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Capital

Traficante e sequestrador de avião, Palermo passará 20 dias em isolamento total

Conheça como será a rotina de Gerson Palermo na Penitenciária Federal de Campo Grande após 6 anos foragido

Por Anahi Zurutuza | 28/05/2026 19:42
Traficante e sequestrador de avião, Palermo passará 20 dias em isolamento total
Cela de isolamento nas unidades do Sistema Penitenciário Federal, com área individual para banho de sol (Foto: Simulação feita por IA)

Narcotraficante internacional com histórico de “façanhas” criminais que incluem o sequestro de um avião, Gerson Palermo passará 20 dias em isolamento total na Penitenciária Federal de Campo Grande. Depois de 6 anos foragido e vivendo em povoado na Bolívia sob o disfarce de fazendeiro bem-sucedido, o homem de 68 anos foi internado no RDD (Regime Disciplinar Diferenciado) às 10h30 desta quinta-feira (28).

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Gerson Palermo, narcotraficante com 126 anos em condenações e apontado como liderança do PCC, foi internado no Regime Disciplinar Diferenciado da Penitenciária Federal de Campo Grande após ser capturado na Bolívia, onde vivia foragido há seis anos. Ele cumprirá 20 dias em isolamento total, sem contato com outros presos, televisão ou celular, com visitas permitidas apenas a cada 15 dias, separado por vidro blindado.

A inclusão do criminoso que acumula 126 anos em condenações na modalidade mais severa de cumprimento de penas dentro do sistema prisional brasileiro encerra uma trajetória de mais de duas décadas marcada por crimes de repercussão nacional, fugas e atuação no tráfico internacional de cocaína na fronteira entre Brasil e Bolívia.

Considerado pelas autoridades brasileiras um dos homens mais perigosos do país, Palermo desembarcou em Mato Grosso do Sul na noite de quarta-feira (27), depois de ser capturado em território boliviano durante operação conjunta da Polícia Federal brasileira e da FELCN (Força Especial de Luta Contra o Narcotráfico) boliviana.

Ele passou a noite na Superintendência da PF em Campo Grande, foi escoltado até o Fórum da Capital para audiência de custódia (que verificou a legalidade da prisão) e depois ingressou no presídio federal, onde começou a cumprir o protocolo de inclusão destinado a líderes de organizações criminosas e presos de alta periculosidade.

Palermo almoçou arroz, feijão, proteína, salada, fruta e suco, a refeição padrão oferecida aos internos. Em seguida, nesta tarde, participou por videoconferência de audiência em processo que responde na 3ª Vara Criminal da Capital.

Traficante e sequestrador de avião, Palermo passará 20 dias em isolamento total
Uniforme e materiais de higiene são entregues a internos no primeiro dia (Foto: Reprodução)

Segundo policial penal federal ouvido pela reportagem, Palermo ficará inicialmente 20 dias em isolamento absoluto na chamada “cela de inclusão”, espaço reservado à triagem de presos recém-chegados. “Todo preso que é incluído no Sistema Penitenciário Federal passa por um período de triagem e fica em cela destinada para isso. Período de triagem são 20 dias. É o período em que o preso realiza o cadastro e faz avaliações médicas, psicológicas e jurídicas”.

Durante esse período, o detento permanece sem contato com outros internos, enquanto aprende toda a rotina da unidade federal. Conforme informações da Senappen (Secretaria Nacional de Políticas Penais), é nesta fase que o preso recebe uniforme padronizado, materiais de higiene pessoal e orientações sobre direitos e deveres dentro da prisão.

No presídio federal da Capital, que tem 12 mil metros quadrados de área construída, quatro alas de vivência e 208 celas individuais, Palermo cumprirá o isolamento total em área de 14 metros quadrados com espaço individual para o banho de sol.

A estrutura é totalmente planejada para impedir tentativas de fuga. Cama, banco, prateleiras e apoio para refeições são moldados em concreto diretamente na parede. Há ainda sanitário, pia e chuveiro.

Traficante e sequestrador de avião, Palermo passará 20 dias em isolamento total
Cela padrão, de 7 metros quadrados, na Penitenciária Federal de Campo Grande (Foto: Reprodução)

Depois da “quarentena”, se tudo transcorrer normalmente, poderá ser levado para outra ala, onde as celas têm metade do tamanho da atual, mas os internos passam a poder conviver durante os banhos de sol. Nesta nova etapa, o interno permanece entre 22 e 23 horas por dia trancado sozinho em espaço que é monitorado por áudio e vídeo 24 horas. O banho de sol é limitado a duas horas diárias e ocorre em grupos reduzidos, separados por critérios de segurança para evitar contato entre integrantes da mesma facção criminosa, por exemplo.

As visitas familiares no RDD acontecem apenas a cada 15 dias, com duração máxima de duas horas e limite de dois visitantes adultos por vez. O encontro ocorre em parlatório, separado por vidro blindado e comunicação por interfone, sem qualquer contato físico. Todas as conversas são gravadas, exceto os atendimentos advocatícios.

A comunicação externa também é controlada. Correspondências passam por fiscalização rígida e não há acesso a televisão, rádio, celular ou qualquer aparelho eletrônico. O regime pode durar até dois anos consecutivos e ser renovado judicialmente caso permaneçam os indícios de periculosidade.

A Penitenciária Federal de Campo Grande integra o sistema nacional de segurança máxima administrado pela Senappen e segue o mesmo modelo arquitetônico das unidades de Catanduvas (PR), Mossoró (RN), Porto Velho (RO) e Brasília (DF).

Traficante e sequestrador de avião, Palermo passará 20 dias em isolamento total
Unidade federal de segurança máxima, para abrigo de presos perigosos (Foto: Senappen/Divugação)

Vida no crime – Apontado pelas autoridades como liderança no PCC (Primeiro Comando da Capital), Palermo estava foragido desde 2020. Ele acumula aproximadamente 126 anos em condenações por tráfico internacional de drogas, roubos e sequestros.

O fato mais conhecido da ficha criminal ocorreu em agosto de 2000, quando liderou o sequestro de um Boeing 727 da Vasp que fazia a rota Foz do Iguaçu-Curitiba. Na ocasião, homens armados renderam tripulação e passageiros e obrigaram o piloto a pousar em pista clandestina no Paraná para roubar cerca de R$ 5,5 milhões em malotes do Banco do Brasil transportados na aeronave.

As investigações apontam que, após o “evento cinematográfico”, Palermo passou a atuar no tráfico internacional de cocaína, utilizando rotas entre Bolívia e Brasil. Em 2017, ele foi alvo da Operação All In, da Polícia Federal, que investigou organização criminosa responsável pelo transporte aéreo e terrestre do entorpecente. Mais tarde, acabou condenado pela Justiça Federal em Campo Grande.

O nome do narcotraficante também ficou ligado a um dos maiores escândalos do Judiciário sul-mato-grossense. Em 2020, Palermo deixou o Presídio Federal de Campo Grande após conseguir prisão domiciliar concedida pelo desembargador Divoncir Schreiner Maran durante a pandemia da covid-19. A decisão posteriormente levou à investigação do magistrado sob suspeita de venda de sentença. Depois de obter liberdade, Palermo rompeu a tornozeleira eletrônica e desapareceu.

Traficante e sequestrador de avião, Palermo passará 20 dias em isolamento total
Gerson Palermo deixando Fórum de Campo Grande nesta quinta-feira (28), rumo ao presídio federal da Capital (Foto: Juliano Almeida)

Sequestro da filha – Menos de 24 horas após chegar ao Brasil, Palermo foi interrogado, por videoconferência, na ação judicial que o acusa de ser o mandante do sequestro da própria filha, em outubro do ano passado. Ou seja, enquanto ele estava foragido na Bolívia e se passava por empresário de sucesso do agronegócio em Cotoca, povoado a 19 km de Santa Cruz de la Sierra, a mais populosa cidade do país vizinho.

Conforme a investigação da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, a jovem foi atraída após receber ligação do pai informando que enviaria dinheiro para ajudar no tratamento da avó materna. Ao sair do trabalho, entrou em um carro ocupado por homens armados e foi levada para uma casa na região das Moreninhas, onde permaneceu em cárcere.

Os sequestradores enviaram fotos dela amarrada para familiares e fizeram ameaças de morte durante negociações por dinheiro. A Polícia Civil afirma que o sequestro estaria ligado a disputas financeiras envolvendo o tráfico de drogas. Durante o depoimento, nesta quinta-feira (28), ele negou qualquer envolvimento com o caso.

Foi justamente o sequestro da filha que recolocou Palermo no radar das forças de segurança brasileiras. Depois de libertada pelos sequestradores, a jovem contou aos investigadores que o pai teria ordenado o sequestro e informou que Palermo estava escondido na Bolívia junto da mãe dela. A partir daí, teve início a investigação conjunta entre a Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, a Polícia Federal e a FELCN, que culminou na prisão do narcotraficante nesta terça-feira.