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Capital

“Não sou um assassino, peço perdão”, diz motoentregador durante julgamento

Crime aconteceu no dia 13 de agosto do ano passado, em frente à lanchonete em que os dois trabalhavam

Por Geisy Garnes | 24/09/2021 10:29
Bruno durante depoimento na manhã desta sexta-feira. (Foto: Marcos Maluf) 
Bruno durante depoimento na manhã desta sexta-feira. (Foto: Marcos Maluf)

Sentado no banco dos réus, o motoentregador Bruno Cézar de Carvalho de Oliveira, de 25 anos, reviveu a semana em que matou Emerson Salles Silva, de 33 anos, e em diversos momentos, se emocionou. Contou que dias antes do crime, ocorrido no dia 13 de agosto do ano passado, a moto dele estragou e, por isso, não foi trabalhar por dois dias. Avisou aos patrões sobre os problemas e eles chamaram Emerson para cobrir as faltas.

Foi depois disso, lembra, que as discussões com a vítima começaram. "Não sei se ele estava passando por alguma dificuldade, não sei o porquê, mas ele começou a me chamar de moleque, irresponsável e falar que ia acabar comigo".

Essa primeira discussão, contou Bruno, aconteceu por mensagem e as ofensas virtuais, alegou, duraram por mais de um dia. "Passou a noite me mandando mensagem. Me xingou várias vezes, por mensagem. Me ligou, me ameaçando, me xingando e mesmo assim, eu não entendia, porque não fui eu que chamei ele para trabalhar".

Bruno só voltou ao trabalho na quinta-feira (13), dia do crime. Assim que chegou à lanchonete, na Avenida Mato Grosso, foi avisado por uma colega que Emerson estava "bravo". Quando se encontraram, a briga passou para o "presencial". "Ele começou a xingar que eu era um viado, era um lixo. Eu não aguentei, saí de perto. Ele veio atrás de mim".

Ele afirmou aos jurados que Emerson estava "descontrolado" e que não entendia a raiva dele, mas recebeu ameaças. "Agora eu acabo com você", afirma ter ouvido. Na tentativa de parar as agressões, tirou a arma que carregava dentro da bolsa, para "afastar" Emerson. "Tirei a arma da mochila, mostrei para ele, falei "'ó Emerson', para com isso, eu que arrumei o emprego para você, não vou aceitar você me bater, porque você está fazendo isso comigo?" Guardei a arma e aí ele me atacou, me deu vários socos".

A briga foi separada pelos colegas, mas Emerson insistiu na discussão. "Eu não entendi porque ele ficou daquele jeito, louco, lunático. Falou que eu não ia passar daquele dia, que ia entregar meu corpo para a puta da minha mãe". Foi nesse momento, lembrou Bruno, que o medo de ser morto e o cansaço pelas ofensas tomaram conta. "Peguei a arma e disparei duas vezes". Assim que confessou os tiros, extravasou a emoção acumulada na voz em lágrimas.

Chorando, Bruno afirmou que não queria ter matado Emerson. "Eu não quis fazer isso". Sem condições para continuar com o depoimento, o juiz Aluízio Pereira dos Santos suspendeu a sessão para o réu se acalmar. Alguns minutos depois, Bruno voltou ao plenário para responder as perguntas do juiz. Contou que tinha a arma para proteção pessoal, já que fazia entrega no período da noite e em bairros afastados. "Só andava com a arma depois da meia-noite."

Bruno durante julgamento, que começou por volta das 8h. (Foto: Marcos Maluf)
Bruno durante julgamento, que começou por volta das 8h. (Foto: Marcos Maluf)

Repetiu as ofensas que sofreu, as ameaças que ouviu da vítima e afirmou não lembrar do tiro a queima-roupa que deu em Emerson. "Eu não me lembro, só que no momento, eu vi que ia morrer, que ia apanhar ali, que ele ia entregar o corpo para minha mãe e eu não sei, não sei explicar para você, me desculpe", afirmou.

Visivelmente emocionado, repetiu que não se lembrava de detalhes do crime. "Não me lembro de muita coisa. Não consigo explicar como tudo isso aconteceu, senhor. Eu tentei evitar tudo isso, eu nunca quis fazer isso com alguém. Eu nunca quis atrasar minha vida, ainda mais tirando a vida de alguém".

Para o advogado, Alex Viana, Bruno lembrou que tinha o sonho de comprar a casa própria para se mudar com o irmão e a mãe, que era frequentemente agredida pelo tio dele. Deixou a faculdade de Direito e assumiu dois empregos para financiar o imóvel.

As 14 horas de trabalho por dia ajudaram a família a conseguir a casa. Eles começaram uma nova vida, quando o crime aconteceu. Sem a ajuda financeira de Bruno, a mãe e o irmão precisaram voltar para a morar com a família. "Eles não conseguiram pagar o financiamento sozinhos".

Chorando novamente, ele detalhou ao advogado que pediu para a mãe não assistir ao júri. "Para ela não escutar que o filho dela é um assassino, eu não sou, ela sabe disso". As lágrimas sufocaram a voz de Bruno, mas foi possível ouvir a última frase: “Eu não quis passar por isso. Eu não sou um assassino, peço perdão. Eu não gosto de conversar sobre isso, isso dói", lamentou. Ainda serão ouvidos o promotor e o advogado de defesa. O resultado do julgamento será divulgado no período da tarde.

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