reviraram tudo, até jogaram roupas de crianças que estavam na máquina de lavar", disseram as duas, destacando que viram Luquen saindo momentos antes da residência.

Já Luquen conta que quando viu a polícia, correu para dentro da casa e se escondeu. "Joguei as roupas da máquina em cima de mim e fiquei escondido dentro da casa, eles não me procuraram lá. Eu não sabia de homicídio, eu achei que eles estavam me procurando porque quebrei a condicional", disse. O trio alega que não conhecia Sorraira.

O caso - Após permanecer em cativeiro por cinco dias, Sorraira Cabritta foi julgada e condenada à morte pelo “tribunal do crime” do PCC em setembro de 2018. A vítima era suspeita de integrar o CV (Comando Vermelho) - facção rival. O corpo dela foi encontrado com vários golpes de faca, em uma área de mata, no Bairro Zé Pereira, em Campo Grande.

Conforme boletim de ocorrência, a polícia recebeu informação de que Luquen tinha envolvimento na morte da vítima. Ele foi visto dirigindo um Chevette Dourado com três mulheres no dia anterior ao crime e havia se escondido na Rua Atenas, no Jardim Inápolis.

Os militares foram até o local indicado. Ao perceber a movimentação da PM, Luquen fugiu. Os policiais foram recebidos por Lislie, que autorizou a entrada da equipe na residência, onde estavam Jéssica e uma mulher identificada como Esmeralda. Foram feitas buscas no entorno, mas o rapaz não foi encontrado.

Acesso ao local onde corpo da vítima foi encontrado. (Foto: Arquivo/Campo Grande News)
Acesso ao local onde corpo da vítima foi encontrado. (Foto: Arquivo/Campo Grande News)

Lislie e Jéssica mentiram o nome, mas depois falaram a verdade. As duas tinham mandados de prisão em aberto.

Questionada sobre o crime, Lislie confessou que tinha participação no homicídio e contou que recebeu ligação de um presidiário, cujo nome não foi divulgado. A ordem era para ir até uma residência no Núcleo Industrial, junto com Jéssica e outro homem, identificado apenas como Juliano - identificado posteriormente como sendo Luquen - para encontrar a vítima que estava mantida em cativeiro e a levar em Chevette até o local de execução.

No local, Juliano e Jéssica seguraram a vítima e Lislie a executou a golpes de faca. Depois fugiram no automóvel. Porém, durante o retorno, o carro quebrou. Os três, então, acionaram um motorista de aplicativo para irem embora. Mais tarde, Lislie e Jéssica foram a um baile e conheceram Esmeralda e Luquen.

Depois da festa, as três foram dormir na casa de Luquen. Indagada se o rapaz participou do crime, Lislie respondeu "que tinha coisas que não podia contar". Jéssica confirmou o fato relatado por Lislie. Foi apurado que Esmeralda não tinha envolvimento.

No local do cativeiro, na Rua Rosa Vermelha ao lado do lote 10 B Q 14, foram encontrados um short jeans com bolso rosa e um casaco azul, além de uma cópia de Certidão de Nascimento em nome de Tatiane Cristina Aranda Carneiro.

Conforme a polícia, Lislie tinha três mandados de prisão em aberto por tráfico de drogas. Jéssica tinha dois pelo mesmo crime. A vítima também tinha mandado de prisão em aberto por roubo.

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