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Capital

Nas ruas, população questiona: como ficar em casa se quase tudo está aberto?

Seja no centro ou nos bairros, a justificativa para estar nas ruas é a necessidade de trabalhar e comprar o indispensavel

Por Silvia Frias e Clayton Neves | 09/07/2020 11:18
Movimento no desembarque de ônibus no centro: vai e vem de quem precisa trabalhar, diz população (Foto: Paulo Francis)
Movimento no desembarque de ônibus no centro: vai e vem de quem precisa trabalhar, diz população (Foto: Paulo Francis)

No centro e nos bairros de Campo Grande, a vida parece seguir em ritmo habitual, com vai e vem constante e intenso nas calçadas e lojas. O “novo normal” se evidencia por conta do uso das máscaras, ao que parece, um dos poucos indícios da pandemia da covid-19. Quem sai às ruas, diz que é empurrado para fora de casa para trabalhar, já que o comércio foi autorizado a abrir as portas.

No boletim atualizado pela SES (Secretaria Estadual de Saúde), Campo Grande tem 3.812 infectados pela doença e 28 mortes. No Estado, são 11.671 contaminados, 608 novos casos em 24 horas. Os números não parecem assustar.

"Agora tá tudo aberto ao mesmo tempo, uma verdadeira bagunça”, avaliou o técnico em eletrônica Carlos Alberto de Oliveira, 55 anos. Ele mora no Jardim Noroeste e diz que foi ao centro da cidade para comprar peças em atendimento aos clientes que atende no bairro. Desde o início da pandemia e das restrições, diz que foi a 1ª vez que foi na região central, pois estava conseguindo comprar o que precisava pela internet.

Oliveira defende abertura escalonada, seja por dias da semana ou períodos matutino e vespertino. “A prefeitura precisa conter as pessoas, porque elas não estão levando a sério”, disse. O técnico acredita que, infelizmente, a conscientização somente acontecerá mediante algum trauma pessoal. “As pessoas só vão entender quando algum parente ficar doente”.

Carlos Alberto diz que achou "tudo uma bagunça" (Foto: Paulo Francis)
Carlos Alberto diz que achou "tudo uma bagunça" (Foto: Paulo Francis)

A aposentada Lúcia de Oliveira, 60 anos, mora em Ponta Porã e está na casa da filha, nas Moreninhas, para resolver “pendências urgentes”. Disse estar espantada com a quantidade de gente nas ruas e circulando pelo bairro. “Acho tudo isso uma falta de respeito, para falar a verdade, até uma sem-vergonhice”. Lucia diz que somente a imposição de mais restrições pode fazer com que as pessoas fiquem em casa. “Se a prefeitura intensificar, acho que aí vai ter mais colaboração do povo”.

A medida também é defendida pelo casal Fábio Lima Gamarra, 19 anos, e Bianca Dias, 18 anos. Os dois trabalham em um supermercado e, por isso, estão inseridos no grupo de serviço essencial,mas acreditam que nem todos as atividades precisariam voltar.

“Esse é o momento da prefeitura fazer igual fez no começo, fechar comércio, restringir ônibus”, disse Bianca. “E naquela época nem tinha muitos casos”, lembrou. “Quem ta na rua agora é trabalhador, poucos vem para passear”,diz Fábio, que concorda com maior restrição, mas acha que precisa ser estudada, já que as medidas foram bastante criticadas pelo setor varejista, que chegou a fazer carreatas em protesto.

Mercado é destino da maioria que sai às ruas (Foto: Paulo Francis)
Mercado é destino da maioria que sai às ruas (Foto: Paulo Francis)

A reportagem também foi até o bairro Moreninha I e constatou que é o mesmo cenário encontrado no centro: movimentação de pessoas nas lojas e mercados. Embora todos estejam de máscara, o distanciamento somente é lembrando quando entram em algum estabelecimento e, nem sempre, respeitado.

A diarista Elizete Oliveira Dias, 44 anos, reconhece o pouco empenho em cumprir o isolamento social. “Eu não sei por que tem tanta gente na rua, nem eu me controlo”. Diarista, voltou ao trabalho para poder pagar as contas e comprar o que comer. Por isso, precisa sair todo dia e aproveita o retorno para ir ao mercado. “Não poderia estar saindo, mas não tem como”.

Hoje, acompanhada da filha Paola, 8 anos, foi ao mercado comprar creme de cabelo e verduras e ainda iria passar no açougue e, depois, na escola da menina para buscar o material de estudo. “Sou só eu e ela, quando saio, ela tem que ir junto”, explica. Elizete acha que fechar comércio pode ser saída e permitir somente o funcionamento de serviço de entrega.

A dona de casa Claudiceia Pascoal Nunes, 34 anos, também foi ao mercado e disse que sai somente por necessidade. Esta semana, foi foi a primeira vez que saiu. Ela também defende aumento das restrições para impedir que as pessoas saiam de casa. “Povo não respeita a lei”.

Mesmo com frio, movimentação intensa em rua da Moreninha I (Foto: Paulo Francis)
Mesmo com frio, movimentação intensa em rua da Moreninha I (Foto: Paulo Francis)

No dia 25 de junho, em entrevista nas redes sociais, o infectologia Rivaldo Venâncio, coordenador de Vigilância em Saúde e Laboratórios de Referência da Fiocruz (Fundação Osvaldo Cruz), já alertava para a necessidade de mudança de postura dos governos, em decorrência do comportamento da população.

 “Nós estamos querendo que a população não vá ao shopping, mas os shoppings estão abertos; falamos às populações não irem aos bares, restaurantes, mas eles estão abertos (...), estamos falando para população não ir a locais onde possam aglomerar pessoas, mas não fazemos nada para impedir o funcionamento dessa rede”, disse o infectologista.