Achadinhos de Pedro Juan viralizam e tiram turistas do roteiro tradicional
Conteúdos ampliam procura por pequenos comércios fora dos grandes centros de compras

Jaqueta de couro, tênis, roupas e itens para casa por preços que fazem brasileiros atravessarem a fronteira. Nas redes sociais, influenciadores de Mato Grosso do Sul estão mostrando que fazer compras em Pedro Juan Caballero, cidade paraguaia vizinha a Ponta Porã, pode ir muito além das grandes lojas já conhecidas. Os vídeos agora entram pelo comércio menor, mostram preços e localização e transformam lojinhas pouco conhecidas em novos destinos de “garimpo”.
RESUMO
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Influenciadores de Mato Grosso do Sul, como Thaís Sanches e Fernando Vicent, têm usado as redes sociais para divulgar lojas pequenas de Pedro Juan Caballero, no Paraguai, com preços, endereços e produtos como roupas, calçados e itens para casa. Eles dizem que os vídeos ajudam a desfazer a imagem de produtos falsificados, ampliam as opções de compra e atraem visitantes para além dos grandes shoppings. Os dois reconhecem os riscos de segurança na fronteira e recomendam cautela.
A influenciadora Thaís Sanches é uma das que apostam nesse tipo de conteúdo. Para ela, parte do interesse está justamente na sensação de descobrir algo que não aparece nos roteiros tradicionais.
“Quando nós vamos a um local menor, a gente tem aquela sensação de que está indo para garimpar, para descobrir algo ali dentro. E muitas vezes essa sensação é muito prazerosa, porque você vai e pensa: ‘Nossa, olha essa peça, que maravilhosa, por tantos reais’”, explica.
Preço também ajuda a entender por que os vídeos despertam tanta curiosidade. Thaís conta que encontra produtos que considera de boa qualidade por valores menores e cita como exemplo itens para casa.
Dependendo do produto, afirma que o dinheiro usado para comprar uma unidade no Brasil pode permitir levar 4 ou 5 no Paraguai. “Os achados de Pedro Juan compensam e por isso estão muito em alta e ganhando muito espaço entre os influenciadores. A gente consegue unir valor e qualidade de peça e produto”, afirma.
Só que a lógica do “achadinho” depende justamente de sair do caminho mais óbvio. Enquanto grandes estabelecimentos concentram uma variedade enorme de produtos no mesmo endereço, as lojas pequenas exigem disposição para procurar.
“Não é só porque tem grandes marcas, tem lojas de departamento, que não existe uma variedade de produtos, uma infinidade de coisas em lojas pequenas. Elas têm uma quantidade menor, porém é gostoso você ir ali achar, garimpar, descobrir as coisas”, diz Thaís.
Em uma dessas incursões, ela conta que comprou 34 peças por aproximadamente R$ 314 em uma loja no Centro de Pedro Juan Caballero. Antes de transformar a descoberta em indicação, porém, diz que prefere fazer o caminho como qualquer consumidor.
Entra sem se apresentar como influenciadora, olha preços e qualidade, compra os produtos e só depois os testa em casa. “Não faço divulgação de maneira alguma de nada sem eu ter validado isso. Só depois, aí sim, eu crio conteúdo para dividir com as pessoas”, explica.
Para Thaís, essa experiência pessoal é justamente o que ajuda a explicar a força dos “achadinhos” nas redes. Em vez de receber apenas a apresentação feita pela própria loja, o seguidor acompanha alguém comprando, testando e apontando o que funcionou ou não.
“As pessoas estão mais seguras em comprar de um influenciador que passa sua experiência logo em primeira mão do que de uma loja, de uma marca que está ali para vender o produto dela. Então, de qualquer forma, o produto dela vai ser lindo, maravilhoso, perfeito”, avalia.
O resultado pode aparecer rapidamente para quem está do outro lado do balcão. Thaís relata que um dos vídeos publicados sobre uma dessas lojas teve grande alcance e levou novos seguidores ao perfil do estabelecimento.
Para ela, mostrar endereço, valores e a experiência de compra reduz uma barreira importante: muita gente tem curiosidade de conhecer o comércio menor, mas não sabe onde procurar. “Quando a gente mostra localização, onde é, a forma de chegar e tudo mais, causa aquela segurança na pessoa de falar: ‘Não, eu vou lá conhecer e vale a pena ir’.”
O influenciador Fernando Vicent percebe movimento semelhante. Nascido e criado na região de fronteira, ele diz que o contato com o comércio paraguaio sempre fez parte da própria rotina, mesmo depois de passar anos morando fora. Algumas lojas já são velhas conhecidas, enquanto outras aparecem durante suas andanças pela cidade.
“Quem frequenta a fronteira sabe que existem muitas lojas menores, com produtos de qualidade, preços muito bons e que ainda são pouco conhecidas por quem vem de fora”, afirma.
Para Fernando, existe uma mudança principalmente naquilo que o brasileiro quer descobrir quando pesquisa sobre compras no Paraguai. “Eu percebo que esse tipo de conteúdo vem ganhando cada vez mais espaço, principalmente porque as pessoas estão se interessando em descobrir o que existe no Paraguai além das grandes lojas que todo mundo já conhece”, explica. Segundo ele, dar visibilidade aos estabelecimentos menores beneficia tanto comerciantes quanto consumidores interessados em ampliar as opções de compra.
Os vídeos também funcionam como uma espécie de roteiro pronto. Fernando observa que muita gente atravessa a fronteira e segue diretamente para os grandes shoppings, sem circular pelo comércio menor. Quando um influenciador entrega endereço, preço e mostra o que encontrou, parte do trabalho de pesquisa já está feita.
“As pessoas gostam de facilidade. Quando você mostra o que encontrou, os valores e a localização, você apresenta um caminho para quem está assistindo e desperta o interesse de conhecer aquele lugar também”, diz.
Furando a Bolha - Mas há outro efeito quando esses vídeos escapam da “bolha” de quem já conhece a fronteira. Fernando diz que conteúdos sobre Pedro Juan Caballero acabam chegando a pessoas de outros estados que nunca estiveram no Paraguai e carregam uma imagem antiga sobre o comércio do país.
“Ainda existe aquela visão antiga de que aqui só se encontra produto falsificado ou de baixa qualidade. Esses conteúdos também ajudam a quebrar um pouco essa imagem, mostrando que existem muitas lojas sérias, com produtos originais e preços mais competitivos”, afirma.
Assim como Thaís, Fernando diz que não transforma qualquer descoberta em recomendação. Ele afirma observar preço, qualidade, variedade e a experiência como consumidor antes de publicar.
“Não gosto de indicar simplesmente por indicar e não faço esse tipo de publicidade. Quando mostro uma loja ou um achadinho, quero que a pessoa que assistiu ao vídeo, decidiu ir até lá por minha indicação, encontre aquilo que mostrei e tenha uma boa experiência”, relata.
Thaís acredita que essa onda também está ajudando a colocar novamente o pequeno comércio de Pedro Juan Caballero no radar dos brasileiros. Segundo ela, durante um período, parte dos consumidores deixou de circular pelo centro da cidade e passou a concentrar as compras nos grandes estabelecimentos.
“Agora ele está voltando, principalmente pelo pequeno comércio e pelos influenciadores que estão explorando Pedro Juan e mostrando um cenário diferente do que as pessoas deduzem”, avalia.
Fernando quer levar essa redescoberta para além das sacolas de compras. Ele percebe que muitos visitantes chegam à fronteira, compram e voltam para o Brasil no mesmo dia, sem conhecer outras opções da cidade.
“Meu intuito é mostrar que a fronteira oferece muito mais e que vale a pena passar um fim de semana inteiro por aqui. Temos bons hotéis, restaurantes, gastronomia, opções de lazer, cassinos e outros lugares para conhecer. Quero mostrar Pedro Juan Caballero não só como um destino de compras, mas como um lugar onde a pessoa também pode aproveitar e viver outras experiências”, afirma.
A violência, entretanto, continua fazendo parte da imagem associada à região e os 2 influenciadores reconhecem o problema. Thaís diz que pesquisa previamente os lugares que pretende visitar e considera a segurança antes de seguir atrás de um “achadinho”.
“Pedro Juan Caballero é uma cidade que exige, sim, atenção e alguns cuidados. A gente sabe que região de fronteira enfrenta problemas relacionados à criminalidade. Por isso, eu mesma procuro ter bastante cautela quando estou lá”, afirma. Para ela, mostrar comércio, produtos e cotidiano não significa esconder essa realidade.
Fernando também percebe o receio de quem conhece a fronteira apenas pelo noticiário. Quando morava fora, conta que bastava dizer de onde vinha para surgirem perguntas sobre violência. “Um dos objetivos dos meus vídeos é mostrar que o cotidiano da fronteira vai muito além disso.”
“Mas também não quero vender a imagem de que o Paraguai é um paraíso ou um lugar sem problemas. Não é esse o propósito do meu conteúdo”, pondera. Entre um achadinho e outro, ele resume a proposta como uma tentativa de apresentar aquilo que costuma ficar fora das notícias: “Meu conteúdo é sobre mostrar o que existe aqui e permitir que as pessoas conheçam uma outra face da fronteira, além daquela que normalmente aparece no noticiário”.
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