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Capital

Tragédia por imóvel leiloado ocorre em meio a um histórico de dívidas de Bernal

Morte ocorreu em casa de alto padrão com IPTU atrasado e se soma a ações por milhões, pensão e briga por gleba

Por Jhefferson Gamarra | 24/03/2026 17:13

O assassinato do auditor fiscal Roberto Carlos Mazzini, de 61 anos, ocorrida na tarde desta terça-feira (24), em Campo Grande, acontece em um contexto marcado por disputas judiciais e pendências financeiras envolvendo o ex-prefeito Alcides Bernal. O caso ocorreu em um imóvel de alto padrão que havia sido levado a leilão por dívidas e se insere em um conjunto mais amplo de processos nas esferas cível, administrativa e familiar acumulados ao longo dos últimos anos.

RESUMO

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O ex-prefeito de Campo Grande, Alcides Bernal, é acusado do assassinato do auditor fiscal Roberto Carlos Mazzini, de 61 anos, durante tentativa de posse de um imóvel arrematado em leilão. O crime ocorreu quando a vítima chegava à residência, avaliada em R$ 3,7 milhões, acompanhada de um chaveiro. O episódio se soma a uma série de problemas judiciais enfrentados por Bernal, incluindo uma condenação que exige a devolução de R$ 2,9 milhões aos cofres públicos, dívidas de IPTU superiores a R$ 340 mil e pendências de pensão alimentícia estimadas em R$ 172 mil. Após o crime, o ex-prefeito se apresentou à polícia.

De acordo com as informações apuradas pelo Campo Grande News, o crime aconteceu no momento em que o auditor, arrematante do imóvel em leilão judicial, chegou ao local acompanhado de um chaveiro para tomar posse da residência. O imóvel, avaliado em R$ 3,7 milhões, havia sido levado a leilão em 2025 justamente por conta de pendências financeiras.

Bernal, que ainda ocupava o imóvel, não aceitava a perda da propriedade. Durante a tentativa de acesso, o auditor foi atingido por disparos na varanda da casa. Equipes de socorro ainda tentaram reanimá-lo por cerca de 25 minutos, mas ele não resistiu. Após o crime, o ex-prefeito deixou o local sem prestar socorro, apresentando-se posteriormente à polícia.

Tragédia por imóvel leiloado ocorre em meio a um histórico de dívidas de Bernal
Equipe da PM em frente ao imóvel alvo de disputa entre Bernal e o servidor público (Foto: Renan Kubota)

A residência, em um dos bairros com o m² mais caros de Campo Grande, onde ocorreu o homicídio, simboliza um dos principais pontos de conflito envolvendo o ex-prefeito. Embora ainda conste em nome da Caixa Econômica Federal, o imóvel acumula débitos expressivos de IPTU desde 2018. Extrato da Prefeitura de Campo Grande aponta que a dívida total chega a R$ 344.923,14, já considerando juros e multas. Parte desses valores está inscrita em dívida ativa e também foi alvo de judicialização, evidenciando um histórico prolongado de inadimplência fiscal.

O episódio mais recente se soma a uma sequência de problemas judiciais que se arrastam há anos. Um dos principais envolve condenação por irregularidades em convênios firmados com organizações sociais durante sua gestão à frente da prefeitura. O Ministério Público de Mato Grosso do Sul cobra do ex-prefeito, em conjunto com seu vice da época, a devolução de cerca de R$ 8,5 milhões aos cofres públicos. Desse total, aproximadamente R$ 2,9 milhões são atribuídos a Bernal. A condenação está relacionada a contratos considerados irregulares com entidades como a Omep e a Seleta, que, segundo o Ministério Público, violaram a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Mesmo após decisão judicial transitada em julgado, os valores não foram pagos. Em agosto de 2023, a Justiça chegou a determinar o bloqueio on-line de contas bancárias por meio do sistema Sisbajud, mas não foram encontrados recursos. Diante disso, o MPMS passou a pedir a penhora de imóveis como forma de garantir o ressarcimento. A dívida, que já havia sido atualizada anteriormente, continua a crescer com a incidência de juros.

Tragédia por imóvel leiloado ocorre em meio a um histórico de dívidas de Bernal
Ex-prefeito de Campo Grande durante entrevista ao Campo Grande News (Foto: Arquivo)

Paralelamente às pendências com o poder público, Bernal também enfrenta uma execução judicial na esfera familiar. A ação foi movida por um de seus filhos e cobra valores referentes a pensão alimentícia não paga entre 2013 e 2016. Conforme consta na petição, foram acumulados 36 meses de inadimplência, além de dois 13º salários. O valor cobrado inicialmente era de R$ 112.252,23, montante que pode alcançar cerca de R$ 172 mil após atualização monetária.

O documento aponta que havia acordo judicial homologado prevendo o pagamento da pensão, inclusive com desconto direto dos subsídios do então prefeito. No entanto, após sua cassação, os pagamentos teriam sido interrompidos. A petição descreve ainda que o filho tentou diversas formas de contato para resolver a situação de forma amigável, sem sucesso.

No processo, há relatos de dificuldades financeiras, incluindo a interrupção de estudos por falta de recursos, além da alegação de abandono material. A Justiça determinou prazo para pagamento sob pena de multa, honorários e possibilidade de penhora de bens, além de eventual comunicação ao Ministério Público por possível crime.

Tragédia por imóvel leiloado ocorre em meio a um histórico de dívidas de Bernal
Local arrendado pelo ex-prefeito para a exploração agrícola alvo de disputa em Sidrolândia (Foto: Reprodução)

Outro ponto de conflito envolve uma área rural em Sidrolândia. A Justiça de Mato Grosso do Sul reconheceu a inadimplência de Bernal em um contrato de arrendamento firmado em 2019, que previa pagamentos semestrais de R$ 3 mil. Segundo a decisão, não houve comprovação de pagamento das parcelas entre julho de 2020 e janeiro de 2021, o que levou à rescisão do contrato, reintegração de posse ao proprietário e determinação de despejo. Além disso, o ex-prefeito foi condenado ao pagamento dos valores em atraso, acrescidos de correção monetária, juros de 1% ao mês e multa contratual de 10%.

Bernal contestou a decisão, afirmando que nunca teve posse da área e que apenas teria ajudado o proprietário com insumos para plantio de mandioca. Ainda assim, o caso evoluiu para novos desdobramentos.

Em 13 de março deste ano, ele procurou a polícia alegando que um outro lote que lhe pertencia havia sido invadido. Um boletim de ocorrência foi registrado após uma equipe policial ir até o local, onde encontrou uma mulher e um homem que afirmou ter entrado na área por orientação do Incra, embora sem documentação formal. O casal envolvido se recusou a deixar o imóvel, sendo encaminhado à delegacia junto com o ex-prefeito para registro da ocorrência.

Os moradores do local contestam a versão apresentada pelo ex-prefeito e relatam um histórico mais amplo de conflitos fundiários ligados à mesma área. O sitiante que preferiu não se identificar afirmou que “aqui na região tem bastante problema envolvendo o Bernal” e citou a existência de uma farinheira instalada dentro de área de assentamento. “Ele queria montar uma farinheira aqui na região e começou a arrendar vários lotes para plantar mandioca. Isso acabou dando um prejuízo para o pessoal da região, porque é toda área de assentamento do INCRA”, declarou.

Segundo o morador, acusado de invasão por Bernal, a disputa pelo lote específico onde houve a ocorrência policial começou durante uma vistoria do Incra para verificar ocupação e uso da terra. Nesse momento, conforme o relato, Bernal teria registrado boletim de ocorrência alegando ser o legítimo possuidor da área e, posteriormente, ingressado com ação de reintegração de posse usando o nome de outra pessoa.

O sitiante também relaciona o caso a outras situações semelhantes na região. “Ele arrendou áreas dizendo que ia plantar mandioca para a farinheira. A farinheira está aqui no lote, mas nunca funcionou. Está nova, nunca foi ligada”, disse. Segundo ele, as ações teriam começado entre 2015 e 2016, período em que Bernal retornou à prefeitura, envolvendo arrendamentos e negociações de lotes sem conclusão de pagamento. “Ele começou a pegar lotes, arrendar, alguns ele comprava dando entrada e não pagava o restante. E nos processos ele não apresenta documento provando que a área é dele”, relatou.

Ainda conforme o responsável pela área rural, o episódio com a polícia ocorreu quando Bernal teria ido até o assentamento acompanhado de uma guarnição para tentar retirar os ocupantes. “Ele chegou aqui com a Polícia Militar pedindo para a gente desocupar a área, sem apresentar documento. O comandante perguntou pelos documentos e ele não apresentou. Aí mandaram todo mundo ir para a delegacia”, afirmou.

O morador destacou que o Incra já teria realizado vistoria no local e confirmado a ocupação regular pelos atuais residentes. “O INCRA veio, tirou fotos e comprovou que nós estamos morando e usando a área. Área do INCRA não pode ser vendida, é destinada à reforma agrária. Só passa a ser propriedade depois que é titulada, e essa área nunca foi titulada para ele nem para Maria das Dores”, disse.

Ele acrescenta que, apesar de a disputa recente ter motivado a presença policial, não era a primeira vez que situações semelhantes ocorriam na região. “Aqui tem outras áreas que ele fez a mesma coisa: comprou de cooperados, não pagou e depois tentou tomar”, afirmou.

Esse conjunto de situações evidencia uma sequência de conflitos patrimoniais e judiciais envolvendo o ex-prefeito, que inclui desde condenações milionárias por danos ao erário até disputas por posse de imóveis e dívidas pessoais. No caso mais recente, o imóvel que motivou o homicídio já estava judicialmente comprometido, com leilão realizado e posse transferida ao arrematante.

Com Alcides Bernal incomunicável após a prisão, a reportagem tentou contato por telefone, mas as ligações foram direcionadas à caixa postal e não houve retorno até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto para manifestações da defesa ou do próprio ex-prefeito.