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Ritmo de avanço da covid deve fazer de Campo Grande próximo epicentro da doença

Altos índices de confirmações da doença em 24h são registrados desde meados de junho, com 4.070 até agora e 29 mortos

Por Silvia Frias | 10/07/2020 11:24
Leito de UTI no HR preparado para receber paciente de covid, ainda vazio, já é raridade na cidade (Foto/Arquivo: Chico Ribeiro)
Leito de UTI no HR preparado para receber paciente de covid, ainda vazio, já é raridade na cidade (Foto/Arquivo: Chico Ribeiro)

A rápida evolução dos casos de infecção do novo coronavírus (covid-19) em Campo Grande deve fazer com que a cidade torne-se o novo epicentro da doença em MS nos próximos dias, tirando de Dourados o indesejável posto. A infectologista Mariana Croda analisou índices de junho e julho e também estimou o colapso no serviço de saúde em prazo máximo de 15 dias.

No dia 2 de junho, a SES (Secretaria Estadual de Saúde) classificou Dourados como o novo epicentro da covid-19 em Mato Grosso do Sul. Naquele período, a cidade registrou 339 casos confirmados da doença, ultrapassando Campo Grande, até então, com 317 pessoas infectadas.

Em Dourados, o ritmo acelerado foi decorrente da disseminação do vírus em plantas frigoríficas que atingiu o entorno. Em junho, dos 10 municípios com maior incidência do novo coronavírus, seis estavam na região da Grande Dourados (Douradina, Vicentina, Fátima do Sul, Rio Brilhante e Dourados).

A reportagem avaliou dias de junho e julho e constatou a rápida evolução da infecção em Dourados e Campo Grande. Hoje, juntas, as duas cidades têm 7.350 casos de covid-19, do total de 12.261 infectados em MS.

Em junho, é perceptível a evolução das notificações em Dourados em comparação a Campo Grande. No dia 10 de junho, por exemplo, a cidade tinha 756 casos, com aumento de 82 confirmações em 24 horas, enquanto a Capital somava 434, sendo apenas 12 a mais no período. Essa evolução se manteve até o fim do mês.

Mas a realidade mudou. Em julho, os números em Campo Grande começaram a crescer vertiginosamente. Desde o dia 1º, a capital teve mais casos positivos no período de 24h, o que rapidamente a alçou ao topo do ranking de infecções.

Um exemplo aconteceu ontem, quando Dourados registrou 85 novos casos em 24 hr, enquanto Campo Grande teve 233 confirmações. Hoje, foram mais 258 casos em Campo Grande, que chegou a 4.070 casos confirmados. Em Dourados, foram mais 60 confirmações, totalizando 3.280.

“Com certeza, Campo Grande está se tornando o novo epicentro da doença”, avaliou a infectologista Mariana Croda. O mais preocupante, na avaliação dela, é que a região tem a menor capacidade de leitos disponíveis, mesmo quando se leva em conta a expansão da capacidade nas UTIs, que não acompanha o crescimento da doença.

Dados da SES indicam que todos os CTIs (Centros de Terapia Intensiva) de Campo Grande estão, em média, com 87% dos leitos do SUS (Sistema Único de Saúde) ocupados. No Hospital Regional, unidade de referência do tratamento da covid no Estado, o índice chegou a 93,9%, com internação de 78 pacientes onde há 83 leitos para infectados.

Na Santa Casa, atingiu 99,9% ontem (9). Nessas unidades, os números crescem não somente por causa da covid-19, mas pela alta demanda em saúde na cidade que vive ritmo normal, tendo índices de internações por acidente nos patamares regulares.

Na incidência geral, segundo Mariana, dificilmente algum município irá ultrapassar Guia Lopes da Laguna, distante 236 quilômetros de Campo Grande, por ter população pequena e alto índice de casos, o que já fez da cidade o epicentro da covid. Porém, em análise isolada, a incidência na capital hoje a torna o próximo foco maior da covid-19 em MS.

A infectologista calcula que o colapso no sistema chegará em 15 dias, repetindo cenas já vistas em outros Estados, em que pacientes agonizavam à espera de vaga nas UTIs.

Mariana Croda analisa também que a adoção de teste rápido para identificar casos de covid prejudica estratégia de combate à doença. “Não é adequado, por que você não consegue fazer isolamento das pessoas em tempo oportuno, vai saber que a doença gerou anticorpos, que não transmite mais, mas transmitiu esse tempo todo sem isolamento adequado”.

Além disso, o teste rápido é de baixa sensibilidade, tendo chance maior de resultar em falso diagnóstico, prejudicando mapear a real dimensão da doença nas cidades.