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Capital

"Não sei se choro ou dou risada", diz aposentado ao recuperar Opala 1977 furtado

Veículo foi entregue a falso mecânico que sumiu com R$ 15 mil do aposentado e é procurado pela polícia

Por Ana Paula Chuva e Victória Costacurta | 01/10/2026 10:10


RESUMO

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O aposentado Nilson da Silva, de 73 anos, recuperou na quinta-feira (1º), na Defurv, em Campo Grande, o Opala 1977 que entregou a um falso mecânico em agosto, após pagar R$ 15 mil por uma reforma. O carro foi achado pela PM com o interior depredado, mas a lataria preservada. O suspeito, Dário Silveira de Oliveira, tem mandado de prisão em aberto e histórico de golpes desde 2015. O prejuízo é estimado entre R$ 80 mil e R$ 100 mil.

Um misto de lágrimas, alívio e a sensação de justiça. Foi assim que o aposentado Nilson da Silva, de 73 anos, recebeu seu  Chevrolet Opala 1977 na manhã desta quinta-feira (1º), na Defurv (Delegacia Especializada de Repressão a Roubos e Furtos de Veículos). O carro foi encontrado no final da tarde de quarta-feira (30), por equipe da PM (Polícia Militar).

Nilson foi vítima de um golpe em agosto deste ano quando levou o veículo até uma oficina no Bairro Santa Luzia. Na ocasião, o aposentado deixou o Opala sob os cuidados de Dário Silveira de Oliveira e pagou R$ 15 mil pela reforma do carro, que desde então não foi mais visto.

Na época, Nilson chegou a tentar contato com o falso mecânico e ir até a oficina que foi encontrada vazia. Ao aposentado, vizinhos do estelionatário confirmaram que o homem não era mecânico e que possuía histórico de golpes. Junto com o sumiço, veio ainda o bloqueio do contato feito por Dário.

Mas o baque emocional da perda do "xodó" cobrou um preço alto. Nilson passou cerca de 15 dias sem conseguir comer ou dormir direito, enfrentando crises de diarreia e sangramentos, e hoje, ao ver novamente o Opala, a emoção tomou conta do aposentado.

"Eu com 73 anos caí numa emboscada dessa no mês do meu aniversário. Não tenho nem palavras, é muita emoção. Eu não sei se eu choro ou se dou risada. sabe o que é engolir um gato vivo e tirar pelo rabo? Eu consegui", desabafou o idoso durante o resgate do automóvel.

O reencontro foi possível graças ao apoio de um amigo e vizinho que preferiu não se identificar. Ele acompanhou Nilson durante todo o caso e o ajudou a registrar a ocorrência no 2ª Delegacia de Polícia Civil.

"Eu conheço o seu Nilson, aí ele me falou da história e eu falei: 'vamos lá até na oficina pra ver se existe mesmo'. Chegamos lá, não tinha oficina nenhuma. O vizinho falou que a irmã do cara morava do lado e confirmou que ele nem era mecânico. Aí eu peguei ele e viemos no 2º Distrito DP para fazer a ocorrência", relatou o amigo e vizinho do aposentado.

A mobilização para recuperar o carro envolveu  equipes do Batalhão de Choque, da Defurv (Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Furtos e Roubos de Veículos) e da Polícia Militar, que constataram que o golpista já possuía mandado de prisão em aberto.

"Não sei se choro ou dou risada", diz aposentado ao recuperar Opala 1977 furtado
Nilson ao lado do Opala 1977 já em cima do guincho no pátio da Defurv (Foto: Alice Lemos)

Relíquia com história - O Opala 1977 resgatado tem um valor sentimental incalculável para o aposentado. Comprado em Tangará da Serra (MT) e restaurado em São Paulo (SP), o carro percorreu mais de 1.100 quilômetros em um caminhão cegonha até chegar à Capital, onde Nilson reside. Apaixonado por antigomobilismo, ele relata que já chegou a ter 11 carros antigos na garagem, mas hoje conserva apenas o Opala e um Jeep.

Apesar de o veículo ter sido encontrado com o interior depredado, com peças faltando, fiação revirada e sem o painel funcionando, a estrutura externa permaneceu preservada, o que trouxe alívio ao proprietário. Para ele, o prejuízo financeiro estimado entre R$ 80 mil e R$ 100 mil não diminui o valor de ter o bem de volta. "Para mim, dentro de casa ele valoriza muito mais do que dinheiro na poupança", afirmou.

 - Segundo Nilson, o destino imediato do Opala agora será uma oficina autoelétrica para revisão geral da bateria e dos fusíveis, seguida de uma lavagem detalhada e polimento. Após ver o carro pronto, o aposentado já planeja o futuro na estrada: a meta é voltar a frequentar encontros de carros antigos pelo país, como o tradicional evento em Águas de Lindóia (SP).

Ex-caminhoneiro que se aposentou aos 52 anos após uma vida inteira de trabalho no campo e nas rodovias, o idoso reforça que a honestidade sempre foi seu maior patrimônio.

"O mundo para mim foi a escola, o trabalho foi a faculdade. A única coisa que aprendi na vida foi ser digno e honesto, não dever para ninguém. Tudo o que comprei foi com o suor do meu próprio rosto. Aconteceu, e agora o negócio é confiar desconfiando para nunca mais cair em outra”, finalizou emocionado.


Golpista - Com mandado de prisão em aberto desde março deste ano, Dário aplicou o golpe em Nilson no mês de agosto, mas o homem já tem longo histórico de fraudes que começaram em 2015 quando foi aberto inquérito pela 5ª Delegacia de Polícia . Ele chegou a ser denunciado pelo MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) perante a 2ª Vara Criminal Residual.

Na ocasião, ele utilizava o nome falso de "Marcelo Silveira" e se apresentava como proprietário da empresa Dario Silveira de Oliveira ME.  Conforme os documentos, o golpista abordava trabalhadores desempregados oferecendo contratação imediata para prestadoras de serviço da concessionária de energia.

Para garantir a vaga, o estelionatário exigia adiantamentos em dinheiro, que variavam entre R$ 400,00 e R$ 850,00, alegando que os valores seriam destinados a cursos obrigatórios de capacitação em alta e baixa tensão, automação e habilitação do tipo "Coman". Nenhum curso era ministrado.

Ao ser interrogado pela Polícia Civil na época, Dário confessou os crimes, alegando que enfrentava dificuldades financeiras e aproveitou a oportunidade para obter vantagem ilícita.

A denúncia  foi formalmente recebida pela Justiça em dezembro de 2016. No entanto, o andamento processual enfrentou reviravoltas jurídicas: em 2019, o juízo competente declarou a nulidade da citação inicial por hora certa — devido à ausência de formalidades legais na entrega da correspondência de ciência —, anulando todos os atos processuais posteriores, incluindo a instrução criminal e as alegações finais.

Com o paradeiro incerto do réu, que não foi localizado para responder aos termos da ação, a citação precisou ser realizada por edital. Como o prazo transcorreu sem qualquer manifestação de Dário, o Ministério Público requereu a suspensão do processo e do curso do prazo prescricional, conforme prevê o artigo 366 do Código de Processo Penal. O caso segue sob monitoramento do Poder Judiciário.

"Não sei se choro ou dou risada", diz aposentado ao recuperar Opala 1977 furtado
Dario está com mandado de prisão em aberto e tem várias passagens por estelionato (Foto: Reprodução)

Ofertas de serviços - Outra denúncia aponta que, entre os meses de agosto e setembro de 2022, Dário, usando o nome falso de “Marcelo” para atrair vítimas em anúncios de prestação de serviços na plataforma OLX, causou prejuízo de R$ 220.132,80 a apenas um homem.

Segundo a investigação da Dedfaz (Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Defraudações, Falsificações, Falimentares e Fazendários), a relação começou quando a vítima contratou os serviços de um eletricista que se identificava como Marcelo. Após o início dos trabalhos e o pagamento antecipado de R$ 13.530,00 em mão de obra, os serviços não foram concluídos.

A partir disso, o autor passou a propor falsos investimentos e cobranças adicionais. Sob a promessa de lucros certos e garantidos de 500% a 700% em ações da Petrobras e do Itaú na bolsa de valores, a vítima transferiu R$ 193.325,00 via PIX. O homem fez repasse de R$ 5.277,00 para compra de insumos e reforma que nunca foram entregues, além de R$ 5 mil para o aluguel de uma caminhonete Hilux, veículo que nunca foi disponibilizado.

Os montantes transferidos via PIX tinham como favorecido o próprio Dário Silveira de Oliveira ou uma mulher apontada como esposa do suspeito. Diante dos fatos e da presença dos requisitos legais, o Ministério Público requereu o regular processamento da ação penal para que o denunciado responda pelos crimes previstos no artigo 171 do Código Penal.

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