Após 12 anos de espera, famílias sem-terra ocupam Incra por reforma agrária
Mobilização começou ainda de madrugada com a presença de cerca de 300 manifestantes
Mais de 300 integrantes do MSTB (Movimento dos Trabalhadores de Verdade Sem Terra do Brasil), ocuparam na manhã desta segunda-feira a sede do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), em Campo Grande. A mobilização começou ainda de madrugada.
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Mais de 300 integrantes do Movimento dos Trabalhadores de Verdade Sem Terra do Brasil (MSTB) ocuparam a sede do Incra em Campo Grande nesta segunda-feira. O grupo, composto por famílias de diversos municípios de Mato Grosso do Sul, protesta contra a morosidade da reforma agrária durante o governo Lula. Os manifestantes reivindicam a desapropriação de fazendas em Ribas do Rio Pardo e Nioaque, além de cobrar explicações sobre a Fazenda São Marcos, em Dourados. Segundo o Incra, mais de 17 mil famílias aguardam atendimento no estado, algumas há mais de 12 anos. A ocupação segue por tempo indeterminado.
A maioria veste camisetas laranjas do movimento, com símbolos de trigo e milho. Os manifestantes vieram de acampamentos de municípios como Ribas do Rio Pardo, Dourados, Campo Grande e Nioaque. Crianças, mulheres e homens participam do ato. Em frente ao prédio, uma faixa cobra o governo federal: “Lula, já foram 3 anos, cadê a reforma agrária?”.
Três viaturas da Polícia Militar permanecem do outro lado da rua. Segundo a corporação, a presença é apenas para garantir a segurança. Não houve registro de confronto. Os manifestantes evitaram entrevistas individuais, alegando que apenas a liderança estava autorizada a se pronunciar.
O movimento afirma que a ocupação é por tempo indeterminado. As famílias pretendem realizar todas as atividades diárias no local, incluindo preparo de refeições e pernoite no prédio. Por conta do ato, o atendimento do Incra ocorre de forma parcial.
Segundo o dirigente nacional do MSTB, Douglas Elias, de 51 anos, há famílias acampadas há mais de 12 anos aguardando um lote da reforma agrária em Mato Grosso do Sul. Ele afirma que, apesar de reconhecer afinidade política com o governo federal, a reforma agrária não avançou no Estado.
A principal cobrança é por decisões concretas, como a definição de áreas, número de famílias a serem assentadas e prazos. O movimento também critica a repetição de reuniões sem encaminhamentos objetivos.
Entre as reivindicações estão a vistoria e desapropriação da Fazenda Andorfato, em Ribas do Rio Pardo, além das fazendas Maravilha e Serra Dourada, em Nioaque. O Incra informou que ainda em janeiro será instaurado processo administrativo e que equipes podem ser enviadas a campo em março, se necessário.
Na região de Naviraí, dois imóveis seguem monitorados. Um deles, com cerca de 600 hectares, já está em Brasília, com negociação finalizada. Outro, com aproximadamente 12 mil hectares, já foi vistoriado, mas os proprietários não aceitaram o valor proposto. Como o Incra tem limite legal de indenização, o impasse permanece. Ambos são considerados imóveis passíveis de aquisição para reforma agrária.
A Fazenda São Marcos, em Dourados, é um dos principais focos do protesto. A área tem 5.574 hectares e cerca de 770 famílias acampadas há mais de dez anos em seu entorno. O MSTB denuncia que o imóvel era classificado como grande devedor da União, mas que o número da matrícula teria sido alterado, retirando a fazenda da lista de áreas destinadas à reforma agrária. O movimento cobra explicações e questiona possível interferência política.
Denúncias de violência e insegurança alimentar
Durante reunião com o Incra, o MSTB denunciou episódios de violência contra acampamentos em Ribas do Rio Pardo. Segundo o relato, seguranças privados teriam ateado fogo em barracos. O órgão informou que recebeu documentos indicando que parte da área ocupada estaria em regime de comodato com o proprietário, o que afastaria a caracterização de invasão, mas afirmou que o caso será apurado e encaminhado à Secretaria de Segurança Pública.
As famílias também relataram situação de insegurança alimentar e pediram cestas básicas. O Incra explicou que essa não é uma atribuição direta do órgão, mas se comprometeu a buscar encaminhamentos junto a outros setores do governo.
O superintendente substituto do Incra e do MDA (Ministério do Desenvolvimento Agrário) e Agricultura Familiar, Adilson Nascimento dos Santos, afirmou que, quando um imóvel é obtido, a prioridade de assentamento é para famílias acampadas no próprio município ou no entorno, com ampliação gradual do raio até atingir o número necessário. Segundo ele, mais de 17 mil famílias aguardam atendimento no Estado.
Também presente na reunião, o superintendente substituto do MDA, Sidney, afirmou que a pauta já chegou à esfera nacional. “Hoje estamos substituindo os titulares e já providenciamos. Essa pauta já é de conhecimento nacional e a assessoria lá está verificando. A gente pode dar uma devolutiva. Praticamente esgotamos as pautas colocadas agora no auditório. Em alguns pontos, estamos aguardando feedback para repassar ao movimento que hoje está aqui fazendo essas reivindicações”, disse.
De acordo com o Incra, entre 80% e 90% das demandas apresentadas receberam algum tipo de resposta. Permanecem pendentes questões consideradas centrais pelo movimento, como a presença do ministro do MDA e do presidente nacional do INCRA. Enquanto isso, a ocupação segue sem data para terminar.





