Parque que criou memórias frustra quem esperava curtir a aposentadoria no Sóter
Ao longo de 20 anos, o parque mudou e aposentada lamenta que estado de conservação do local

O Parque Ecológico do Sóter sempre fez parte da vida da administradora Silmara Brito Borges, de 52 anos. Há cerca de 20 anos, ela mora a uma quadra da área verde de 22 hectares, no coração da Mata do Jacinto, e toda vez que saía de casa para trabalhar, repetia a promessa de, um dia, curtir o parque.
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O Parque Ecológico do Sóter, em Campo Grande, sofre com o abandono e a falta de manutenção, apesar de ser vital para o lazer e a saúde dos moradores da Mata do Jacinto. Usuários relatam estruturas danificadas, brinquedos inutilizados e quadras esportivas precárias, o que levou frequentadores a financiarem reformas por conta própria. O descaso também impacta o comércio local, que deixa de atrair o público esperado devido à degradação da área verde e das instalações públicas do parque.
O sonho se tornou realidade quando se aposentou, há dois anos. Desde então, ela vai todos os dias ao Sóter: às segundas, quartas e sextas faz aula de ioga; às terças e quintas, tem aula de pilates.
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"Eu sempre passava aqui e falava: 'o dia que eu me aposentar, eu vou vir para esse parque, fazer essas aulas, vou curtir a vida'. E, quando eu me aposentei, a primeira coisa que eu fiz foi vir para cá. Eu sempre quis essa qualidade de vida, de poder cuidar do corpo e da mente. Porque eu acho que a gente não precisa aposentar para comprar remédio. Tem que aposentar para viver, não sobreviver", relata.
Silmara conta que a atual rotina foi muito esperada; porém, duas décadas depois, a realidade mudou e o parque com que ela sempre sonhou não é mais o mesmo.
Segundo ela, o Sóter foi praticamente um "quintal particular" do filho, Max Henrique, que cresceu brincando no parquinho e andando de bicicleta. Hoje, o parquinho não tem mais balanços nem o escorregador que o filho adorava.


"O parquinho precisa de manutenção porque, você vê, o meu filho brincou ali. O que o meu filho viveu aí, outras crianças não estão vivendo. E estão surgindo muitos prédios para cá, muita gente está vindo para essa região", completou. O local antes destinado às crianças também se tornou "deposito". Entre os brinquedos quebrados e inutilizados estão peças de equipamentos da academia ao ar livre.
A entrada do parque, localizada na Rua Hermínia Grize, já revela o estado de conservação: uma estrutura abandonada, com pinturas descascadas, grades danificadas e trechos da pista de caminhada quebrados. A grama cortada é o único sinal de que o parque não está abandonado.
De acordo com a Prefeitura de Campo Grande, em 2019 foi realizada a reforma das guaritas de entrada do parque, em frente ao Residencial Vitalitá. "Esses espaços sofreram atos de depredação. No momento, não há previsão orçamentária definida para uma nova reforma estrutural no parque", disse.
Mesmo assim, ter acesso a uma área de lazer pública é sinônimo de qualidade de vida. A nova rotina de Silmara inspirou a irmã, que se mudou com a família do interior de São Paulo para Campo Grande em novembro e fez questão de morar na Mata do Jacinto.
A retribuição de toda a família veio em forma de cuidado com o espaço. O filho e a sobrinha de Silmara plantaram um pé de ipê próximo ao parquinho. "Já que o parque faz parte da nossa história vamos fazer parque da história dele também", explicou. A mudinha é cuidada com atenção pelos adolescentes.

Os sinais de abandono também estão presentes na outra entrada do parque, localizada na esquina da Rua Cristóvão Lechuga Luengo com a Rua Antônio Rahe, onde se concentram as atividades esportivas como futebol de campo, futsal, funcional e vôlei.
O corretor de seguros, Fabrício Vitor Felipe, de 46 anos, frequenta o Sóter para jogar tênis. Ele ressalta a importância de ter uma quadra em um local público como o Sóter, mas isso é apenas o começo: "É um esporte de difícil acesso, então a gente consegue jogar aqui. Mas deveriam apresentar um projeto para, pelo menos, pintarem a quadra".
Para conseguir usar o local para praticar a modalidade, um grupo com mais de 40 pessoas se organizou e fez uma vaquinha para comprar os equipamentos necessários e fazer a pintura do local.

Impacto na economia – A precarização do Parque do Sóter também tem reflexos econômicos. A empresária Maria Clara da Silva, de 18 anos, apostou na localização em frente ao parque para abrir a cafeteria Kioko Luz Sana.
A ideia era atrair os frequentadores do parque com um cardápio fitness. "A gente achou que ligaria muito bem com a proposta do parque; muita gente vem correr, andar de manhã, tudo, mas hoje em dia o nosso público não é nada do parque", explica.
Segundo ela, as pessoas atravessam a cidade para frequentar a cafeteria. "É mais provável, por exemplo, pessoas virem do Parque dos Poderes", explica.

A empresária aponta que mesmo os projetos com aulas e atividades físicas não são suficientes para atrair o público. "É um parque que tem muito potencial, um parque muito bonito, mas acaba não sendo tão cuidado", finalizou.
Dados da Prefeitura apontam que cerca de 800 pessoas passam pelo Parque do Sóter todos os dias.
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