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Capital

Sem abrigo e comida, pessoas passam a noite embaixo de pontilhão

Despejados do Cetremi não sabem o que fazer a partir de agora

Por Mayara Bueno e Yarima Mecchi | 18/12/2016 11:23
Desabrigados, despejados do Cetremi precisaram fazer viaduto 'moradia' improvisada. (Foto: Alcides Neto)
Desabrigados, despejados do Cetremi precisaram fazer viaduto 'moradia' improvisada. (Foto: Alcides Neto)

Despejados, os que antes eram abrigados do Cetremi (Centro de Triagem e Encaminhamento do Migrante) tiveram de dormir na rua e a última refeição que fizeram foi às 17 horas de sábado (17), quando o local fechou as portas. Sem ter para onde ir, oito homens tiveram de fazer do pontilhão na saída de Três Lagoas suas ‘casas’ improvisadas.

A situação chegou a este ponto porque a Justiça determinou o encerramento dos convênios da Prefeitura de Campo Grande com a Omep (Organização Mundial pela Educação Pré-Escolar) e Seleta Sociedade Caritativa e Humanitária, entidades que mantinham funcionários no Cetremi, hoje investigadas e afundadas em escândalos por suspeita de crimes e contratações de funcionários fantasmas.

“Como eu vou trabalhar”, questiona Edmar Costa Santos, 39 anos, lamentando que veio de Quirinópolis (GO) atrás de uma oportunidade, conseguiu um trabalho, mas hoje se vê impedido de continuar no serviço por não ter sequer onde tomar banho e o que comer.

História semelhante vive Joel Ferreira Ramalho. Com 61 anos, o homem viu a realidade piorar do dia para noite, literalmente. Ontem, dois camburões da Guarda Municipal foram até o Cetremi, junto com uma psicóloga e a coordenadora do local, que deram a notícia de que os quase 100 abrigados não poderiam mais ficar no centro.

Nesta manhã, havia oito desabrigados, que afirmaram que alguns dos despejados foram para casa de familiares, mas os que não têm parentes em Campo Grande passaram a noite embaixo do pontilhão. Os que não estavam nesta manhã foram procurar comida, contam.

Diante da situação, os homens pedem é que, quem puder, possa levar almoço para eles. Os desabrigados estão na saída para Três Lagoas, na BR-163, próximo dos bairros Maria Aparecida Pedrossian e Noroeste.

Vindo de longe, desabrigados não sabem onde dormir e o que comer. (Foto: Alcides Neto)
Vindo de longe, desabrigados não sabem onde dormir e o que comer. (Foto: Alcides Neto)
Chão é 'cama' para quem viu realidade piorar do dia para noite. (Foto: Alcides Neto)
Chão é 'cama' para quem viu realidade piorar do dia para noite. (Foto: Alcides Neto)

Portas fechadas – Marcio da Silva, 45 anos, e outro homem de 32 anos, que preferiu não se identificar, foram até o Cetremi hoje. Eles foram atrás de documentos pessoais que ficaram lá, mas as portas estavam fechadas, somente com um guarda municipal fazendo a segurança do local.

Em busca de receber uma dívida de um ex-patrão, o homem de 32 anos veio de Ladário, 419 km de Campo Grande e conseguiu um emprego em uma floricultura por aqui, mas ainda não conseguia se manter sozinho, por isso dormia no Cetremi.

Márcio veio do Paraná para a Capital, também em busca de emprego e estava no abrigo municipal há um mês. Revoltado com a consequência de suspeita de crimes cometidos por outras pessoas, ele chegou a rasgar seu título de eleitor, que havia transferido para Campo Grande. “Não quero mais votar aqui”.

Desabrigados pedem ajuda, para quem puder, levar comida até local improvisado. (Foto: Alcides Neto)
Desabrigados pedem ajuda, para quem puder, levar comida até local improvisado. (Foto: Alcides Neto)

Caos – A situação atual é resultado de uma série de investigações do MPE-MS (Ministério Público Estadual de Mato Grosso do Sul) em relação aos convênios mantidos pelo Município e as duas entidades há quase 20 anos.

A Omep e Seleta mantinham terceirizados que trabalham para a Prefeitura em locais como o Cetremi, creches e Cras (Centro de Referência à Assistência Social), mas os convênios foram rompidos por suspeita de crimes de associação criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e improbidade administrativa por parte dos presidentes e algumas pessoas ligadas às entidades.

Agora, além dos desabrigados, diversos funcionários protestam pedindo para que a decisão de demissão imediata seja revisto. Sem serem demitidos de fato, eles estão impedidos de voltar ao trabalho, mas não receberam qualquer remuneração, nem assinaram as rescisões.

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