Por aplicativo ou som fake, sinos com mais de 500 kg ainda tocam na Capital
O mais pesado está entre os três da Paróquia São Francisco de Assis, mas não é o mais antigo

Os sinos ainda dobram em Campo Grande, mas não do mesmo jeito que antes. Agora, a maioria é automatizada e nem apertar botão precisa. A tradição segue viva nos motivos pelos quais eles badalam nas igrejas: para avisar que a missa vai começar, lembrar que o dia se divide em três momentos e que algo extraordinário no mundo religioso aconteceu, como a escolha de um novo papa ou a morte de um membro importante para a comunidade.
RESUMO
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Os sinos das igrejas de Campo Grande seguem badalando, mas com tecnologia moderna. Na Paróquia São Francisco de Assis, três sinos de cobre instalados nos anos 1950 são controlados por aplicativo. Na São José, quatro sinos datam da mesma época. No Santuário Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, o som é reproduzido por alto-falantes. Os toques comunicam missas e eventos religiosos, mas reclamações de moradores levaram igrejas a ajustar os horários das badaladas.
Os três gigantes de cobre da Paróquia São Francisco de Assis foram içados na década de 1950 e estão entre os mais antigos da cidade. O maior pesa mais de meia tonelada e é o mais imponente da Capital. Não dá para vê-los da fachada e nem de dentro da sala onde está o óculo (buraco no teto para acesso à torre onde os sinos ficam). Para ver, manusear ou limpar, é só por escada.
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Também não dá para ver do lado de fora nem sem escada os que ficam numa torre praticamente toda fechada na Paróquia São José. São quatro, o mais pesado com 350 kg. Eles foram instalados quase na mesma época que os da São Francisco.


Já os quatro do Santuário Nossa Senhora do Perpétuo Socorro podem ter começado a tocar um pouco antes do que os das duas paróquias. Segundo o padre Reginaldo Padilha, eles datam da construção da igreja, em 1941. No entanto, não badalam mais há anos. O som é fake, vem de alto-falantes que ficam ao lado dos sinos. Eles são visíveis da parte externa do campanário, mas ficam atrás de uma tela que evita a entrada de pássaros.
Outras igrejas onde há sinos são a Paróquia São Sebastião e a Paróquia Santa Luzia. Nesta última, os próprios fiéis custearam a instalação de um sino e do sistema automático para acioná-lo. Ele foi instalado há cerca de seis anos e pode ser o mais jovem de Campo Grande.
Incomoda ou não? - As pessoas acham bonito o som dos sinos da Paróquia São Francisco. O pároco, frei Pedro Renato Pereira da Silva, se surpreendeu ao confirmar com um pastor. “Ele fez um elogio. Disse que o filho, uma criança, sempre para aqui na frente para escutar o sino. Só vão embora quando termina de tocar”, conta.
Mas já que nada nem ninguém pode agradar a todos, os sinos já foram alvos de reclamação. “Teve uma época que alguns tentaram silenciar”, lembra o frei Maicon Custódio, que foi membro da Fraternidade de São Francisco de Assis por três anos e hoje mora em Belo Horizonte (MG).
Não é que estivessem desafinados. O frei explica que os sinos são afinados depois da fundição e não precisam de novas afinações. O problema enfrentado na paróquia, até o ano passado, foi a dessincronização. Às vezes, um dos três badalava com atraso. O delay foi resolvido com uma programação feita por aplicativo e criada pelos eletricistas João Carlos Barboeno e Iwan Garcia.
O verdadeiro incômodo da vizinhança era que os sinos tocavam cedo demais. Secretário na igreja, João Carlos de Assis explica que isso foi resolvido com uma mudança. As badaladas das 5h30 e 5h45 foram suspensas. A primeira passou a ser às 6h.
A maioria não se incomoda, acredita o secretário. "Tem muita gente sintonizada com o sino. Quando ele toca porque estão mexendo no sistema para arrumar alguma coisa, ligam aqui para saber o que aconteceu, se morreu alguém", relata.
Católica, a dona de casa Ângela Maria de Oliveira Costa, 51, começa o dia com o som do sino da Paróquia Santa Luzia. O toque não a incomoda, pelo contrário, ajuda a lembrar que mais um dia começa. Um significado particular é a lembrança de quando ela mesma tocava o sino da Comunidade Nossa Senhora do Rosário, na região da comunidade Tia Eva.
"Minha família veio de Rondônia e morou por cinco anos nessa igreja, onde meu pai era caseiro. Na época, eu era adolescente e fiquei com a responsabilidade de arrumar o altar e tocar o sino nos momentos das celebrações. Só que eu tinha medo de badalar no ritmo errado e as pessoas ficarem chateadas. Ele era muito pesado, e eu sempre fui muito pequenininha e magrinha. Eu precisava agachar e levantar para tocar", lembra.

Marido de Ângela Maria, o bombeiro aposentado Silvio Lucas Costa, 50, recorda uma história que escutou no quartel. “Antigamente, quando não tinha telefone, para anunciar que um incêndio estava acontecendo na cidade, o pessoal tocava os sinos das igrejas para avisar que precisavam de auxílio. Isso na época da colonização do Brasil", diz.
Empresário que trabalha num escritório praticamente ao lado da Paróquia São José, Nestor Lemes Barbosa, 83, confirma que o som não é estridente e não incomoda. "Quando estou trabalhando, às vezes nem escuto", fala.
Têm nomes e significados - É Elias o nome do sino da Igreja Nossa Senhora do Carmo, em São João Del-rei (MG), famoso por inspirar poesia de Carlos Drummond de Andrade.

Os da Paróquia São Francisco se chamam São Francisco “da Paz” (homenagem ao arcebispo auxiliar de Corumbá que o abençoou, Dom Ladislau Paz), Santo Antônio “da Proteção” (homenagem ao santo padroeiro da Capital) e Nossa Senhora Imaculada Conceição “da Graça”.
Os da Paróquia São José são o São José (o de 350 kg), o Nossa Senhora Auxiliadora (250 kg), o São João Bosco (150 kg) e o Papa João XXIII (75 kg).
O frei Pedro Renato Pereira da Silva reforça que a função desses instrumentos de percussão no alto de uma igreja é mais do que avisar sobre alguma coisa. Para a Igreja, são sagrados.
“No começo, eram os próprios frades que tocavam o sino nas horas principais do dia: manhã, meio-dia e final da tarde. Além de serem um convite para a santa missa, são um lembrete de Deus. Todos aqueles que escutam se lembram de rezar, da presença de Deus em suas vidas e sabem que, naquele momento, a igreja está em oração por toda a comunidade”, resume.
Mais antigos ainda - A primeira capela de Campo Grande foi construída pelo fundador da cidade, José Antônio Pereira, em 1877. Apesar de simples, feita de taipa e coberta de palha, tinha um sino improvisado de ferro batido. O instrumento é citado num artigo acadêmico apresentado no XXIII Simpósio Nacional de História.
Uma das construções posteriores erguidas no local tinha dois campanários e foi demolida na década de 1970 por problemas estruturais. Havia sinos nela, de acordo com o padre Wagner Divino. Ele comanda a Catedral Nossa Senhora da Abadia e Santo Antônio de Pádua, hoje localizada no mesmo terreno que a antiga capelinha.
Outro templo religioso antigo e patrimônio histórico da Capital é a capela construída por Eva Maria de Jesus, da comunidade Tia Eva. Inicialmente foi erguida em madeira e, em 1919, reconstruída em alvenaria. O prédio tem um sino pequeno que aguarda o fim de obras de restauração para voltar ao lugar.
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